{"id":86154,"date":"2019-01-31T10:03:20","date_gmt":"2019-01-31T13:03:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=86154"},"modified":"2019-01-31T09:07:44","modified_gmt":"2019-01-31T12:07:44","slug":"estou-preparado-para-a-porrada-diz-wagner-moura-sobre-o-filme-marighella","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2019\/01\/31\/estou-preparado-para-a-porrada-diz-wagner-moura-sobre-o-filme-marighella\/","title":{"rendered":"&#8220;Estou preparado para a porrada&#8221;, diz Wagner Moura sobre o filme &#8216;Marighella&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-86155\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/w-mora.jpg\" alt=\"w mora\" width=\"622\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/w-mora.jpg 1000w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/w-mora-300x107.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 622px) 100vw, 622px\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/01\/30\/estou-preparado-para-a-porrada-diz-wagner-moura-sobre-o-filme-marighella\/\" target=\"_blank\"><strong>Do Brasil de Fato &#8211;<\/strong><\/a> &#8220;&#8216;Cuidado que o Marighella \u00e9 valente&#8217;, alertou um agente da repress\u00e3o antes de umas das muitas tentativas de captura do l\u00edder revolucion\u00e1rio durante a ditadura militar&#8221;. A passagem da biografia de Carlos Marighella, escrita por M\u00e1rio Magalh\u00e3es, retrata uma das principais facetas do protagonista do filme dirigido por Wagner Moura, que estreia na 69\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Berlim, na Alemanha, entre os dias 7 e 17 de fevereiro.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a primeira vez que Wagner Moura, mais conhecido por seu papel como Capit\u00e3o Nascimento no filme &#8220;Tropa de Elite&#8221;, trabalha como diretor. De cara, ele assumiu como desafio reconstruir parte da trajet\u00f3ria de Marighella: poeta, militante comunista desde a juventude, deputado federal e fundador do maior grupo armado de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura, a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN).<\/p>\n<p>O filme, que vai do drama \u00e0 a\u00e7\u00e3o, conta justamente sobre o per\u00edodo mais conturbado e radical da vida do baiano como guerrilheiro. &#8220;A minha escolha por esse recorte tamb\u00e9m atende a vontade de que o filme seja popular, que muita gente veja, sobretudo as pessoas pelas quais Marighella lutava, o que \u00e9 uma quest\u00e3o quando voc\u00ea pensa que o cinema \u00e9 um divertimento elitizado no Brasil&#8221;, explica, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Para M\u00e1rio Magalh\u00e3es, autor da biografia, lan\u00e7ar a hist\u00f3ria de Marighella nas telonas \u00e9 um ato de coragem. &#8220;Ainda mais em tempo de novos censores, que querem impedir que se conte a hist\u00f3ria como a hist\u00f3ria aconteceu. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a gostar de Marighella. Mas julg\u00e1-lo sem conhecer sua trajet\u00f3ria \u00e9 estupidez. Marighella nunca provocou tanto amor e tanto \u00f3dio. Ele est\u00e1 mais vivo do que nunca&#8221;, acrescenta o escritor, quando perguntado sobre a adapta\u00e7\u00e3o de seu livro.