{"id":89575,"date":"2019-05-04T11:36:41","date_gmt":"2019-05-04T14:36:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=89575"},"modified":"2019-05-04T10:40:10","modified_gmt":"2019-05-04T13:40:10","slug":"ufba-presente-o-que-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2019\/05\/04\/ufba-presente-o-que-fazer\/","title":{"rendered":"UFBA presente: o que fazer?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Naomar de Almeida Filho<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-44694\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/naomar-300x200.jpg\" alt=\"naomar\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/naomar-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/naomar-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/naomar.jpg 1099w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O ministro da educa\u00e7\u00e3o anunciou esta semana profundo corte no custeio de tr\u00eas universidades federais, incluindo a Universidade Federal da Bahia (UFBA), que estariam fazendo \u201cbalb\u00fardia\u201d e por defici\u00eancias em desempenho acad\u00eamico. N\u00e3o satisfeito, amea\u00e7ou estender a medida a uma quarta universidade, pelas mesmas alegadas raz\u00f5es. Houve imediata rea\u00e7\u00e3o da academia, da m\u00eddia, de parlamentares e de entidades representativas da sociedade, denunciando flagrantes ilegalidades em tal procedimento. Fazer da gest\u00e3o do or\u00e7amento p\u00fablico instrumento de discrimina\u00e7\u00e3o institucional, puni\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica ou retalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 crime de improbidade. Mais ainda no caso de universidades p\u00fablicas, protegidas em sua autonomia pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Por outro lado, demonstrou-se \u00e0 larga que, pelo contr\u00e1rio, as institui\u00e7\u00f5es amea\u00e7adas destacam-se justamente por extraordin\u00e1rios indicadores de melhoria de desempenho, em muito superando a m\u00e9dia nacional. De fato, as universidades punidas est\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es brasileiras que mais aumentaram sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na \u00faltima d\u00e9cada, conforme dados da Web of Science, base internacional usada no Ranking de Universidades da Folha de S\u00e3o Paulo (RUF).<\/p>\n<p>Gostaria de focalizar o caso da UFBA. Aqui, o anunciado bloqueio de 37 milh\u00f5es de reais sem d\u00favida inviabilizar\u00e1 o funcionamento pleno da institui\u00e7\u00e3o antes do final deste ano. Levantou-se a hip\u00f3tese de que estar\u00edamos sendo punidos por ter sediado o F\u00f3rum Social Mundial, al\u00e9m de outros eventos e manifesta\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas da sociedade democr\u00e1tica. Considerando recentes desmandos do atual governo, essa hip\u00f3tese \u00e9 bastante plaus\u00edvel.<\/p>\n<p>Contudo, a informa\u00e7\u00e3o de que a UFBA tem d\u00e9ficit ou piora em desempenho \u00e9 simplesmente mentirosa. Gra\u00e7as a pol\u00edticas p\u00fablicas que, durante os governos do Presidente Lula, tendo o Professor Fernando Haddad como Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, culminaram com o Plano de Reestrutura\u00e7\u00e3o e Expans\u00e3o das Universidades Federais (REUNI), a UFBA cresceu e ampliou sua qualidade, tornando-se maior e melhor. Antes do REUNI, \u00e9ramos uma universidade de m\u00e9dio porte, com 1.900 docentes, oferecendo 55 cursos de gradua\u00e7\u00e3o e 61 de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o para menos de vinte mil estudantes. Dez anos depois, a UFBA tem mais de 45 mil estudantes, matriculados em 105 cursos de gradua\u00e7\u00e3o e 136 de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, com quase 3 mil professores.