{"id":93694,"date":"2019-08-22T05:56:44","date_gmt":"2019-08-22T08:56:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=93694"},"modified":"2019-08-21T15:02:17","modified_gmt":"2019-08-21T18:02:17","slug":"sem-verbas-reitora-da-ufsb-afirma-que-nao-ha-condicoes-para-continuar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2019\/08\/22\/sem-verbas-reitora-da-ufsb-afirma-que-nao-ha-condicoes-para-continuar\/","title":{"rendered":"Sem verbas, reitora da UFSB afirma que \u201cn\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para continuar\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_93697\" style=\"width: 392px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-93697\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-93697\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joana-angelica-1024x512.jpg\" alt=\"Joana Ang\u00e9lica Guimar\u00e3es\" width=\"382\" height=\"191\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joana-angelica-1024x512.jpg 1024w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joana-angelica-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joana-angelica.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><p id=\"caption-attachment-93697\" class=\"wp-caption-text\">Joana Ang\u00e9lica Guimar\u00e3es<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Por Juliana Sayuri | <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2019\/08\/20\/entrevista-joana-angelica-guimaraes-luz-reitora-ufsb\/\">para o The Intercept<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Faz 29 graus em Itabuna, no sul da Bahia. Joana Ang\u00e9lica Guimar\u00e3es da Luz, 61 anos, se dirige diariamente ao km 39 da BR 415, a Rodovia Ilh\u00e9us \u2013 Vit\u00f3ria da Conquista. Ali, num pr\u00e9dio antigo alugado na Vila de Ferradas, bairro pobre na periferia de Itabuna, fica a reitoria da Universidade Federal do Sul da Bahia, a federal que mais perdeu dinheiro com os cortes do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo a Andifes, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Dirigentes de Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior, o or\u00e7amento da UFSB em 2019 caiu para menos da metade: o valor inicial de R$ 31,5 milh\u00f5es foi para R$ 14,5 milh\u00f5es. O primeiro efeito do corte \u00e9 sentido pelo corpo: apesar do inverno quente, em que a temperatura chega a 27 graus, a ordem \u00e9 deixar o ar-condicionado desligado em todas as unidades. Nos \u00faltimos dias, me disse a reitora, eles tiveram \u201csorte\u201d: choveu e ao calor deu uma tr\u00e9gua.<\/p>\n<p>Luz \u00e9 a primeira mulher negra eleita reitora de uma universidade federal. Empossada h\u00e1 pouco mais de um ano, ela teme n\u00e3o conseguir sequer concluir a constru\u00e7\u00e3o dos campi da universidade, inaugurada em 2014. S\u00e3o tr\u00eas: Itabuna, Porto Seguro e Teixeira de Freitas. Todos em obras. Todas, paradas.<\/p>\n<p>Luz nasceu nos arredores de Itabuna. Filha de trabalhadores rurais, ela migrou do nordeste ao sul do pa\u00eds para estudar: primeiro, fez gradua\u00e7\u00e3o em geologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, seguida pelo mestrado na Universidade Federal da Bahia e pelo doutorado na Cornell University, em Nova York. A partir de 2012, participou ativamente da constru\u00e7\u00e3o do projeto pol\u00edtico-pedag\u00f3gico da UFSB, declaradamente pautado por ideias de intelectuais como An\u00edsio Teixeira, Milton Santos e o temido Paulo Freire. Segundo Luz, a UFSB foi idealizada como uma universidade de inclus\u00e3o: a jovem federal abriga 4,5 mil alunos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u2013 cerca de 80% deles de fam\u00edlias de baixa renda.