Jumento, o “herói do sertão”, dando a volta por cima

Abandonado e desprezado há mais de 40, o jumento nordestino hoje começa a dar a volta por cima. Nos últimos três anos, o animal teve uma valorização superior a 1.200%, sinal claro de que volta a ser reconhecido por seu valor econômico, social e produtivo.
Apesar disso, ainda é comum encontrar jumentos soltos em vias públicas, rodovias, margens de rios e praias. Essa presença está diretamente relacionada à sua extraordinária capacidade de adaptação ao agreste e ao semiárido, além de sua eficiência reprodutiva. O Nordeste oferece condições climáticas muito semelhantes às da região de origem do jumento, a Etiópia, o que explica sua excelente adaptação e proliferação.
Atentos a esse novo cenário, muitos criadores da caatinga passaram a enxergar oportunidades e voltaram a valorizar o “herói antes desprezado”, que hoje encontra abrigo, manejo adequado e alimentação até o cumprimento completo de seu ciclo produtivo.
Zootecnistas e médicos-veterinários, por força de seus juramentos profissionais, têm a missão de atuar com uma visão humanitária, conciliando o desenvolvimento humano com a produção animal. Cabe a esses profissionais fomentar o avanço técnico e científico, garantir qualidade aos produtos de origem animal e incentivar a consolidação de cadeias produtivas sustentáveis.
O Brasil é um país vocacionado para a produção de proteínas, como demonstra o bem-sucedido case da bovinocultura. O país possui hoje o segundo maior rebanho bovino do mundo e é o maior produtor e exportador global. Os pecuaristas brasileiros colocam no mercado cerca de 40 milhões de animais por ano, com crescimento anual entre 1,5% e 2% sobre um rebanho superior a 230 milhões de cabeças. O segredo desse sucesso é claro: valorização do animal.
Sem valorização e sem função social, o animal doméstico tende ao abandono, correndo o risco de existir apenas em zoológicos no futuro. Quando há valorização, ocorre o contrário: investe-se, cuida-se, produz-se, recria-se, engorda-se e o ciclo produtivo se renova, garantindo sustentabilidade e viabilidade econômica.
No entanto, há quem jogue contra esse processo, propagando a falsa narrativa de extinção dos jumentos no Brasil. A própria Lista de Vigilância Mundial da FAO/ONU para a Diversidade de Animais Domésticos é clara. No capítulo “Critérios para determinar raças em risco”, estabelece-se que, se o número total de fêmeas e machos reprodutores for superior a 1.000 e 20, respectivamente, a raça é classificada como fora de risco de extinção.
Essa é a definição oficial para uma raça considerada fora de risco. Portanto, não existe qualquer base técnica ou científica que permita classificar os jumentos do Brasil como uma espécie ameaçada de extinção.
Números são inventados e, de forma irresponsável, apresentados como oficiais. O último dado oficial sobre a população de asininos no Brasil foi levantado pelo Censo Agropecuário do IBGE em 2017. Desde então, não houve novo levantamento oficial. A afirmação de que 94% dos jumentos desapareceram do Brasil é falsa, caluniosa e desprovida de embasamento técnico. O que ocorreu foi um grave subcadastramento, em nível tal que levou à retirada da espécie *dos dados ou publicações oficiais* posteriores a 2017.
O Brasil reúne as melhores condições do mundo para a produção de proteína, colágeno e leite de asininos, com *custos muito competitivos*. O semiárido, mesmo com baixos índices pluviométricos que inviabilizam a criação de espécies mais exigentes do ponto de vista nutricional possui terras de baixo custo, potencial de águas subterrâneas e vegetação de caatinga.
Esse conjunto de fatores (clima, vegetação e água), aliado ao manejo adequado e ao controle zootécnico da produção, torna o sistema produtivo do jumento altamente eficiente e sustentável. Assim, abre-se caminho para devolver vida digna, valor econômico e reconhecimento ao verdadeiro herói do sertão nordestino.
—
Alex Bastos é zootecnista e administrador do setor pecuário
(Fotos: Divulgação)













