{"id":92325,"date":"2026-02-14T12:13:05","date_gmt":"2026-02-14T15:13:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=92325"},"modified":"2026-02-14T11:10:37","modified_gmt":"2026-02-14T14:10:37","slug":"torre-de-babel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2026\/02\/14\/torre-de-babel\/","title":{"rendered":"Torre de Babel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Daniel Thame<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-151048\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/DT-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"204\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/DT-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/DT-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/DT.jpg 550w\" sizes=\"(max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/>Durante os tempos dadivosos, cada um se bastava, e o individualismo era a regra. Quem \u00e9 que precisava de uni\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o, quando as terras, conquistadas por seus antepassados a ferro e fogo e deixadas esbanjando prosperidade e riqueza, geravam tamb\u00e9m a disputa para ver quem era o maior?<\/p>\n<p>O t\u00edtulo de maior produtor individual de cacau do mundo, coroa pousada em pouqu\u00edssimas cabe\u00e7as, era uma esp\u00e9cie de trof\u00e9u que, quando conquistado, equivalia \u00e0 posse de um reino.<\/p>\n<p>E pareciam mesmo reis os senhores que tudo podiam e de ningu\u00e9m dependiam, a n\u00e3o ser do fruto dourado, da \u00e1rvore m\u00e1gica.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisavam de governo nenhum e transformavam gerentes de banco em office boys subservientes e bajuladores. Nas crises c\u00edclicas, pequenos hiatos na rotina de bonan\u00e7a, era o pr\u00f3prio dinheiro gerado pelo fruto quem garantia a recupera\u00e7\u00e3o, quem trazia de volta a prosperidade, num ciclo que n\u00e3o terminaria nunca.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o terminaria nunca, nunca se preocuparam com representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com entidades que fossem al\u00e9m dos almo\u00e7os, jantares e viagens de puro deleite.<\/p>\n<p>A for\u00e7a de cada um dispensava a for\u00e7a coletiva, coisa de uns pobres coitados, de uns agitadores que vez por outra tentavam fazer com que os trabalhadores, que sempre ficaram com as migalhas do bolo doce e farto, se organizassem e reivindicassem seus direitos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft  wp-image-184755\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/capa-vassa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"434\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/capa-vassa-1.jpg 361w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/capa-vassa-1-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/>\u201cEsses comunistas filhos da puta\u201d, diziam com esc\u00e1rnio nas rodas de u\u00edsque escoc\u00eas, correndo pelos copos como a \u00e1gua corre na cachoeira caudalosa.<\/p>\n<p>Quando vieram os tempos dif\u00edceis, e esses tempos se revelaram mais longos do que a mais longa das crises enfrentadas at\u00e9 ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o havia o dinheiro gerado pelo fruto, que a bruxa tratava de abortar ainda no ventre das \u00e1rvores, igualmente agonizantes.<\/p>\n<p>Cada um j\u00e1 n\u00e3o se bastava mais, a coroa de Rei do Cacau enferrujou tal qual um lat\u00e3o de p\u00e9ssima qualidade.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos nos unir, cobrar das autoridades tudo aquilo que demos para o Estado, para a Na\u00e7\u00e3o\u201d, bradava-se para audit\u00f3rios suntuosos, mas vazios de gente e de alma.<\/p>\n<p>Nas articula\u00e7\u00f5es, que nem esse nome justificavam, t\u00e3o desarticuladas eram, ningu\u00e9m se entendia, visto que como cada um sempre se fizera sozinho, sozinho falava a sua pr\u00f3pria l\u00edngua.<\/p>\n<p>Instalou-se, ent\u00e3o, uma confusa babel grapi\u00fana, at\u00e9 que o templo em que eles se reuniam para celebrar as d\u00e1divas do deus cacau, em vez de ruir como era de se imaginar em tempos de ira divina, foi alugado, subalugado, emprestado, tomado.<\/p>\n<p>E, finalmente, abandonado, como um monstrengo encalhado no cora\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem jure ouvir, nas noites abafadas, vozes fantasmag\u00f3ricas, mas que ningu\u00e9m entende, posto que nessa Torre de Babel nem os fantasmas falam a mesma l\u00edngua.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Conto extra\u00eddo do livro &#8220;Vassoura, do Apocalipse ao G\u00eanesis da Regi\u00e3o Cacaueira da Bahia&#8221;. Atual\u00edssimo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Thame Durante os tempos dadivosos, cada um se bastava, e o individualismo era a regra. Quem \u00e9 que precisava de uni\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o, quando as terras, conquistadas por seus antepassados a ferro e fogo e deixadas esbanjando prosperidade e riqueza, geravam tamb\u00e9m a disputa para ver quem era o maior? 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