<\/p>\n<div data-reactid=\"172\">\n<p>O iminente virou imediato. \u201cUniversidades est\u00e3o dizendo que v\u00e3o parar as atividades, e a nossa est\u00e1 inclu\u00edda. N\u00e3o \u00e9 tom de amea\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 retalia\u00e7\u00e3o. \u00c9 realidade: n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es concretas para continuidade\u201d, relata a reitora. A administra\u00e7\u00e3o est\u00e1 precisando escolher quais contas e contratos pode honrar e quais inevitavelmente vai pagar com atraso. \u201cEstamos chegando ao ponto de paralisar tudo.\u201d<\/p>\n<p>Em entrevista ao Intercept, Luz fala sobre essas escolhas e a expectativa de libera\u00e7\u00e3o de recursos extras em setembro. Se n\u00e3o entrar mais dinheiro no caixa, a situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 \u201co caos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Intercept \u2013 Hoje, 15 de agosto, como est\u00e1 a UFSB?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Joana Ang\u00e9lica Guimar\u00e3es da Luz \u2013<\/strong> Hoje temos uma despesa de R$ 1,2 milh\u00e3o por m\u00eas, mas recebemos R$ 860 mil. Estamos literalmente precisando escolher quais contas a gente paga e quais a gente atrasa, quais contratos a gente honra e quais n\u00e3o. O campus fica em uma cidade muito quente, mas definimos desligar o ar-condicionado para economizar energia el\u00e9trica. Os projetos de pesquisa est\u00e3o em stand-by. Tamb\u00e9m temos diversas obras paradas, pois n\u00e3o temos recursos para pagar a empreiteira. A ordem direta \u00e9 agora \u00e9 suspender as obras, pois n\u00e3o h\u00e1 como arcar com os custos \u2013 mas ainda estamos discutindo com o MEC. At\u00e9 l\u00e1, estamos nesse jogo de atrasar aqui, reduzir ali e ir levando para fechar o m\u00eas.<\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Como voc\u00eas t\u00eam feito essas escolhas?<\/strong><\/p>\n<p>Temos contratos com trabalhadores terceirizados, o pessoal de vigil\u00e2ncia, transporte e limpeza. Abrimos licita\u00e7\u00e3o e contratamos empresas terceirizadas, a partir de uma estimativa do n\u00famero de funcion\u00e1rios necess\u00e1rios por metro quadrado de \u00e1rea, como diz a legisla\u00e7\u00e3o. Estes s\u00e3o os contratos que estamos priorizando o pagamento, pois, se n\u00e3o pagarmos, os trabalhadores n\u00e3o recebem sal\u00e1rio. A pior decis\u00e3o \u00e9 deixar as pessoas sem sal\u00e1rio, afinal, elas dependem disso para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Depois, temos contas de \u00e1gua, energia, despesas com manuten\u00e7\u00e3o predial. Se atrasamos, negociamos com o fornecedor por um m\u00eas, dois meses, mas e depois? A companhia de energia vai nos acionar, vai cortar a luz. J\u00e1 estamos com faturas em atraso.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, a maioria est\u00e1 compreendendo que a falta de condi\u00e7\u00f5es de pagamento de suas obriga\u00e7\u00f5es de contrato n\u00e3o depende de n\u00f3s, da gest\u00e3o da universidade, mas que \u00e9 uma quest\u00e3o de conjuntura de um contingenciamento geral das universidades federais. H\u00e1 uma compreens\u00e3o de que estamos vivendo um momento at\u00edpico, pois n\u00e3o estamos recebendo aquilo que tinha sido acordado anteriormente.<\/p>\n<div data-reactid=\"186\">\n<p>Para n\u00f3s, o crucial \u00e9 o andamento das obras. A infraestrutura implica a sobreviv\u00eancia da universidade, quer dizer, da pr\u00f3pria estrutura f\u00edsica onde n\u00f3s vamos atuar. Como somos uma universidade muito nova, ainda h\u00e1 muito a construir. S\u00e3o tr\u00eas campi, que precisam de investimento na infraestrutura b\u00e1sica. N\u00e3o temos sede pr\u00f3pria da reitoria \u2013 atualmente trabalhamos num pr\u00e9dio alugado. Temos \u00e1reas doadas e im\u00f3veis adaptados para salas de aula, reitoria e pr\u00f3-reitorias, mas j\u00e1 temos um d\u00e9ficit de salas de aula nos tr\u00eas campi.