{"id":92019,"date":"2019-07-06T10:03:02","date_gmt":"2019-07-06T13:03:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=92019"},"modified":"2019-07-05T15:16:13","modified_gmt":"2019-07-05T18:16:13","slug":"o-nordeste-cabra-da-peste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2019\/07\/06\/o-nordeste-cabra-da-peste\/","title":{"rendered":"O nordeste, cabra da peste"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Efson Lima<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-87051\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/efson-300x227.jpg\" alt=\"efson\" width=\"266\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/efson-300x227.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/efson.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 266px) 100vw, 266px\" \/>O m\u00eas de junho de 2019 chegou ao fim. Para n\u00f3s baianos e nordestinos \u00e9 um dos meses &#8211; para n\u00e3o ser taxativo &#8211; que as tradi\u00e7\u00f5es ganham f\u00f4lego e mostram o quanto temos de identidade. Ontem, quinta-feira, no almo\u00e7o com colegas de trabalho e \u00e0 noite, ap\u00f3s encontro de grupos de pesquisa sobre direito e literatura, o tema nordeste voltou \u00e0 mesa.\u00a0 E tinha que voltar, afinal, o povo do sert\u00e3o com o povo da capital juntos reascendem a fogueira. Na mesa havia um ga\u00facho, assim, melhor ficou evidenciado o ser nordeste para os baianos. N\u00e3o \u00e9 o debate do pior e\/ou melhor, apenas, discorrendo sobre o sujeito cultural.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, a express\u00e3o \u201ccabra da peste\u201d marcante e ligada a nossa gente possui mais de uma vers\u00e3o. H\u00e1 quem considera que \u00e9 a express\u00e3o \u00e9 usada referendar o sujeito destemido, mas tamb\u00e9m pode ser dita em situa\u00e7\u00e3o de ofensa. Ser\u00e1 que no primeiro caso seria a confirma\u00e7\u00e3o do registro de Euclides da Cunha em \u201cOs Sert\u00f5es\u201d onde \u201co sertanejo antes de tudo \u00e9 um forte\u201d? No Dicion\u00e1rio do Folclore Brasileiro, Luiz da C\u00e2mara Cascudo afirma que \u201ccabra\u201d era como os navegadores portugueses referendavam os \u00edndios que \u201cruminavam o b\u00e9tel\u201d planta com folhas de mascar. Ao longo do tempo, o animal pode ter sido visto como sin\u00f4nimo de homem forte em decorr\u00eancia do leite &#8211; percebido mais denso e nutritivo que o da vaca. \u00a0H\u00e1 indicativo que a conota\u00e7\u00e3o com \u201cpeste\u201d surgiu em virtude da m\u00e1 fama da cabra, identificada como sendo simp\u00e1tica ao diabo na tradi\u00e7\u00e3o nordestina. Lembro que quando crian\u00e7a, falar o termo \u201cpeste\u201d merecia uma tapa da minha m\u00e3e, pai, tio, irm\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>Na Bahia, quem ainda n\u00e3o ouviu \u201cRaiz de Todo Bem\u201d, do compositor Saulo Fernandes, cantada na voz do mesmo, que parece um hino para Salvador, identifica a express\u00e3o facilmente: \u201cOxente, &#8216;c\u00ea num &#8216;t\u00e1 vendo que a gente \u00e9 nordeste?\/Cabra da peste Sai da\u00ed batucador\u201d, mais que um conjunto de palavras \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da nossa identidade, dos nossos sentidos e signos. Sou eu e voc\u00ea! Somos n\u00f3s!<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft  wp-image-92020\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapa-efson-292x300.jpg\" alt=\"mapa efson\" width=\"239\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapa-efson-292x300.jpg 292w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapa-efson.jpg 388w\" sizes=\"(max-width: 239px) 100vw, 239px\" \/>Do ponto de vista das regi\u00f5es do Brasil, no ano de 1940, o pa\u00eds tinha as seguintes regi\u00f5es: Norte, Nordeste, Este, Centro e Sul. No ano de 1950, os Estados do Maranh\u00e3o e Piau\u00ed passaram a compor a Regi\u00e3o Nordeste (antes\u00a0 estavam relacionadas ao\u00a0Norte). O Estado da Bahia s\u00f3 foi incorporado ao Nordeste a partir de 1970. \u00a0Antes, est\u00e1vamos de m\u00e3os dadas com os Estados de Sergipe e Esp\u00edrito Santo na denominada regi\u00e3o \u201cESTE\u201d. Sudeste nem existia.\u00a0 Registra-se que essas divis\u00f5es foram sendo sistematizadas a partir de 1913. Geogr\u00e1fico o par\u00e1grafo, mas nos oferece uma dimens\u00e3o pol\u00edtica e como foi processada a constru\u00e7\u00e3o das identidades regionais. A forma do mapinha atual\u00a0 tem sua divis\u00e3o estabelecida em 1970 pelo IBGE. A\u00ed, sim, caba da peste, somos nordeste? N\u00e3o, j\u00e1 nutr\u00edamos \u00a0esse sentimento. Foi um redesenhar.