{"id":998,"date":"2011-01-23T09:31:00","date_gmt":"2011-01-23T12:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2011\/01\/23\/quem-bate-nao-e-o-frio-nem-o-lobo-mau\/"},"modified":"2011-01-23T09:31:00","modified_gmt":"2011-01-23T12:31:00","slug":"quem-bate-nao-e-o-frio-nem-o-lobo-mau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2011\/01\/23\/quem-bate-nao-e-o-frio-nem-o-lobo-mau\/","title":{"rendered":"Quem bate? N\u00e3o \u00e9 o frio. Nem o lobo mau"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/TTwfzJ5qpGI\/AAAAAAAAB5I\/s7Rn46k7wNs\/s1600\/tres%2Bporquinhos.jpg\"><img style=\"display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 313px; height: 320px;\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/TTwfzJ5qpGI\/AAAAAAAAB5I\/s7Rn46k7wNs\/s320\/tres%2Bporquinhos.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5565358203214668898\" \/><\/a><br \/>Quem tem mais de quarenta anos de idade deve se lembrar, mergulhando nos rec\u00f4nditos da mem\u00f3ria, de um comercial em desenho animado, ainda na televis\u00e3o em preto e branco, que come\u00e7ava com batidas na porta de uma casa.<\/p>\n<p> -Quem bate?, pergunta a dona da casa.<\/p>\n<p>-\u00c9 o frio!, responde o vozeir\u00e3o amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>Entra uma m\u00fasica instrumental suave e a mulher diz, cantarolando:<\/p>\n<p>-N\u00e3o adianta bater, que eu n\u00e3o deixo voc\u00ea entrar, as Casas Pernambucanas \u00e9 que v\u00e3o aquecer o meu lar.<\/p>\n<p>Dito isto, cobre o filhinho com um cobertor Parahyba (com todos os ag\u00e1s e ipsilones, para deix\u00e1-lo mais aquecido), naquele que \u00e9 um lar borbulhando de amor, de harmonia.<\/p>\n<p>E  de  seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Hoje, qualquer crian\u00e7a com um m\u00ednimo de no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a vida (a cada dia as crian\u00e7as \u00b4adolescem\u00b4 mais cedo), sabe que uma batida na porta pode significar nem o frio e nem o lobo mau.<\/p>\n<p>Talvez um lobo mau sim, mas n\u00e3o o dos contos infantis, feito de bobo pelos tr\u00eas porquinhos, e sim o homem mau com o instinto sanguin\u00e1rio de um lobo feroz.<\/p>\n<p>Eun\u00e1polis, Sul da Bahia, noite chuvosa de 17 de janeiro de 2011.<\/p>\n<p>Uma casa simples na periferia da cidade. <\/p>\n<p>Batem na porta. Uma, duas, tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>N\u00e3o era um vizinho pedindo um favor ou um parente distante que chegava para uma visita sem avisar.<\/p>\n<p>A porta foi aberta e eles entraram, amea\u00e7adores.<\/p>\n<p>Eram os lobos. Tr\u00eas lobos\/homens encapuzados.<\/p>\n<p>Vorazes e letais.<\/p>\n<p>Na casa, estavam Sirleia de Souza Santos, 38 anos, suas filhas Rosiane Souza Santos, 21 anos, Valdiele Santos Reis, 16 anos, e tr\u00eas crian\u00e7as de 5, 4 e 3 anos; al\u00e9m do marido de Sirleia, Josevaldo Andrade Souza, conhecido com Solteiro. <\/p>\n<p>Era ele o alvo dos tr\u00eas homens. Ao perceberem que  escapou,  atacaram as tr\u00eas mulheres.<\/p>\n<p>Sirleia, Rosiane e Valdiele foram mortas com facadas certeiras no pesco\u00e7o, sangue e vidas se esvaindo diante das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c0 brutalidade indescrit\u00edvel, soma-se \u00e0 banalidade da vida (ou da morte). <\/p>\n<p>Sirleia, Rosiane e Valdiele foram assassinadas por causa de uma d\u00edvida de 105 reais que Solteiro, usu\u00e1rio de crack, tinha com  os traficantes.<\/p>\n<p>105 reais! Na frieza da matem\u00e1tica, a vida de cada uma das tr\u00eas desafortunadas mulheres valeu 35 reais.<\/p>\n<p>No c\u00f3digo de (des)honra do tr\u00e1fico, a vida vale umas poucas pedras de crack. N\u00e3o vale coisa alguma.<\/p>\n<p>-0-<\/p>\n<p>Quando a pol\u00edcia chegou ao local do crime, encontrou tr\u00eas  corpos sem vida espalhados pela sala da casa e tr\u00eas crian\u00e7as em estado de choque, como se tivessem acabado de presenciar a apari\u00e7\u00e3o de monstros imagin\u00e1rios, mas que haviam presenciado a apari\u00e7\u00e3o de monstros reais.<\/p>\n<p>A televis\u00e3o, colorida, estava ligada. <\/p>\n<p>As Casas Pernambucanas faliram, os cobertores Parahyba (som seus ag\u00e1s e ipsilones) sumiram das lojas.<\/p>\n<p> Junto com eles, parece ter desaparecido tamb\u00e9m o sentido de lar seguro.<\/p>\n<p>A vida em cores nos empurra cada vez mais para as trag\u00e9dias em preto e branco, manchadas com o vermelho de sangue.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem tem mais de quarenta anos de idade deve se lembrar, mergulhando nos rec\u00f4nditos da mem\u00f3ria, de um comercial em desenho animado, ainda na televis\u00e3o em preto e branco, que come\u00e7ava com batidas na porta de uma casa. -Quem bate?, pergunta a dona da casa. -\u00c9 o frio!, responde o vozeir\u00e3o amea\u00e7ador. 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