<\/p>\n<p>Novos alunos v\u00e3o chegar e n\u00e3o sei como vamos receb\u00ea-los no pr\u00f3ximo ano. Fizemos um planejamento das obras diante de um or\u00e7amento aprovado no ano passado. Esse or\u00e7amento n\u00e3o se concretizou, pois foi contingenciado em abril. Estamos em agosto, esperando que essa situa\u00e7\u00e3o se reverta em setembro. Caso contr\u00e1rio, teremos problemas s\u00e9rios na manuten\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de atividades. Dias atr\u00e1s, parlamentares e representantes da Andifes se reuniram com o ministro [Abraham Weintraub] e ficou sinalizada a possibilidade de descontingenciamento de recursos a partir de setembro. Precisamos disso para continuar.<\/p>\n<p><strong>Se o descontingenciamento n\u00e3o se concretizar, a universidade pode parar?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Universidades est\u00e3o dizendo que v\u00e3o parar as atividades, e a nossa est\u00e1 inclu\u00edda. N\u00e3o \u00e9 tom de amea\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 retalia\u00e7\u00e3o. \u00c9 realidade: n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es concretas para continuidade. Se n\u00e3o tivermos recursos liberados em setembro, n\u00e3o temos como manter uma s\u00e9rie de servi\u00e7os essenciais, como a energia el\u00e9trica, a luz! Como vamos ter aulas se n\u00e3o h\u00e1 luz? Como vamos abrir vagas para novos alunos se n\u00e3o h\u00e1 salas de aula? \u00c9 uma quest\u00e3o concreta, de estrutura f\u00edsica. Estamos chegando ao ponto de paralisar tudo.<\/p>\n<div data-reactid=\"189\">\n<p>Esta universidade come\u00e7ou em uma sala de 30 metros quadrados, cedida por uma associa\u00e7\u00e3o, onde passei um ano articulando os contatos e os acordos para instalar a universidade, buscando espa\u00e7os, fazendo parcerias com as prefeituras. N\u00f3s estamos construindo a universidade do zero. A situa\u00e7\u00e3o atual nos atrapalha muito. Tr\u00eas obras em andamento deveriam ser conclu\u00eddas ao longo de tr\u00eas anos, mas o cronograma deste primeiro ano j\u00e1 est\u00e1 bastante comprometido. Uma delas, por exemplo, \u00e9 a reitoria, no campus de Itabuna. A previs\u00e3o era mudar para a nova sede no primeiro semestre de 2019 \u2013 \u00e9 um pr\u00e9dio antigo no centro da cidade, cedido pelo Tribunal de Justi\u00e7a da Bahia, que precisa de reforma. Atrasando este pr\u00e9dio, atrasam as outras obras. Tamb\u00e9m t\u00ednhamos previsto a constru\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio do n\u00facleo pedag\u00f3gico, que est\u00e1 pronto, mas falta a infraestrutura, a via de acesso, \u00e1gua, energia. N\u00f3s fomos diminuindo o ritmo das obras, mas agora n\u00e3o tem mais como diminuir. \u00c9 parar mesmo.<\/p>\n<p>Diferentemente do que dizem, n\u00f3s temos responsabilidade administrativa e temos todo um planejamento, feito por pessoas competentes e comprometidas. Todo o planejamento de uma universidade \u00e9 feito a partir do or\u00e7amento e, m\u00eas a m\u00eas, temos uma libera\u00e7\u00e3o do financeiro. N\u00f3s planejamos: a partir do ano tal, teremos X alunos; considerando a entrada anual, precisamos de Y salas a mais. Tamb\u00e9m dever\u00edamos ter nosso quadro [de funcion\u00e1rios] completo at\u00e9 2020. Foi previsto um quantitativo de servidores, t\u00e9cnicos e docentes, mas at\u00e9 agora temos menos da metade. Planejamos os cursos com o n\u00famero X de docentes, mas n\u00e3o temos todos os professores, porque os concursos n\u00e3o foram liberados. Quer dizer, n\u00e3o tem sala, n\u00e3o tem docente.<\/p>\n<div data-reactid=\"192\">\n<p><strong>A restri\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 mais cruel para as federais mais jovens?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Certamente as mais antigas enfrentam problemas. As mais consolidadas sofrem com custeio e manuten\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios mais antigos e renova\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rios, por exemplo. Mas as mais jovens sofrem, pois ainda estavam no processo de construir esse arcabou\u00e7o inicial. No caso da UFSB, al\u00e9m do custeio, obviamente, precisamos de investimento alto de infraestrutura. Ainda somos pequenos. Deixamos de comprar equipamento para montar um laborat\u00f3rio por falta de verba. Pesquisas podem atrair investimento privado, mas como vou atrair investimento privado se n\u00e3o tenho um laborat\u00f3rio minimamente equipado para uma pesquisa mais avan\u00e7ada? Se eu n\u00e3o tenho o que oferecer, como vou vender uma ideia para a iniciativa privada?