{"id":82305,"date":"2018-10-10T09:16:11","date_gmt":"2018-10-10T12:16:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=82305"},"modified":"2018-10-10T09:16:11","modified_gmt":"2018-10-10T12:16:11","slug":"pesquisa-descobre-mecanismo-usado-por-fungo-causador-da-vassoura-de-bruxa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2018\/10\/10\/pesquisa-descobre-mecanismo-usado-por-fungo-causador-da-vassoura-de-bruxa\/","title":{"rendered":"Pesquisa descobre mecanismo usado por fungo causador da vassoura-de-bruxa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-82307\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/goncalo-300x196.jpg\" alt=\"goncalo\" width=\"300\" height=\"196\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/goncalo-300x196.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/goncalo.jpg 980w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>(Jornal da Unicamp)- No final da d\u00e9cada de 1980, o Brasil era o segundo maior produtor mundial de cacau. O pa\u00eds colhia cerca de 400 mil toneladas do fruto ao ano. O excelente desempenho da cacauicultura brasileira, por\u00e9m, foi duramente afetado nos anos seguintes por causa da a\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a denominada vassoura-de-bruxa, causada pelo fungo de nome\u00a0Moniliophtora perniciosa, que devastou in\u00fameras planta\u00e7\u00f5es. Atualmente, a safra nacional do produto gira em torno de 180 mil toneladas anuais, sendo que chegou a 120 mil toneladas no final dos anos 1990. Desde que a vassoura-de-bruxa foi identificada, pesquisadores do Laborat\u00f3rio de Gen\u00f4mica e Express\u00e3o (LGE) do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp v\u00eam desenvolvendo diversos estudos para tentar descobrir como o fungo atua, com o objetivo de combat\u00ea-lo. Recentemente, os cientistas deram um importante passo nessa dire\u00e7\u00e3o. Eles descobriram um mecanismo usado pelo micro-organismo para \u201cdriblar\u201d o sistema imune de planta, e assim infect\u00e1-la. O trabalho rendeu artigo que acaba de ser publicado pela prestigiada revista Current Biology, um selo da editora Cell Press da Elsevier.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-82306\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/pesquisa-vb-300x202.jpg\" alt=\"pesquisa vb\" width=\"300\" height=\"202\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/pesquisa-vb-300x202.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/pesquisa-vb.jpg 980w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>De acordo com o professor Gon\u00e7alo Amarante Guimar\u00e3es Pereira, coordenador do LGE, a descoberta \u00e9 resultado de quase 20 anos de pesquisas e da dedica\u00e7\u00e3o de centenas de alunos ao longo desse per\u00edodo, desde a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica at\u00e9 o p\u00f3s-doutorado. \u201cTivemos um grande sucesso nessa empreitada. Descrevemos a vassoura-de-bruxa em detalhes e identificamos as vias metab\u00f3licas envolvidas na estrat\u00e9gia de a\u00e7\u00e3o do fungo. Tamb\u00e9m desenvolvemos m\u00e9todos de manejo das plantas, em parceria com os produtores. Apesar desses avan\u00e7os, ainda n\u00e3o conseguimos chegar a um produto ou processo que possa eliminar o micro-organismo. A partir de agora, com a identifica\u00e7\u00e3o do mecanismo de a\u00e7\u00e3o do pat\u00f3geno, estou convencido de que poderemos obter novos progressos\u201d, considera o docente.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O que os pesquisadores do LGE descobriram \u00e9 que o\u00a0Moniliophtora perniciosa\u00a0\u00e9 bastante astuto e insidioso. Ele se vale de uma estrat\u00e9gia incomum para enganar o sistema imune da planta, como explica o bi\u00f3logo Paulo Jos\u00e9 Pereira Lima Teixeira, que pesquisou o assunto em sua tese de doutorado. Atualmente, ele \u00e9 pesquisador do Howard Hughes Medical Institute (HHMI), da Universidade da Carolina do Norte (EUA), e no pr\u00f3ximo ano vai assumir a posi\u00e7\u00e3o de professor assistente na ESALQ-USP. Dito de maneira simplificada, o mecanismo de a\u00e7\u00e3o do fungo funciona da seguinte forma. Micro-organismo e a planta estabelecem o que os especialistas qualificam de \u201cfrente de batalha\u201d.<\/p>\n<p>O objetivo do pat\u00f3geno, que atua como um parasita, \u00e9 se desenvolver a partir da energia extra\u00edda do hospedeiro. A planta, por sua vez, responde ao ataque acionando o seu sistema imune para tentar eliminar esse corpo estranho. Estabelece-se, portanto, um embate. \u201cOcorre que, ao longo da sua evolu\u00e7\u00e3o, que pode ter levado milhares de anos, o fungo desenvolveu um mecanismo muito sofisticado para enganar o sistema imune do cacaueiro. N\u00f3s descobrimos que ele produz v\u00e1rias prote\u00ednas durante a infec\u00e7\u00e3o, entre elas uma quitinase, que normalmente funciona para quebrar a quitina, uma esp\u00e9cie de pol\u00edmero que protege a parede do fungo e sem o qual o micro-organismo n\u00e3o consegue sobreviver\u201d, detalha Paulo Teixeira.