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em nota oficial, a Reitoria da UFBA informa que hoje somos a 1a universidade do Nordeste, a 10a brasileira e a 30a da Am\u00e9rica Latina, no ranking Times Higher Education, que avalia 1.250 universidades de 36 pa\u00edses. No RUF, que avalia qualidade do ensino, percep\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, internacionaliza\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o e pesquisa, a UFBA foi considerada a 14a melhor entre as 196 universidades brasileiras. Entre as federais, \u00e9 a 9a em colabora\u00e7\u00e3o internacional e 11a em colabora\u00e7\u00e3o com empresas. Dados do pr\u00f3prio MEC mostram que \u00edndices de qualidade dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o, medidos pelo ENADE, v\u00eam crescendo na UFBA de modo consistente desde 2006; recentemente, no tri\u00eanio 2015-2017, ultrapassamos a nota 4. Na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, a UFBA \u00e9 a terceira institui\u00e7\u00e3o brasileira com mais programas com notas acima de 4 na avalia\u00e7\u00e3o Capes. O mais not\u00e1vel \u00e9 o crescimento de 17 para 54 doutorados no per\u00edodo. Como resultado, a UFBA mais que dobrou sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica entre 2008 e 2017, tornando-se a 12a universidade brasileira que mais publica em peri\u00f3dicos de impacto e a 9a em \u00edndices de acesso na plataforma Scopus.<\/p>\n<p>Um dia depois, em meio a uma onda de cr\u00edticas, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o comunicou que esse bloqueio or\u00e7ament\u00e1rio ser\u00e1 estendido a todas as IFES. Alguns analistas avaliam que houve recuo estrat\u00e9gico do governo, com a inten\u00e7\u00e3o de prevenir eventuais processos na justi\u00e7a contra medidas ilegais de uma gest\u00e3o p\u00fablica antidemocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Tenho outra opini\u00e3o. Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, mas de modo algum significa recuo. H\u00e1 l\u00f3gica nessa insanidade. A meta definida pela equipe econ\u00f4mica foi um corte de quase 6 bilh\u00f5es do or\u00e7amento do MEC. Evidentemente, se o governo pretende reduzir ao m\u00e1ximo o financiamento de toda a rede federal de ensino superior, operadora de uma das maiores pol\u00edticas p\u00fablicas de inclus\u00e3o social da hist\u00f3ria brasileira, por que motivo iriam bloquear somente 100 milh\u00f5es de custeio em apenas quatro universidades? E mais: por que declarar com detalhes e clareza que, nesses casos, tal medida se faria como retalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? Por terem, segundo dirigentes do MEC, realizado eventos por eles considerados como partid\u00e1rios? E a descri\u00e7\u00e3o semi-oficial desses supostos eventos \u00e9 totalmente non-sense: gente pelada fazendo balb\u00fardia em festas campesinas nos campi universit\u00e1rios. Desde quando isso tem a ver com partidos pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Minha hip\u00f3tese: trata-se de grosseira provoca\u00e7\u00e3o, premeditada e truculenta. Demonstram com isso que querem o acirramento da crise pol\u00edtica, ati\u00e7ando e provocando aqueles que, segundo consta nos registros da pseudoci\u00eancia, fazem parte de uma conspira\u00e7\u00e3o nacional, internacional e interplanet\u00e1ria de marxistas culturais. Adorariam, por exemplo, contar com uma greve geral nacional das universidades p\u00fablicas, enfim paralisando aulas (de suposta doutrina\u00e7\u00e3o comunista) e pesquisas (que acham irrelevantes), que n\u00e3o encontrar\u00e1 qualquer mesa de negocia\u00e7\u00e3o, mas ser\u00e1 enfrentada com corte de sal\u00e1rios, guerrilha psicol\u00f3gica em redes sociais, repress\u00e3o policial e chantagem jur\u00eddica. Se tal ocorrer, tentar\u00e3o desmoralizar o sistema p\u00fablico de educa\u00e7\u00e3o superior perante aqueles segmentos da sociedade que sup\u00f5em ser sua base de apoio, resultando em ainda mais espa\u00e7o ao setor empresarial no campo da educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 triste constatar que, neste momento dif\u00edcil de nosso pa\u00eds, uma perigosa tormenta est\u00e1 se formando.