<\/p>\n<p>T\u00ednhamos um edital aberto de apoio a projetos de extens\u00e3o e pesquisa na universidade. Como somos uma universidade nova, alguns professores j\u00e1 t\u00eam projeto com financiamento externo, mas muitos est\u00e3o em in\u00edcio de carreira e, portanto, ainda n\u00e3o t\u00eam um portf\u00f3lio de pesquisa para buscar fomento. Al\u00e9m do mais, as ag\u00eancias de fomento t\u00eam diminu\u00eddo recursos tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, elaboramos editais de pesquisa para os jovens pesquisadores aqui. Mas, como precisamos reduzir recursos de todas as \u00e1reas, suspendemos os que seriam destinados a projetos. E s\u00e3o projetos importantes para a regi\u00e3o, com potencial de atrair novos recursos para n\u00f3s. Um deles, por exemplo, \u00e9 de ervas medicinais, origin\u00e1rias da Mata Atl\u00e2ntica, trabalhando junto ao entorno da universidade, com a perspectiva de gerar renda para as comunidades ao redor. Outro projeto, do curso de engenharia florestal, \u00e9 sobre a produ\u00e7\u00e3o de cacau num sistema chamado cabruca \u2013 o cacau \u00e9 produzido na sombra, e as \u00e1rvores precisam ser mantidas, quer dizer, um modelo de uso sustent\u00e1vel da floresta. Os estudos, ent\u00e3o, v\u00e3o nesse sentido: que iniciativas econ\u00f4micas a gente pode ter para que essa floresta se mantenha de p\u00e9 e, ao mesmo tempo, d\u00ea renda para quem vive na regi\u00e3o? S\u00e3o projetos promissores que, tendo um investimento inicial, podem atrair mais investimentos.<\/p>\n<p><strong>O discurso desta onda anti-intelectual, que imagina universidades como antros de \u2018balb\u00fardia\u2019, afasta investidores da iniciativa privada?<\/strong><\/p>\n<p>Universidades t\u00eam imensa import\u00e2ncia na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, na forma\u00e7\u00e3o de milhares de profissionais de todas as \u00e1reas. \u00c9 um patrim\u00f4nio important\u00edssimo para o Brasil: o conhecimento \u00e9 um bem imaterial. E \u00e9 problem\u00e1tico o impacto de interromper o andamento das atividades ou transformar universidades de uma forma tal que a gente n\u00e3o tenha liberdade de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento ou discuss\u00e3o sobre os v\u00e1rios vetores de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Dizer que professor de universidade p\u00fablica s\u00f3 trabalha oito horas por semana \u00e9 um dos maiores absurdos que j\u00e1 ouvi [no dia 17 de julho, o ministro Abraham Weintraub disse que professores com dedica\u00e7\u00e3o exclusiva das universidades federais recebem um sal\u00e1rio equivalente a R$140 mil por m\u00eas, j\u00e1 que passam \u201capenas\u201d oito horas semanais em sala de aula]. Docentes n\u00e3o est\u00e3o trabalhando s\u00f3 em sala de aula \u2013 todos t\u00eam carga cheia, a semana inteira. O ensino \u00e9 um dos pilares da universidade. Tamb\u00e9m h\u00e1 extens\u00e3o e pesquisa.<\/p>\n<div data-reactid=\"195\">\n<p>H\u00e1 declara\u00e7\u00f5es t\u00e3o absurdas que \u00e0s vezes a gente acha que \u00e9 piada. A quest\u00e3o da balb\u00fardia, que os universit\u00e1rios s\u00e3o drogados e pelados, \u00e9 uma delas. Estou na universidade a minha vida inteira, como estudante, professora, enfim. Fiz meu doutorado nos Estados Unidos e n\u00e3o vejo nenhuma diferen\u00e7a em termos de comportamento estudantil entre as universidades americanas e o que acontece no Brasil. Que balb\u00fardia \u00e9 essa? Na UFSB, os alunos est\u00e3o na sala de aula, os professores dando aula, todo mundo trabalhando. Esse \u00e9 nosso dia a dia. Quem diz esse tipo de coisa n\u00e3o sabe o que \u00e9 uma universidade de fato. \u00c9 um espa\u00e7o de cr\u00edtica, de todas as cr\u00edticas poss\u00edveis, de todos os matizes ideol\u00f3gicos. \u00c9 um espa\u00e7o de discuss\u00e3o de ideias, divergentes ou convergentes, onde se estimula a capacidade de pensar o mundo e de criar. Se isso \u00e9 balb\u00fardia, eu quero continuar fazendo balb\u00fardia.