<\/p>\n<p>Pela escolha do personagem e do recorte, Wagner Moura afirma que o filme encontrou barreiras para conseguir financiamento. A produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o tem previs\u00e3o de exibi\u00e7\u00e3o nos cinemas brasileiros. &#8220;Existiu totalmente um boicote. Embora o filme v\u00e1 estrear em 2019 no governo Bolsonaro &#8211; na \u00e9poca em que a gente estava filmando parecia uma piada isso &#8211; mas j\u00e1 viv\u00edamos uma polariza\u00e7\u00e3o grande e um crescimento do conservadorismo. Eu que sempre fui um artista identificado com a esquerda, ent\u00e3o ficou &#8216;o petralha fazendo filme sobre o terrorista&#8217; e ningu\u00e9m queria se associar a isso. A gente recebeu respostas agressivas, mas estou seguro do filme que fiz e preparado para a porrada&#8221;, garante o diretor estreante, valente assim como seu protagonista e refer\u00eancia de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Confira a entrevista completa:<\/p>\n<p>Brasil de Fato: Por que resolveu contar a hist\u00f3ria de Marighella nos cinemas?<\/p>\n<p>Wagner Moura: Eu sou baiano. Suponho que o nome de Marighella seja igual no Brasil inteiro, mas, em Salvador, a gente cresceu tendo ele como refer\u00eancia de resist\u00eancia. Era um nome importante na Bahia para quem se interessava pelas lutas de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Eu sempre fui fascinado por revoltas populares. Mal\u00eas, Canudos&#8230; e Marighella \u00e9 um personagem pr\u00f3ximo dessa tradi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m sou muito amigo, no mundo do teatro, de Maria Marighella, sua neta.<\/p>\n<p>Quando M\u00e1rio Magalh\u00e3es, lan\u00e7ou a sua biografia, em 2012, eu estava em Salvador e a Maria me falou: &#8220;Saiu a biografia do meu av\u00f4, cara. Temos que fazer um filme&#8221;. Na hora, eu concordei. A princ\u00edpio, minha ideia era que o filme acontecesse, eu queria produzir esse filme. Era uma narrativa que eu queria ver contada, mas n\u00e3o tinha pensado que eu ia dirigir o filme.<\/p>\n<p>Sempre fui um ator muito interessado no trabalho que vai al\u00e9m do set [de filmagens]. Desejo trabalhos que me desafiem artisticamente tamb\u00e9m, ent\u00e3o foi a\u00ed come\u00e7ou a hist\u00f3ria de dirigir &#8220;Marighella&#8221;.<\/p>\n<p>E o que um filme de fic\u00e7\u00e3o pode acrescentar \u00e0 hist\u00f3ria de Marighella?<\/p>\n<p>Um filme de fic\u00e7\u00e3o tem potencial de se alastrar e atingir mais pessoas que um document\u00e1rio. S\u00e3o raros os document\u00e1rios que atingem uma quantidade grande de pessoas. Eu sou um cara que vem da fic\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o saberia fazer um document\u00e1rio sobre a hist\u00f3ria dele.<\/p>\n<p>Embora ele [o filme] seja baseado em uma hist\u00f3ria real, em personagens reais, em um estudo gigante do M\u00e1rio Magalh\u00e3es, que \u00e9 incr\u00edvel \u2013 ele reconstituiu a hist\u00f3ria de um cara que fez quest\u00e3o de apagar seus passos \u2013, o nosso filme toma liberdades criativas de cenas, lugares, pessoas que n\u00e3o aconteceram.<\/p>\n<p>O filme se apropria de elementos que s\u00e3o da hist\u00f3ria dele. Nada que est\u00e1 l\u00e1 \u00e9 diferente do que eu suponho que Marighella n\u00e3o faria de verdade. Por outro lado, tem situa\u00e7\u00f5es ficcionalizadas. Por exemplo, os guerrilheiros que est\u00e3o ao redor dele: n\u00e3o quis usar os nomes reais, porque a ALN [A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional] era t\u00e3o grande, tinha tanta gente interessante, e n\u00e3o quero que ningu\u00e9m fique pensando que s\u00e3o pessoas espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Os personagens s\u00e3o baseados em figuras hist\u00f3ricas, mas s\u00e3o ficcionais. V\u00e1rias liberdades inerentes ao cinema foram tomadas para que o filme ficasse bom. Mas, claro, tudo com muito cuidado para que a figura de Marighella e a sua hist\u00f3ria se popularizasse.