<\/p>\n<p>Abordar nordeste \u00e9 muito mais que um espa\u00e7o geogr\u00e1fico, \u00e9 recorrer os povos origin\u00e1rios, as tradi\u00e7\u00f5es orais, a Hist\u00f3ria do Brasil, as invas\u00f5es, a lavoura da cana de a\u00e7\u00facar, falar do mar e praias, da mata atl\u00e2ntica, do cacau. \u00c9 enfrentar o problema da desigualdade socioecon\u00f4mica e da concentra\u00e7\u00e3o de terras. \u00c9 relembrar literatura e compreender um sentido de territ\u00f3rio\u00a0 muito mais amplo, que um mero signo geogr\u00e1fico, como sinaliza Milton Santos, baiano e com circula\u00e7\u00e3o em Ilh\u00e9us, professor do IME e membro da Academia de Letras de Ilh\u00e9us. \u00a0S\u00edmbolo maior da geografia nacional e uma das estrelas da geografia no mundo. Pena que pessoas como ele,\u00a0 t\u00eam sido maltratadas na quadra atual.<\/p>\n<p>O obscurantismo parece ser o caminho. Gra\u00e7as que estamos protegidos pelos nordestinos, que ousam n\u00e3o ser seduzidos pelos caminhos f\u00e1ceis. Nordeste \u00e9\u00a0 tratar da proposta educacional de Paulo Freire, An\u00edsio Teixeira&#8230;propostas emancipadoras e que apresentam sentidos mais humano e problematizador.<\/p>\n<p>Nordeste \u00e9 terra de Ariana Suassuna, que aulas m\u00e1gicas sobre cultura foram proferidas. Encantador. O \u201coxente\u201d t\u00e3o bem defendido. De Jos\u00e9 Lins do Rego. Do nosso eterno Jorge Amado. De Rachel de Queiroz, saudade do Quinze. Falar de nordeste \u00e9 tocar na literatura de cordel. De nossos cantores, como&#8230; \u00c9 terra de Lampi\u00e3o e de Maria Bonita.\u00a0 Das lendas e dos mitos.\u00a0 Da Terra onde padre tem muler. \u00c9 encontro de religi\u00f5es&#8230; \u00c9 terra de Padim C\u00edcero e de M\u00e3e Menininha,\u00a0 de M\u00e3e Stella de Oxossi. \u00c9 ter suas hist\u00f3rias e est\u00f3rias contadas por escolas de samba do Rio e de S\u00e3o Paulo. \u00c9 ver S\u00e3o Paulo com a ajuda de m\u00e3os nordestinas. \u00c9 terra &#8211; m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u00c9 terra de juristas: Teixeira de Freitas, de Rui Barbosa, de Orlando Gomes. \u00c9 terra do nosso grande tributarista, a maior autoridade viva do direito na Bahia; um de nossos s\u00edmbolos no Brasil, professor Edvaldo Brito, viv\u00edssimo e atuante. A mim, mais que um advogado, um gigante na doc\u00eancia. Exemplo a ser seguido de comprometimento, dedica\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e0 doc\u00eancia.<\/p>\n<p>Recorri aos personagens recentes, que viveram no s\u00e9culo XX ou alcan\u00e7aram o esse s\u00e9culo. Muitos outros que descansam na infinitude poderiam ser convidados a falar, mas optei por deix\u00e1-los l\u00e1.\u00a0 Com a v\u00eania, como ainda estamos no clima do 2 de Julho, com carinho mencionamos Maria Quit\u00e9ria. Oh, c\u00e9us! Perdoe-me. Isto \u00e9 nordeste. Isto \u00e9 vida.<\/p>\n<p>Nordeste \u00e9 um complexo de m\u00faltilpas identidades. De m\u00faltiplos sonhos. Nordeste &#8211; tu, voc\u00ea, c\u00ea, oxente, continua sendo uma terra aben\u00e7oada. Compreend\u00ea-lo \u00e9 um desafio para n\u00f3s, que aqui nascemos e\/ou moramos e o mundo. Oxal\u00e1!<\/p>\n<p>Duas observa\u00e7\u00f5es aos leitores:<\/p>\n<p>Antes que me esque\u00e7a, o texto do artigo era \u201cA diversidade no mundo do trabalho e o tema iria por essa mar\u00e9, mas no curso do caminho, mudei para a tem\u00e1tica que acabara de ler. Coisas dos nossos dias. Falar de diversidade no mundo do trabalho \u00e9 falar do nordestino, do baiano&#8230; outro dia, dialogamos sobre isto.<\/p>\n<p>E caro leitor, aceito cr\u00edticas e sugest\u00f5es, portanto, podem dialogar comigo por e-mail e\/ou pelas redes sociais. O perfil \u00e9 o mesmo da assinatura do artigo.<\/p>\n<p>&#8212;-<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Efson Lima\u00a0 &#8211; coordenador-geral da P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, Pesquisa e Extens\u00e3o da Faculdade 2 de Julho. Coordena o Laborat\u00f3rio de Empreendedorismo, Criatividade e Inova\u00e7\u00e3o.\u00a0 Doutorando, mestre e bacharel em Direito\/UFBA.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Efson Lima &nbsp; O m\u00eas de junho de 2019 chegou ao fim. Para n\u00f3s baianos e nordestinos \u00e9 um dos meses &#8211; para n\u00e3o ser taxativo &#8211; que as tradi\u00e7\u00f5es ganham f\u00f4lego e mostram o quanto temos de identidade. 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