<\/p>\n<p><strong>Como avalia a atual gest\u00e3o na ci\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Posso at\u00e9 me comprometer, mas vou dizer: n\u00e3o h\u00e1 gest\u00e3o de ci\u00eancia e tecnologia no Brasil hoje. Entende-se ci\u00eancia e tecnologia a partir do pressuposto de que elas devem servir ao capital. Ponto. O Brasil n\u00e3o investe em conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, e pagamos um pre\u00e7o alto, porque acabamos ficando \u00e0 merc\u00ea do que \u00e9 desenvolvido em outros pa\u00edses. E isso s\u00f3 abordando a quest\u00e3o de mercado. Tem tamb\u00e9m a quest\u00e3o social, que deve que estar embutida para pensar o desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/noticias\/2019\/08\/14\/mais-de-40-federais-criticam-future-se-duas-rejeitam-adesao-ao-projeto.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Future-se<\/a>, lan\u00e7ado agora pelo governo federal, tem como carro-chefe a arrecada\u00e7\u00e3o de recursos, a chamada liberdade de arrecadar. A universidade j\u00e1 faz isso: h\u00e1 conv\u00eanios com empresas privadas para o desenvolvimento de determinados projetos. O que est\u00e1 ali no programa, por\u00e9m, \u00e9 uma ideia da universidade que esteja \u00fanica e exclusivamente a servi\u00e7o do mercado. \u00c9 perigoso deix\u00e1-la \u00e0 merc\u00ea das corpora\u00e7\u00f5es e dos empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Muitas vezes, n\u00e3o h\u00e1 como medir de imediato o impacto de pesquisa, mas ela pode se transformar em uma tecnologia importante no futuro. Hoje, podemos n\u00e3o enxergar o potencial, mas a ci\u00eancia \u00e9 din\u00e2mica e amanh\u00e3 uma pesquisa b\u00e1sica pode ser a chave para avan\u00e7ar uma pesquisa aplicada. O investimento p\u00fablico deve se manter fortemente nas universidades brasileiras. L\u00e1 fora, n\u00f3s sabemos, o investimento privado \u00e9 pequeno: nos Estados Unidos e na Europa, a maior parte dos investimentos nas universidades v\u00eam dos cofres p\u00fablicos. [Tem] Quem diz \u201cah, mas as universidades brasileiras n\u00e3o est\u00e3o entre as top do mundo\u201d. Como v\u00e3o estar se n\u00e3o t\u00eam o n\u00edvel de investimento que as outras top do mundo t\u00eam?<\/p>\n<p>A universidade corre risco de sofrer uma mudan\u00e7a muito r\u00e1pida sem a discuss\u00e3o devida sobre o que \u00e9, afinal, uma universidade, qual \u00e9 seu papel, qual \u00e9 sua din\u00e2mica.<\/p>\n<div data-reactid=\"198\">\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel de uma universidade federal no sul da Bahia?<\/strong><\/p>\n<p>A expans\u00e3o das universidades federais foi fundamental no sentido de dar oportunidade a jovens de regi\u00f5es mais remotas ou mais afastadas dos grandes centros, principalmente jovens de baixa renda. Quem tem dinheiro consegue mandar o filho estudar em qualquer lugar, mas quem n\u00e3o tem\u2026 No sul da Bahia, que n\u00e3o \u00e9 \u00e1rea remota, mas atrativa inclusive do ponto de vista tur\u00edstico, ainda assim os jovens n\u00e3o viam a universidade como uma possibilidade. Levar a universidade para perto do estudante de baixa renda foi muito importante. Digo por experi\u00eancia pr\u00f3pria: fiz gradua\u00e7\u00e3o, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e hoje sou reitora de uma universidade federal gra\u00e7as a um infort\u00fanio da minha inf\u00e2ncia. Meu pai ficou desempregado, e a fam\u00edlia precisou mudar para Salvador. Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos sa\u00eddo da zona rural de Itabuna, eu n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de estudar na \u00e9poca.