<\/p>\n<p>Que Marighella \u00e9 esse, retratado no seu filme?<\/p>\n<p>O recorte temporal \u00e9 do golpe de 1964 at\u00e9 a morte de Marighella em 1969 \u2013 os \u00faltimos cinco anos de sua vida. Esse Marighella \u00e9 o cara que resolve ir para a luta armada, resolve que a \u00fanica possibilidade de lutar pela democracia, justi\u00e7a social, liberdade, igualdade, \u00e9 essa. Escolher esse recorte \u00e9 retratar o Marighella radical. Mas vale lembrar que ele foi uma pessoa que militou na legalidade o quanto p\u00f4de. Porque o Partido Comunista (PCB) ficava ilegal quase o tempo inteiro.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, do ponto de vista cinematogr\u00e1fico, as a\u00e7\u00f5es da ALN s\u00e3o espetaculares. Nosso filme \u00e9 um h\u00edbrido de g\u00eaneros. Ele \u00e9 um drama hist\u00f3rico, mas, ao mesmo tempo, tem elementos muito poderosos do cinema de a\u00e7\u00e3o. Mais uma vez, a minha escolha por esse recorte tamb\u00e9m atende \u00e0 vontade de que o filme seja popular, que muita gente veja, sobretudo as pessoas pelas quais Marighella lutava \u2013 o que \u00e9 uma quest\u00e3o, quando voc\u00ea pensa que o cinema \u00e9 um divertimento elitizado.<\/p>\n<p>Vou fazer o que eu puder para que o m\u00e1ximo de pessoas poss\u00edvel assista ao filme. Eu prometi ao Boulos [Guilherme] que vou estrear o filme no acampamento de S\u00e3o Bernardo, do MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem Teto], e do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] tamb\u00e9m. O que puder fazer nesse sentido, vou fazer.<\/p>\n<p>O Mano Brown foi anunciado inicialmente para o papel de Marighella. Por que Seu Jorge assumiu?<\/p>\n<p>N\u00e3o tem no Brasil algu\u00e9m mais Marighella do que Brown. Poeta e guerrilheiro, amoroso e agressivo.<\/p>\n<p>A gente come\u00e7ou a ensaiar com ele, mas deu um azar muito grande: foi o m\u00eas em que o Racionais [MCs] fez mais shows. Tinha um por dia, que terminava \u00e0s quatro horas da manh\u00e3! N\u00e3o deu para ele. Era um comprometimento que n\u00e3o dava para acompanhar.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um parceiro do filme, quer que o filme aconte\u00e7a, toda a equipe \u00e9 louca por ele, mas n\u00e3o deu. Ent\u00e3o, a gente precisou de outro ator.<\/p>\n<p>Seu Jorge \u00e9 uma das pessoas mais talentosas do mundo. O trabalho dele no filme \u00e9 absurdo. Engra\u00e7ado que, quando saiu a not\u00edcia que ele interpretaria, um articulista de direita disse: &#8220;Esse Wagner est\u00e1 querendo agora empretecer Marighella&#8221;. Ele reivindicou a branquitude de Marighella. Seu Jorge, de fato, tem a pele mais escura do que a de Marighella, mas ele era preto, neto de escrava sudanesa.<\/p>\n<p>Marighella foi um defensor da justi\u00e7a social e igualdade entre as pessoas, mas nunca falou sobre a quest\u00e3o do racismo, porque n\u00e3o era uma pauta da esquerda. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 suficientemente hoje, como deveria ser. A esquerda n\u00e3o entendeu que n\u00e3o se pode falar de nenhuma quest\u00e3o social sem falar de racismo. Sem entender que o evento hist\u00f3rico que fundamenta nossas rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e9 a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a abolir a escravid\u00e3o. O Brasil tem na sua arquitetura quartos de empregada, e as empregadas s\u00e3o em maioria mulheres negras, que tiveram a lei trabalhista regulamentada h\u00e1 poucos anos \u2013 e que gerou uma pol\u00eamica. Embora isso n\u00e3o tenha sido um discurso frontal de Marighella, porque n\u00e3o era da esquerda naquela \u00e9poca, mas pelo fato de ele ser um homem negro e defensor da justi\u00e7a social, a pauta do racismo faz muito sentido em sua boca.