Kiko de Assis

 

A casa virou produto. E pior: produto barato. Em poucos cliques, qualquer pessoa pode hoje comprar um projeto pronto na internet, uma “caixa” genérica, empilhada em linhas retas, vendida como solução moderna e eficiente. Sem contexto, sem clima, sem história. Um arquivo digital que promete resolver tudo, mas que, na prática, ignora quase tudo que importa.

O problema não é apenas a existência desses projetos. É a naturalização desse modelo. É o fato de que estamos aceitando, sem o devido incômodo, que a arquitetura seja tratada como mercadoria de prateleira, replicável, impessoal e descartável.

A “caixa de concreto” deixou de ser apenas uma linguagem para se tornar um sintoma. Sob o discurso da economia e da praticidade, consolidou-se como padrão. Rígida, repetitiva, indiferente ao entorno. Uma solução que não escuta o lugar nem quem vai habitá-lo.

E, nesse processo, o arquiteto vai sendo silenciosamente rebaixado. De autor a operador. De intérprete a replicador. Projetos comprados a preço de banana passam a orientar decisões que deveriam nascer do diálogo, da leitura do território, da compreensão do modo de vida.
Há uma inversão perigosa em curso. O cliente, em vez de ser atendido em sua singularidade, é encaixado em um molde pré-definido. E isso vem sendo vendido como “minimalismo”, “linguagem contemporânea” ou “otimização de custos”. Mas não há sofisticação em cortar qualidade. Não há

conceito em ignorar o clima. Não há inteligência em padronizar a vida.
O resultado está à vista: materiais de baixa durabilidade, ambientes termicamente desconfortáveis, espaços que não envelhecem bem, nem técnica, nem afetivamente. Casas que exigem correções constantes. Edifícios que dependem de soluções artificiais para compensar erros básicos de projeto…

No Sul da Bahia, essa distorção é ainda mais evidente. Em uma região onde a tradição construtiva sempre soube lidar com o calor, com a ventilação, com a relação entre dentro e fora, o que se vê hoje é o avanço de uma arquitetura que fecha, isola e desconsidera. Varandas desaparecem.

Sombreamentos são ignorados. A paisagem vira pano de fundo, quando poderia ser protagonista.
Perde-se, junto com isso, algo mais sutil e mais grave: a personalidade do habitar. A leveza, o ritmo, a informalidade, a tal “alma bucólica” que nunca foi sinônimo de atraso, mas de inteligência adaptativa. Em seu lugar, surge uma estética dura, genérica, que poderia estar em qualquer lugar e, por isso mesmo, não pertence a lugar nenhum.

Arquitetura não é catálogo. Não é download. Não é fórmula replicável.

Quando aceitamos isso, abrimos mão do que sustenta a profissão: a capacidade de interpretar realidades e transformar necessidades em espaço qualificado. Mais do que isso, abrimos mão da responsabilidade ética de construir melhor, não apenas mais barato.

É claro que o custo importa. Sempre importou. Mas economia sem critério é só precarização com outro nome. O que está em jogo não é apenas a qualidade dos projetos. É o próprio sentido da arquitetura. Se continuarmos nesse caminho, corremos o risco de nos tornar irrelevantes, profissionais que apenas aplicam soluções compradas, repetem tendências e legitimam decisões que não são, de fato, nossas.

A pergunta que fica é simples, e incômoda: estamos projetando ou apenas reproduzindo?
Porque, quando a arquitetura vira cópia, o arquiteto vira sombra. E uma profissão que aceita viver de reflexo, mais cedo ou mais tarde, deixa de ter luz própria

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Kiko de Assis é Arquiteto e Urbanista