<\/p>\n<div data-reactid=\"201\">\n<p>Quando a universidade foi anunciada aqui, visitamos escolas e fizemos audi\u00eancias p\u00fablicas nas cidades da regi\u00e3o \u2013 s\u00e3o 48 munic\u00edpios no entorno dos tr\u00eas campi. Um dos alunos do ensino m\u00e9dio disse em um desses encontros: \u201cMas pra ser frentista do posto de gasolina, n\u00e3o preciso estudar mais do que j\u00e1 estudei\u201d. Quer dizer, a perspectiva de futuro dele chega ali, no posto de gasolina da cidadezinha dele. A chegada da universidade deu outra dimens\u00e3o de possibilidades \u2013 e ele e outros jovens como ele entraram. Nosso maior n\u00famero de alunos \u00e9 da regi\u00e3o, incluindo ind\u00edgenas, quilombolas e quem trabalha nos assentamentos tamb\u00e9m.<br \/>\nIsso n\u00e3o significa que as pessoas devam sair e nunca mais voltar para suas cidades. Sempre digo que \u00e9 importante que as pessoas se qualifiquem e que depois saibam que podem ir aonde quiserem \u2013 ficar, ir, voltar. Para que eles possam contribuir com o desenvolvimento econ\u00f4mico e social do espa\u00e7o onde eles foram criados, onde eles viveram ou onde eles vivem. N\u00e3o d\u00e1 pra gente fazer inclus\u00e3o para transformar o inclu\u00eddo num excluidor.<\/p>\n<p>A UFSB \u00e9 a universidade da inclus\u00e3o. Trabalhamos nessa perspectiva de trazer esses jovens pra c\u00e1. Precisamos traz\u00ea-los para dentro da universidade para que eles estudem \u2013 e para que a gente aprenda com eles.<\/p>\n<div data-reactid=\"204\">\n<p><strong>Como se sente como a primeira mulher negra eleita reitora de uma universidade federal?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira foi Nilma Lino, reitora pro tempore [tempor\u00e1ria] da UNILAB. Eu fui a primeira eleita e, at\u00e9 o momento, a \u00fanica.<\/p>\n<p>Tenho dois sentimentos contradit\u00f3rios sobre essa condi\u00e7\u00e3o. O primeiro \u00e9 a alegria da possibilidade de ser uma refer\u00eancia para meninas e mulheres negras mundo afora. Que elas saibam que uma mulher negra pode ter uma posi\u00e7\u00e3o de destaque e ocupar qualquer cargo, qualquer posto no pa\u00eds. \u00c9 um reconhecimento intelectual de pessoas negras. O segundo \u00e9 a tristeza pelo fato de uma mulher negra assumir uma reitoria ser not\u00edcia por ser t\u00e3o raro. Que a gente ainda admire e celebre algo que n\u00e3o deveria ser raro.<\/p>\n<p>Sou dura na queda. Sou forte e firme no trabalho. Mas, ultimamente, tenho me sentido sem for\u00e7as. Ir a Bras\u00edlia tem sido um trabalho doloroso. Sempre fui otimista, mas estou enfraquecida nesse sentido. O pa\u00eds est\u00e1 uma pra\u00e7a de guerra, como se o contradit\u00f3rio fosse proibido. Confesso que estou me sentido um tanto\u2026 desanimada n\u00e3o \u00e9 a palavra, pois sinto que n\u00e3o tenho direito de desanimar agora. Precisamos respirar fundo, buscar for\u00e7as e batalhar. N\u00e3o d\u00e1 pra entregar os pontos.<\/p>\n<p><strong>Por fim, diria que a UFSB hoje est\u00e1 no sinal amarelo ou avan\u00e7ou o vermelho?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos entrando no vermelho. Se em setembro recebermos recursos no mesmo patamar que em agosto, a\u00ed estaremos definitivamente no vermelho, piscando e bastante alerta. Ainda temos f\u00f4lego, mas j\u00e1 n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de pagamento de todos os contratos neste m\u00eas \u2013 vamos pagar alguns e esperar o dinheiro do pr\u00f3ximo m\u00eas para quitar o que ficou de agosto e mais as contas de setembro. Agora, se n\u00e3o tiver mais recursos no pr\u00f3ximo m\u00eas, a\u00ed, sim, j\u00e1 \u00e9 o caos. Se continuar assim, fechar a universidade \u00e9 o \u00faltimo passo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juliana Sayuri | para o The Intercept Faz 29 graus em Itabuna, no sul da Bahia. Joana Ang\u00e9lica Guimar\u00e3es da Luz, 61 anos, se dirige diariamente ao km 39 da BR 415, a Rodovia Ilh\u00e9us \u2013 Vit\u00f3ria da Conquista. 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