{"id":81207,"date":"2018-09-13T07:32:07","date_gmt":"2018-09-13T10:32:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=81207"},"modified":"2018-09-13T11:35:08","modified_gmt":"2018-09-13T14:35:08","slug":"10-anos-sem-o-jornalista-fausto-wolff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2018\/09\/13\/10-anos-sem-o-jornalista-fausto-wolff\/","title":{"rendered":"10 anos sem o jornalista Fausto Wolff"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Sergio Caldieri*<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-81208\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/a-fausto-300x171.jpg\" alt=\"a fausto\" width=\"300\" height=\"171\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/a-fausto-300x171.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/a-fausto.jpg 350w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O povo Palestino e os oprimidos do Terceiro Mundo perderam o seu maior defensor em dia 5 de\u00a0 setembro de 2008, no Rio de Janeiro. O jornalista e escritor Fausto Wolff morreu aos 68 anos por disfun\u00e7\u00e3o m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os. Ele nasceu em Santo \u00c2ngelo (RS), em 17 de outubro de 1940, com o nome de Faustin von Wolffenb\u00fcttel, e aos 14 anos come\u00e7ou a trabalhar\u00a0 como rep\u00f3rter de pol\u00edcia no Di\u00e1rio de Porto Alegre. Aos 18 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou nas revistas O Cruzeiro e Manchete e nos jornais O Globo, JB e Tribuna da Imprensa.<\/p>\n<p>Durante 52 anos de carreira jornal\u00edstica incomodou muita gente com suas mat\u00e9rias criticando todos os eternos poderosos que massacravam e sugavam a popula\u00e7\u00e3o mais pobre e injusti\u00e7ada. Fausto sempre foi o porta-voz dos oprimidos e pagou um pre\u00e7o muito caro por defender a causa palestina nos \u00faltimos 30 anos. Bastava ser considerado comunista para viver como um marginalizado na imprensa e ter que sobreviver na imprensa alternativa.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Durante o regime militar teve que se exilar na Dinamarca e It\u00e1lia, onde deu aulas de literatura em duas universidades, em Copenhague e N\u00e1poles.Trabalhou nos mais importantes jornais e revistas brasileiras. Em 1969, fez parte da equipe do mais combativo jornal O Pasquim que durante a ditadura militar (1964-1985), incomodou os ditadores militares de plant\u00e3o. Com um grupo de jornalistas fundou o jornal Tribuna Socialista, considerado o primeiro jornal de esquerda depois da ditadura. Trabalhou em programas de televis\u00e3o onde falava dos problemas pol\u00edticos, culturais e internacionais.<\/p>\n<p>Fausto Wolff escreveu mais de 20 livros de v\u00e1rios temas: pol\u00edticos e romances, e era considerado um dos maiores romancistas brasileiros quando foi consagrado com o Pr\u00eamio Jabuti pela sua obra \u2018\u00c0 m\u00e3o esquerda\u2019. Nos \u00faltimos anos fazia tradu\u00e7\u00f5es de livros, pois dominava muito bem o alem\u00e3o, ingl\u00eas, franc\u00eas, espanhol e italiano.<\/p>\n<p>Fausto dizia que a esquerda no Brasil parece um bando de rebeldes sem car\u00e1ter e sem vergonha. A nossa cultura foi roubada, o jornalismo foi roubado e a m\u00fasica foi roubada. S\u00f3 vejo um bando de acad\u00eamicos idiotas dizendo besteiras que aparecem na televis\u00e3o dizendo coisas que o povo n\u00e3o entende.<\/p>\n<p>Sempre foi um jornalista combativo e cr\u00edtico em todas \u00e1reas, como tamb\u00e9m foi diretor e cr\u00edtico de teatro. Ele dizia que para escrever entre o banc\u00e1rio e o banqueiro, sempre defenderei o banc\u00e1rio; entre o lavrador e o latifundi\u00e1rio, escreverei sobre o campon\u00eas e o MST-Movimento dos Sem Terras; e entre os judeus e palestinos, estarei escrevendo e defendendo os palestinos.<\/p>\n<p>Em 1978, Fausto Wolff esteve no L\u00edbano e entrevistou o l\u00edder Yasser Arafat, da Organiza\u00e7\u00e3o da Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina. Co Fernando Morais visitaram os campos de refugiados. Quando voltou publicou o livro \u2018Os Palestinos: Judeus da 3\u00aa. Guerra Mundial\u2019, come\u00e7ou a persegui\u00e7\u00e3o dos sionistas contra Fausto Wolff. N\u00e3o conseguia emprego nos grandes jornais. Ele dizia que estes dirigentes israelense querem um holocausto glorioso contra os palestinos. \u00c9 uma vergonha por parte do militarismo judeu, por parte daquilo que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, deles deixarem se matar daquela maneira. Acho que eles reagem contra o inimigo errado. Os judeus em vez de continuarem com \u00f3dio dos alem\u00e3es, sempre transferiram o \u00f3dio deles contra os \u00e1rabes, principalmente com a comunidade palestina.