{"id":88411,"date":"2019-03-30T12:13:45","date_gmt":"2019-03-30T15:13:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=88411"},"modified":"2019-03-30T08:58:38","modified_gmt":"2019-03-30T11:58:38","slug":"e-isso-que-o-brasil-quer-celebrar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2019\/03\/30\/e-isso-que-o-brasil-quer-celebrar\/","title":{"rendered":"\u00c9 isso que o Brasil quer celebrar?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Paulo Coelho, no Washington Post<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-88413\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pc-2-191x300.jpg\" alt=\"pc 2\" width=\"141\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pc-2-191x300.jpg 191w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pc-2.jpg 279w\" sizes=\"(max-width: 141px) 100vw, 141px\" \/>28 de maio de 1974: um grupo de homens armados invade meu apartamento. Come\u00e7am a revirar gavetas e arm\u00e1rios \u2013 n\u00e3o sei o que est\u00e3o procurando, sou apenas um compositor de rock. Um deles, mais gentil, pede que os acompanhe \u201capenas para esclarecer algumas coisas\u201d. O vizinho v\u00ea tudo aquilo e avisa minha fam\u00edlia, que entra em desespero. Todo mundo sabia o que o Brasil vivia naquele momento, mesmo que nada fosse publicado nos jornais.<\/p>\n<p>Sou levado para o DOPS (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social), fichado e fotografado. Pergunto o que fiz, ele diz que ali quem pergunta s\u00e3o eles. Um tenente me faz umas perguntas tolas, e me deixa ir embora. Oficialmente j\u00e1 n\u00e3o sou mais preso: o governo n\u00e3o \u00e9 mais respons\u00e1vel por mim. Quando saio, o homem que me levara ao DOPS sugere que tomemos um caf\u00e9 juntos. Em seguida, escolhe um t\u00e1xi e abre gentilmente a porta. Entro e pe\u00e7o para que v\u00e1 at\u00e9 a casa de meus pais \u2013 espero que n\u00e3o saibam o que aconteceu.<\/p>\n<p>No caminho, o t\u00e1xi \u00e9 fechado por dois carros; de dentro de um deles sai um homem com uma arma na m\u00e3o e me puxa para fora. Caio no ch\u00e3o, sinto o cano da arma na minha nuca. Olho um hotel diante de mim e penso: \u201cn\u00e3o posso morrer t\u00e3o cedo.\u201d Entro em uma esp\u00e9cie de catatonia: n\u00e3o sinto medo, n\u00e3o sinto nada. Conhe\u00e7o as hist\u00f3rias de outros amigos que desapareceram; sou um desaparecido, e minha \u00faltima vis\u00e3o ser\u00e1 a de um hotel. Ele me levanta, me coloca no ch\u00e3o do seu carro, e pede que eu coloque um capuz.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-88412\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pc-300x148.jpg\" alt=\"pc\" width=\"300\" height=\"148\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pc-300x148.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/pc.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O carro roda por talvez meia hora. Devem estar escolhendo um lugar para me executarem \u2013 mas continuo sem sentir nada, estou conformado com meu destino. O carro para. Sou retirado e espancado enquanto ando por aquilo que parece ser um corredor. Grito, mas sei que ningu\u00e9m est\u00e1 ouvindo, porque eles tamb\u00e9m est\u00e3o gritando. Terrorista, dizem. Merece morrer. Est\u00e1 lutando contra seu pa\u00eds. Vai morrer devagar, mas antes vai sofrer muito. Paradoxalmente, meu instinto de sobreviv\u00eancia come\u00e7a a retornar aos poucos.<\/p>\n<p>Sou levado para a sala de torturas, com uma soleira. Trope\u00e7o na soleira porque n\u00e3o consigo ver nada: pe\u00e7o que n\u00e3o me empurrem, mas recebo um soco pelas costas e caio. Mandam que tire a roupa. Come\u00e7a o interrogat\u00f3rio com perguntas que n\u00e3o sei responder. Pedem para que delate gente de quem nunca ouvi falar. Dizem que n\u00e3o quero cooperar, jogam \u00e1gua no ch\u00e3o e colocam algo no meus p\u00e9s, e posso ver por debaixo do capuz que \u00e9 uma m\u00e1quina com eletrodos que s\u00e3o fixados nos meus genitais.