<\/p>\n<p>Seu Jorge ser mais escuro do que Marighella n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o. Ele n\u00e3o poderia era ser mais claro.<\/p>\n<p>Durante as filmagens, Wagner Moura dialoga com Seu Jorge, que interpreta Mariguella. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O filme vai ser adaptado para uma s\u00e9rie de TV. \u00c9 uma tentativa de popularizar a hist\u00f3ria de Marighella?<\/p>\n<p>De alguma forma, sim. Esse foi um filme muito dif\u00edcil de conseguir dinheiro para fazer. \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o grande e que n\u00e3o usa a Lei Rouanet \u2013 apesar das pessoas estarem dizendo isso.<\/p>\n<p>O principal apoio \u00e9 da Globo Filmes \u2013 sem ele, n\u00e3o conseguir\u00edamos fazer. Ent\u00e3o, esse \u00e9 um acordo que eles t\u00eam feito com as produ\u00e7\u00f5es: depois de estrear no cinema, eles cortam e fazem uma s\u00e9rie em quatro epis\u00f3dios. Termina sendo uma coisa boa, porque o alcance que a TV tem \u00e9 infinitamente maior, se comparado ao cinema.<\/p>\n<p>Voc\u00ea comentou na imprensa sobre algum boicote das empresas ao filme.<\/p>\n<p>Existiu totalmente um boicote. Embora o filme v\u00e1 estrear em 2019 no governo Bolsonaro \u2013 na \u00e9poca em que a gente estava filmando, parecia uma piada isso \u2013, j\u00e1 viv\u00edamos uma polariza\u00e7\u00e3o grande e um crescimento do conservadorismo.<\/p>\n<p>Eu sempre fui um artista identificado com a esquerda, ent\u00e3o ficou &#8220;o petralha fazendo filme sobre o terrorista&#8221;&#8230; e ningu\u00e9m quer se associar a isso. A gente recebeu respostas agressivas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 preparado para os ataques?<\/p>\n<p>Eu estou preparado para a porrada. N\u00e3o quero que nenhum dos atores sofra tanto, mas v\u00e3o sofrer. V\u00e3o ser ataques violentos. N\u00e3o sabemos tudo que \u00e9 poss\u00edvel. Quando a gente estava filmando, teve uma galera que amea\u00e7ou entrar no set e quebrar tudo.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho redes sociais, n\u00e3o sei como \u00e9, acho que a maioria das amea\u00e7as eu n\u00e3o sei, n\u00e3o vejo. Isso me protege muito da energia pesada. Por outro lado, n\u00e3o tenho medo dessas coisas.<\/p>\n<p>Tenho muita seguran\u00e7a de quem eu sou, do que eu acredito, do filme que fiz. Muita seguran\u00e7a da fragilidade dessa gente, intelectual e humana. O discurso deles \u00e9 de criminalizar os artistas. Para eles, o MST e o MTST s\u00e3o terroristas, Marighella \u00e9 terrorista, defensor de direitos humanos \u00e9 &#8220;defensor de bandido&#8221;.<\/p>\n<p>O cara que emprega bandido no gabinete diz que defensor de direitos humanos \u00e9 que \u00e9 defensor de bandido. Ent\u00e3o, est\u00e1 tudo muito louco. A verdade acabou, n\u00e3o importa mais. Esse momento \u00e9 muito med\u00edocre e muito triste. Isso me assusta \u00e9 o que me d\u00e1 medo.<\/p>\n<p>Na sua avalia\u00e7\u00e3o, o que pode vir a ser a produ\u00e7\u00e3o cultural no Brasil nos pr\u00f3ximos anos?<\/p>\n<p>Triste do pa\u00eds que faz dos seus artistas inimigos do povo. \u00c9 um discurso muito caracter\u00edstico do fascismo. Os artistas que s\u00e3o historicamente ligados a um pensamento mais progressista s\u00e3o os primeiros a serem atacados como inimigos.