{"id":94755,"date":"2019-09-22T09:48:12","date_gmt":"2019-09-22T12:48:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=94755"},"modified":"2019-09-22T09:50:22","modified_gmt":"2019-09-22T12:50:22","slug":"94755","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2019\/09\/22\/94755\/","title":{"rendered":"O triste fim de Jair Messias Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Jos\u00e9 Eduardo Agualusa<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-94758\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/agualuiza-300x300.jpg\" alt=\"agualuiza\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/agualuiza-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/agualuiza-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/agualuiza.jpg 350w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secret\u00e1ria e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no arm\u00e1rio, esfor\u00e7ando-se para que os seus gestos n\u00e3o tra\u00edssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de S\u00e3o Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito pr\u00f3ximo de Jair, tentou brincar: &#8220;N\u00e3o estou sabendo, mas n\u00e3o vou entrar em arm\u00e1rio nenhum. Isso n\u00e3o \u00e9 h\u00e9tero.&#8221; Michelle, que tamb\u00e9m se recusava a entrar no arm\u00e1rio, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Pal\u00e1cio da Alvorada.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o edif\u00edcio j\u00e1 n\u00e3o se chamava mais Pal\u00e1cio da Alvorada. Jair oficializara a mudan\u00e7a de nome: &#8220;Alvorada \u00e9 coisa de comunista!&#8221; \u2014 Esbravejara: &#8220;Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha.&#8221;<\/p>\n<p>O edif\u00edcio passara ent\u00e3o a chamar-se Pal\u00e1cio do Crep\u00fasculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes sa\u00eda-lhe grup\u00fasculo, outras prep\u00facio, mas achava-a s\u00f3lida, m\u00e1scula, marcial. Ningu\u00e9m se op\u00f4s.<\/p>\n<p>Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Pal\u00e1cio do Crep\u00fasculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as m\u00e3os tr\u00eamulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.<\/p>\n<p>\u2014 Largue a pistola, n\u00e3o vale a pena!<\/p>\n<p>A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as m\u00e3os, apontando-a para o intenso abismo \u00e0 sua frente:<\/p>\n<p>\u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>Viu ent\u00e3o surgir um imenso veado albino, com uma arma\u00e7\u00e3o incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condena\u00e7\u00e3o. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos.<\/p>\n<p>Vinha tendo pesadelos h\u00e1 meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um \u00edndio velho \u00e0 sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:<\/p>\n<p>\u2014 Porra! Quem \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Tenho muitos nomes. \u2014 Disse o velho. \u2014 Mas pode me chamar Anhang\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 real!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! \u00c9 a porra de um sonho! Um sonho mau!<\/p>\n<p>O \u00edndio sorriu. Era um sorriso bonito, por\u00e9m nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas tamb\u00e9m ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos l\u00e1bios:<\/p>\n<p>\u2014 Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Levar para onde, \u00f4 para\u00edba? N\u00e3o saio daqui, n\u00e3o vou para lugar nenhum.<\/p>\n<p>\u2014 Vou levar voc\u00ea para a floresta.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 entendi. Michelle me explicou esse neg\u00f3cio dos pesadelos. Voc\u00ea \u00e9 meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amaz\u00f3nia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo \u00e9 s\u00f3 \u00e1rvore in\u00fatil, n\u00e3o tem serventia. Mas no subsolo h\u00e1 muito ni\u00f3bio. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 ni\u00f3bio? N\u00e3o sabe porque voc\u00ea \u00e9 \u00edndio, e \u00edndio \u00e9 burro, \u00e9 pregui\u00e7oso. O pessoal faz cord\u00e3ozinho de ni\u00f3bio. As vantagens em rela\u00e7\u00e3o ao ouro s\u00e3o as cores, e n\u00e3o tem reac\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica. Ni\u00f3bio \u00e9 muito mais valioso que o ouro.<\/p>\n<p>O \u00edndio sacudiu a cabe\u00e7a, e agora j\u00e1 n\u00e3o era um \u00edndio, n\u00e3o era um veado \u2014 era uma on\u00e7a enfurecida, lan\u00e7ando-se contra o presidente:<\/p>\n<p>\u2014 Acabou!<\/p>\n<p>Anhang\u00e1 colocou um la\u00e7o no pesco\u00e7o de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incr\u00e9dulos, enquanto o inc\u00eandio avan\u00e7ava sobre a pedra:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!<\/p>\n<p>\u2014 Era. \u2014 Rugiu Anhang\u00e1, e foi-se embora.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e n\u00e3o encontrou o presidente. N\u00e3o havia sinais dele. &#8220;Cheira a on\u00e7a&#8221;, assegurou um capit\u00e3o, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ningu\u00e9m o levou a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Os generais soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio. Os pol\u00edticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio. Os gram\u00e1ticos e outros zeladores do idioma, na solid\u00e3o dos respetivos escrit\u00f3rios, soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Os cientistas soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cru\u00e9is de S\u00e3o Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>As m\u00e3es de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Os \u00edndios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de al\u00edvio \u2014 e a vida recome\u00e7ou, como se nunca, \u00e0 superf\u00edcie do planeta Terra, tivesse existido uma doen\u00e7a chamada Jair Messias Bolsonaro.<\/p>\n<p>&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>Publicado originalmente na revista &#8220;Vis\u00e3o&#8221; de Portugal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Agualusa Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secret\u00e1ria e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais pr\u00f3ximos. Alguns estranhavam. 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