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Entendo que, al\u00e9m das pancadas que n\u00e3o sei de onde v\u00eam (e portanto n\u00e3o posso nem sequer contrair o corpo para amortecer o impacto), vou come\u00e7ar a levar choques. Eu digo que n\u00e3o precisam fazer isso, confesso o que quiser, assino onde mandarem. Mas eles n\u00e3o se contentam. Ent\u00e3o, desesperado, come\u00e7o a arranhar minha pele, tirar peda\u00e7os de mim mesmo. Os torturadores devem ter se assustado quando me veem coberto de sangue; pouco depois me deixam em paz. Dizem que posso tirar o capuz quando escutar a porta bater. Tiro o capuz e vejo que estou em uma sala a prova de som, com marcas de tiros nas paredes. Por isso a soleira.<\/p>\n<p>No dia seguinte, outra sess\u00e3o de tortura, com as mesmas perguntas. Repito que assino o que desejarem, confesso o que quiserem, apenas me digam o que devo confessar. Eles ignoram meus pedidos. Depois de n\u00e3o sei quanto tempo e quantas sess\u00f5es (o tempo no inferno n\u00e3o se conta em horas), batem na porta e pedem para que coloque o capuz. O sujeito me pega pelo bra\u00e7o e diz, constrangido: n\u00e3o \u00e9 minha culpa. Sou levado para uma sala pequena, toda pintada de negro, com um ar-condicionado fort\u00edssimo. Apagam a luz. S\u00f3 escurid\u00e3o, frio, e uma sirene que toca sem parar. Come\u00e7o a enlouquecer, a ter vis\u00f5es de cavalos. Bato na porta da \u201cgeladeira\u201d (descobri mais tarde que esse era o nome), mas ningu\u00e9m abre. Desmaio. Acordo e desmaio v\u00e1rias vezes, e em uma delas penso: melhor apanhar do que ficar aqui dentro.<\/p>\n<p>Quando acordo estou de novo na sala. Luz sempre acesa, sem poder contar dias e noites. Fico ali o que parece uma eternidade. Anos depois, minha irm\u00e3 me conta que meus pais n\u00e3o dormiam mais; minha m\u00e3e chorava o tempo todo, meu pai se trancou em um mutismo e n\u00e3o falava.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o sou mais interrogado. Pris\u00e3o solit\u00e1ria. Um belo dia, algu\u00e9m joga minhas roupas no ch\u00e3o e pede que eu me vista. Me visto e coloco o capuz. Sou levado at\u00e9 um carro e posto na mala. Giram por um tempo que parece infinito, at\u00e9 que param \u2013 vou morrer agora? Mandam-me tirar o capuz e sair da mala. Estou em uma pra\u00e7a com crian\u00e7as, n\u00e3o sei em que parte do Rio.<\/p>\n<p>Vou para a casa de meus pais. Minha m\u00e3e envelheceu, meu pai diz que n\u00e3o devo mais sair na rua. Procuro os amigos, procuro o cantor, e ningu\u00e9m responde ao meus telefonemas. Estou s\u00f3: se fui preso devo ter alguma culpa, devem pensar. \u00c9 arriscado ser visto ao lado de um preso. Sa\u00ed da pris\u00e3o mas ela me acompanha. A reden\u00e7\u00e3o vem quando duas pessoas que sequer eram pr\u00f3ximas de mim me oferecem emprego. Meus pais nunca se recuperaram.<\/p>\n<p>Decadas depois, os arquivos da ditadura s\u00e3o abertos e meu bi\u00f3grafo consegue todo o material. Pergunto por que fui preso: uma den\u00fancia, ele diz. Quer saber quem o denunciou? N\u00e3o quero. N\u00e3o vai mudar o passado.<\/p>\n<p>E s\u00e3o essas d\u00e9cadas de chumbo que o Presidente Jair Bolsonaro \u2013 depois de mencionar no Congresso um dos piores torturadores como seu \u00eddolo \u2013 quer festejar nesse dia 31 de mar\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Coelho, no Washington Post 28 de maio de 1974: um grupo de homens armados invade meu apartamento. Come\u00e7am a revirar gavetas e arm\u00e1rios \u2013 n\u00e3o sei o que est\u00e3o procurando, sou apenas um compositor de rock. Um deles, mais gentil, pede que os acompanhe \u201capenas para esclarecer algumas coisas\u201d. 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