<\/p>\n<p>Passada dessa forma, a informa\u00e7\u00e3o soa contradit\u00f3ria. A pergunta que surge imediatamente \u00e9: por que o micro-organismo produziria uma prote\u00edna que teria a fun\u00e7\u00e3o de quebrar uma subst\u00e2ncia que lhe \u00e9 essencial? \u201cN\u00f3s tamb\u00e9m nos fizemos esse questionamento e fomos investigar a poss\u00edvel resposta. Um dos meus orientandos, o Gabriel Fiorin, que hoje faz doutorado na Holanda, decifrou esse mecanismo. O que acontece \u00e9 que, ao infectar a planta, o\u00a0Moniliophtora perniciosa\u00a0secreta uma grande quantidade de quitinase. \u00c0 primeira vista, isso n\u00e3o faz qualquer sentido. Entretanto, ao olharmos essa prote\u00edna com mais cuidado, verificamos que as regi\u00f5es respons\u00e1veis pela clivagem (separa\u00e7\u00e3o) da quitina est\u00e3o mutadas. Com isso, a quitinase interage com a quitina, sem que esta \u00faltima seja clivada. O resultado dessas intera\u00e7\u00f5es \u00e9 que a quitinase deixa de destruir a quitina, e passa a captur\u00e1-la. Isso \u00e9 importante porque os fragmentos de quitina livres s\u00e3o reconhecidos pela planta como mol\u00e9culas estranhas, o que leva \u00e0 ativa\u00e7\u00e3o do seu sistema imune. Essa estrat\u00e9gia de captura utilizada pelo fungo impede que a planta reconhe\u00e7a a quitina e dispare todo o arsenal do sistema imune contra o parasita, que assim consegue sobreviver\u201d, detalha Gon\u00e7alo Pereira.<\/p>\n<p>A primeira consequ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o desse mecanismo, que ainda n\u00e3o havia sido descrito pela literatura cient\u00edfica, \u00e9 o surgimento da vassoura verde, etapa que antecede a vassoura seca ou vassoura-de-bruxa. A vassoura verde \u00e9 caracterizada pelo intumescimento do ramo, que fica inchado, como se tivesse tomado anabolizante, para estabelecer uma analogia com o ser humano. \u201cNesse momento, a planta parece gastar uma grande quantidade de energia para tentar combater o pat\u00f3geno. Depois de algum tempo, ela sucumbe e entra em estado de senesc\u00eancia (envelhecimento) prematura. Na sequ\u00eancia, o ramo necrosa e seca, assumindo a apar\u00eancia de vassoura-de-bruxa\u201d, acrescenta o docente<br \/>\nEm busca da solu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A partir dos dados obtidos com a pesquisa, a equipe do LGE j\u00e1 iniciou estudos com o prop\u00f3sito de desenvolver uma \u201carma\u201d eficiente contra o fungo causador da doen\u00e7a. Para enfrentar um inimigo t\u00e3o trai\u00e7oeiro, admitem os cientistas, ser\u00e1 necess\u00e1rio somar t\u00e9cnica \u00e0 criatividade. Uma rota poss\u00edvel, adianta Gon\u00e7alo Pereira, ser\u00e1 retribuir o drible que vem sendo aplicado pelo fungo. \u201cEm vez de nos dedicarmos \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de um fungicida, como seria usual, n\u00f3s vamos partir para a produ\u00e7\u00e3o de uma subst\u00e2ncia que possa fortalecer o sistema imunol\u00f3gico do cacaueiro, para este conseguir destruir o pat\u00f3geno\u201d, revela o docente.<\/p>\n<p>Tanto Gon\u00e7alo Pereira quanto Paulo Teixeira observam que, embora trabalhe fortemente com pesquisa b\u00e1sica, o LGE tem como meta o desenvolvimento de pesquisas que possa favorecer a aplica\u00e7\u00e3o. \u201cMais que isso, nosso foco est\u00e1 nos problemas brasileiros que trazem impacto econ\u00f4mico e social. A vassoura-de-bruxa \u00e9 um exemplo disso. Depois que a cacauicultura da Bahia foi praticamente dizimada pela doen\u00e7a, o Sul do Estado em particular passou por um processo profundo de empobrecimento. A viol\u00eancia e a prostitui\u00e7\u00e3o infantil aumentaram e o n\u00famero de favelas cresceu assustadoramente. Penso que a ci\u00eancia pode e deve contribuir para o enfretamento de quest\u00f5es como essa\u201d, avalia Gon\u00e7alo Pereira.<\/p>\n<p>Outro dado importante relativo \u00e0 pesquisa est\u00e1 destacado no artigo publicado pela revista Current Biology. Segundo Paulo Teixeira, v\u00e1rios grupos, tanto no Brasil quanto no exterior, t\u00eam tentado entender mais profundamente como funcionam os fatores de ataque dos fungos aos hospedeiros. \u201cN\u00f3s levantamos \u00f3timas evidencias de um desses mecanismos. Conseguimos mostrar pela primeira vez que uma prote\u00edna conservada durante a evolu\u00e7\u00e3o, a quitinase, tem fun\u00e7\u00e3o importante na intera\u00e7\u00e3o fungo-planta. Como a quitinase est\u00e1 presente em outros organismos, como v\u00edrus, bact\u00e9rias e at\u00e9 no ser humano, \u00e9 poss\u00edvel que ela tamb\u00e9m atue como supressora do sistema imunol\u00f3gico do hospedeiro de outros organismos, a exemplo do que ocorre com o cacaueiro. A hip\u00f3tese est\u00e1 colocada para quem quiser investigar\u201d, indica o pesquisador, que deve prosseguir com essas investiga\u00e7\u00f5es na sua nova carreira de professor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Jornal da Unicamp)- No final da d\u00e9cada de 1980, o Brasil era o segundo maior produtor mundial de cacau. O pa\u00eds colhia cerca de 400 mil toneladas do fruto ao ano. 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