<\/p>\n<p>A gente est\u00e1 vivendo um momento de extrema mediocridade, moral e intelectual. Bolsonaro vai para Davos e n\u00e3o sabe o que falar. &#8220;Meninas vestem rosa, meninos vestem azul&#8221;, &#8220;Escola sem Partido&#8221;, todo esse mar de mediocridade \u00e9 voc\u00ea querer eliminar tudo o que tem a ver com pensamento cr\u00edtico. \u00c9 pragmatizar e emburrecer.<\/p>\n<p>N\u00f3s artistas fazemos parte do universo que est\u00e1 propondo mudan\u00e7a. N\u00e3o s\u00f3 porque somos historicamente ligados a um pensamento progressista, mas porque o que produzimos prop\u00f5e reflex\u00f5es que incomodam, e essa gente n\u00e3o quer. Eles n\u00e3o leem, n\u00e3o v\u00e3o ao teatro.<\/p>\n<p>Quando falo de cultura n\u00e3o falo s\u00f3 de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, mas de tudo que eles querem destruir. Cultura LGBT, cultura quilombola, cultura ind\u00edgena, tudo isso \u00e9 o que \u00e9 um pa\u00eds. \u00c9 o que faz qualquer pa\u00eds decente se desenvolver com autonomia e autoestima.<\/p>\n<p>A gente vive em um pa\u00eds incr\u00edvel, original, reconhecido por isso. Mas a gente vive um momento, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo inteiro, de extremismo e viol\u00eancia. O Jean Wyllys dizer que n\u00e3o d\u00e1 mais \u00e9 triste, mas absolutamente compreens\u00edvel. Porque se voc\u00ea tem hombridade moral e dignidade, as suas armas s\u00e3o muito fr\u00e1geis contra essa coisa toda.<\/p>\n<p>Algumas pessoas t\u00eam identificado no filme &#8220;Tropa de Elite&#8221; a figura do Capit\u00e3o Nascimento como Bolsonaro. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o votaria no Capit\u00e3o Nascimento para Presidente do Brasil. Ele \u00e9 um personagem de fic\u00e7\u00e3o, por mais realista que seja o filme. N\u00e3o \u00e9 de hoje essa pol\u00eamica.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que o filme foi lan\u00e7ado, o jornalista Arnaldo Bloch falou que o filme era fascista. Eu escrevi um texto para o jornal O Globo falando que n\u00e3o era fascista, e sim, um estudo sobre como se comportam as pol\u00edcias no Rio de Janeiro, sobre essas rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas entre pol\u00edcia, estado e criminalidade.<\/p>\n<p>Eu rejeito categoricamente a ideia de que o filme endossa o comportamento do Capit\u00e3o Nascimento. Mas qualquer obra de arte \u00e9 poliss\u00eamica. N\u00e3o \u00e9 o que eu quero dizer. Por exemplo, se &#8220;Marighella&#8221; tivesse sido lan\u00e7ado no governo Lula seria um filme, no governo Temer, outro filme, e agora \u00e9 outro. \u00c9 o olhar da gente que faz a obra ser o que ela \u00e9.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea v\u00ea os esc\u00e2ndalos envolvendo as mil\u00edcias e a fam\u00edlia Bolsonaro?<\/p>\n<p>As mil\u00edcias s\u00e3o crime organizado. O crime organizado no Brasil mesmo \u00e9 o PCC e as mil\u00edcias, que tem currais eleitorais, elegem pol\u00edticos, s\u00e3o uma m\u00e1fia criminosa e perigosa.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Bolsonaro com milicianos \u00e9 p\u00fablica. Ele nunca escondeu isso. N\u00e3o estou entendendo a surpresa com rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o disse uma palavra sobre a morte de Marielle, que era sua colega parlamentar. N\u00e3o estou dizendo que ele tem uma rela\u00e7\u00e3o direta com a morte dela, mas que ele tem uma rela\u00e7\u00e3o com os policiais que cometeram crimes e tem rela\u00e7\u00f5es com as mil\u00edcias. Qual a surpresa?