<\/p>\n<p>O que fazer? Muitas possibilidades aparecem, mas, antes de qualquer coisa, precisamos pensar estrategicamente, refletir coletivamente e atuar eficazmente, o que significa buscar e testar novas formas de mobiliza\u00e7\u00e3o e luta. Modelos tradicionais e mesmo convencionais de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica podem ter-se esgotado ou, pelo menos, n\u00e3o mais se adequam \u00e0s demandas dos novos contextos, que mudaram com o tempo, ou ainda, de t\u00e3o conhecidos, t\u00eam sido facilmente neutralizados pelos novos oponentes.<\/p>\n<p>Para recriar formas de luta e atos pol\u00edticos consequentes, precisamos convocar e reagrupar nossas lideran\u00e7as, intelectuais, pol\u00edticas, sindicais e institucionais. Algumas, precisam ser remotivadas e outras devem aparecer, agir, mover-se para serem reconhecidas; e novas lideran\u00e7as surgir\u00e3o no calor das lutas. A virtude da paci\u00eancia pol\u00edtica deve ser por elas promovida e cultivada, tanto no sentido da espera estrat\u00e9gica dos ciclos conjunturais, quanto no timing das decis\u00f5es t\u00e1ticas necess\u00e1rias. Para isso servem as lideran\u00e7as nos processos e crises, j\u00e1 nos ensinava a sabedoria gramsciana (t\u00e3o atacada e mal-entendida, neste momento em particular).<\/p>\n<p>Como condi\u00e7\u00e3o de sucesso, este \u00e9 um momento crucial para renovar alian\u00e7as. Por diversos motivos, a institui\u00e7\u00e3o milenar que se chama universidade significa muito (e de modo distinto) para diferentes pessoas e grupos. Precisamos de uni\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o entre sujeitos e projetos distintos, superando diverg\u00eancias para construir converg\u00eancias capazes de sustentar as lutas necess\u00e1rias. As palavras solidariedade e cuidado, junto com respeito \u00e0s diferen\u00e7as, remetem a possibilidades de novas pr\u00e1ticas pol\u00edticas com efetividade, representatividade e participa\u00e7\u00e3o, mas sobretudo com \u00e9tica e sentimento.<\/p>\n<p>E, finalmente, companheiras e companheiros aposentados, ainda militantes, s\u00e1bios, podem muito ajudar a defender a universidade p\u00fablica brasileira. Devem certamente lembrar que j\u00e1 vimos esse filme antes. Em tempos bastante sombrios e outros nem tanto, enfrentamos ministros coron\u00e9is e suas quarteladas, intelectuais obscuros e seus infiltrados, mil\u00edcias burocr\u00e1ticas e suas papeladas, patrulhas pedag\u00f3gicas e suas patacoadas. Aprendemos muito com tudo isso e podemos compartilhar erros, acertos e esperan\u00e7as, tudo o que afinal se valoriza como experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesses termos e condi\u00e7\u00f5es, com tudo o que estiver dentro de nossas compet\u00eancias, limites e princ\u00edpios \u00e9ticos, estaremos prontos para resistir, posicionar, reagir e retomar o processo de avan\u00e7o pol\u00edtico momentaneamente bloqueado em nosso pa\u00eds. Come\u00e7amos agora e aqui, na Universidade Federal da Bahia, manifestando nosso rep\u00fadio e indigna\u00e7\u00e3o frente aos atos do atual respons\u00e1vel pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, atos que discriminam, desonram e agridem nossa institui\u00e7\u00e3o, com a vil amea\u00e7a de impedi-la de continuar cumprindo seu papel hist\u00f3rico de alma mater da educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Naomar de Almeida Filho \u00e9\u00a0 Pesquisador 1-A do CNPq. Ex-Reitor da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Federal do Sul da Bahia,\u00a0 Atualmente Professor Visitante no Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naomar de Almeida Filho O ministro da educa\u00e7\u00e3o anunciou esta semana profundo corte no custeio de tr\u00eas universidades federais, incluindo a Universidade Federal da Bahia (UFBA), que estariam fazendo \u201cbalb\u00fardia\u201d e por defici\u00eancias em desempenho acad\u00eamico. N\u00e3o satisfeito, amea\u00e7ou estender a medida a uma quarta universidade, pelas mesmas alegadas raz\u00f5es. 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