<\/p>\n<p>Nesse sentido, qual a import\u00e2ncia de que &#8220;Marighella&#8221; seja lan\u00e7ado neste ano?<\/p>\n<p>\u00c9 importante porque \u00e9 um filme que vem disputar narrativa. Talvez seja uma das primeiras obras da nossa cultura que est\u00e1 frontalmente em oposi\u00e7\u00e3o a quem chegou ao poder no Brasil. No entanto, foram eleitos democraticamente, se apresentam como de fato disseram que iam ser.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m se espanta que Fl\u00e1vio Bolsonaro tenha liga\u00e7\u00e3o com a mil\u00edcia. Por qu\u00ea? Que espanto \u00e9 esse? Nenhum. Algu\u00e9m se espanta que Bolsonaro chegue em Davos e n\u00e3o saiba falar com os jornalistas sobre economia? Ent\u00e3o, a gente vive um momento em que um ministro do Supremo [STF] fala que n\u00e3o \u00e9 golpe de 1964, \u00e9 &#8220;movimento de 1964&#8221;, outro diz que a ditadura n\u00e3o foi t\u00e3o m\u00e1 assim. Nosso filme vem para disputar essa narrativa. Para dizer que foi ruim, que foi horr\u00edvel, que teve gente que teve coragem de enfrentar aquilo.<\/p>\n<p>A forma como o enfrentamento se deu foi radical. Talvez, se vivesse esse per\u00edodo, eu n\u00e3o entraria para a luta armada. Vejo o neg\u00f3cio do porte de armas e fico arrepiado. Mas \u00e9 muito cruel tamb\u00e9m, analistas pol\u00edticos no Brasil, sob a luz da hist\u00f3ria, analisando a op\u00e7\u00e3o de quem naquele momento, cerceado de todos os seus direitos b\u00e1sicos, optou por enfrentar com for\u00e7a quem estava oprimindo. Isso \u00e9 um direito de qualquer povo: defender-se do totalitarismo e da opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Em entrevista ao Pedro Bial, antes de come\u00e7ar a filmar, voc\u00ea falou que &#8220;ia fazer um filma\u00e7o&#8221;. Voc\u00ea fez mesmo?<\/p>\n<p>Eu fiz. \u00c9 um filma\u00e7o mesmo. Fiz o filme que queria ter feito.<\/p>\n<p>Eu acho que eu n\u00e3o sou diretor, mas um ator que dirigiu um filme. Fui para Berlim tr\u00eas vezes: com &#8220;Tropa de Elite 1&#8221;, &#8220;Tropa de Elite 2&#8221; e &#8220;Praia do Futuro&#8221;. \u00c9ramos poucos. Sabe quantas pessoas estar\u00e3o em Berlim agora? Quinze atores e mais umas pessoas da equipe. Uma galera que n\u00e3o tem grana, mas quer ir para estar nesse dia, come\u00e7ando a caminhada desse filme juntos. Um filme t\u00e3o potente e especial para todos n\u00f3s que fizemos.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s sabemos a import\u00e2ncia que esse filme tem, politicamente, no Brasil. Mesmo que a gente tire esse elemento, se \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel, artisticamente, o que vivenciamos foi uma das experi\u00eancias mais profundas que tive. Ver o que os atores estavam me dando foi uma coisa de outro mundo. Acabava a cena, eu queria beijar, ajoelhar aos p\u00e9s dos atores.<\/p>\n<p>Eu entendi a import\u00e2ncia que o ator tem. O tamanho da exposi\u00e7\u00e3o que o ator apresenta quando est\u00e1 em cena, a equipe, como cada um foi levado ao seu limite de sair da zona de conforto. Ningu\u00e9m fez o que sabia fazer, eu n\u00e3o sabia fazer. Foi todo mundo junto. Querendo muito contar essa hist\u00f3ria. Seremos mais de 30 em Berlim, porque o filme foi feito com muita honestidade. \u00c9 um filme honesto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Brasil de Fato &#8211; &#8220;&#8216;Cuidado que o Marighella \u00e9 valente&#8217;, alertou um agente da repress\u00e3o antes de umas das muitas tentativas de captura do l\u00edder revolucion\u00e1rio durante a ditadura militar&#8221;. 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