<\/p>\n<p>Fausto Wolff sempre escreveu seus artigos criticando as atitudes belicitas israelenses, apoiadas pelos Estados Unidos. Foi o eterno defensor os direitos dos palestinos viverem nas suas terras e n\u00e3o como refugiados sofrendo constantes ataques israelenses. A esquerda israelense e os judeus que vivem fora de Israel \u00e9 que n\u00e3o querem. Tratam o conflito como se fosse um jogo de futebol, no qual torcem para o seu time. Em guerra se torce por quem tem raz\u00e3o e a raz\u00e3o est\u00e1 ao lado dos palestinos, dizia Fausto Wolff.<\/p>\n<p>O jornalista ficava irritado quando os inimigos diziam que era antissemita, e ele respondia: nunca aceitei o insulto de antissemita, pois n\u00e3o sou contra etnia alguma. Alguns do meus melhores amigos s\u00e3o judeus e antissionistas. O Alberto Dines chegou a escrever um p\u00f3sf\u00e1cio em um livro meu. Sempre questionei perguntando como grande \u00eddolos como Jesus Cristo, Karl Marx, Freud e Einstein, todos judeus, diriam de uma figura como Ariel Sharon? E a direita brasileira chamava Fausto Wolff de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de Yasser Arafaf.<\/p>\n<p>No livro \u2018A imprensa livre de Fausto Wolff\u2019\u00a0 ele citou uma parte do livro O apartheid de Israel, do judeu brasileiro Nathaniel Braia, onde dizia: \u201cA posse de Sharon, apesar dos crimes contra os palestinos, tem permitido desnudar para os judeus e para o mundo inteiro a dimens\u00e3o e a gravidade da doen\u00e7a embutida na ideologia que serviu de base para a usurpa\u00e7\u00e3o da Palestina. Atrav\u00e9s de Sharon podemos ver como a l\u00f3gica promovida por essa ideologia est\u00e1 levando \u00e0 deforma\u00e7\u00e3o e \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es de Israel \u2013 principalmente o seu Ex\u00e9rcito \u2013 cada vez mais profundas e perigosas\u201d.<\/p>\n<p>Outro livro que\u00a0 destemido jornalista Fausto Wolff recomendava ao seus leitores era o livro de Norman Finkelstein, \u2018A ind\u00fastria do holocausto\u2019, onde diz que os l\u00edderes sionistas t\u00eam por base \u201ca falsifica\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio nazista\u201d para \u201cdesviar as cr\u00edticas a Israel e sua pol\u00edtica indefens\u00e1vel\u201d. Outro grande escritor que Fausto citava no seus artigos era as opini\u00f5es contundentes de Noam Chomsky que escreveu 1O papel de Israel na pol\u00edtica externa norte-americana\u2019.<\/p>\n<p>Fausto Wolff nunca se conformava por que Israel n\u00e3o se transformava numa democracia com direitos e deveres iguais para todos onde habita uma maioria de cidad\u00e3os que pratica a religi\u00e3o judaica, como no Brasil, onde a maioria \u00e9 cat\u00f3lica, ou como na Inglaterra, onde a maioria \u00e9 anglicana? Fausto achava que \u00e9 a quest\u00e3o, na superf\u00edcie, \u00e9 tratada como uma quest\u00e3o religiosa quando, na verdade, envolve poder colonial, econ\u00f4mico, pol\u00edtico e o confisco de reservas de \u00e1gua e de petr\u00f3leo assim que \u2013 como a cr\u00f4nica de morte anunciada \u2013 os Estados Unidos come\u00e7aram a bombardear o Iraque.<\/p>\n<p>O jornalista com quase dois metros de altura e pesava uns 120 quilos, sempre foi uma fortaleza, pois na ditadura militar, os agentes da repress\u00e3o tentaram prend\u00ea-lo, mas n\u00e3o conseguiram porque era muito grande, e precisava de v\u00e1rios homens para segur\u00e1-lo. Fausto nunca se curvou como disse no vel\u00f3rio o presidente do Partido Comunista Brasileiro Ivan Pinheiro,\u00a0 e o jornalista M\u00e1rio Augusto Jakobskind que relembrou dos encontros do amigo em Cuba, onde ele cantava A Internacional, a sua m\u00fasica preferida dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimo tr\u00eas anos, Fausto Wolff manteve a coluna di\u00e1ria mais lida no Jornal do Brasil. Em outubro de 2005, Fausto escreveu dois artigos que incomodou a comunidade judaica, e reclamou com a dire\u00e7\u00e3o do jornal, alegando que Fausto Wolff tinha jogado mais lenha na fogueira, chamando os governantes de Israel de nazistas, assassinos cru\u00e9is, e difamando de forma grosseira Ariel Sharon. Num artigo, Fausto dizia: \u201cTem-se a impress\u00e3o de que os protagonistas desses crimes, desses assassinatos, desses\u00a0 estupros \u2013 v\u00edtimas e algozes \u2013 vivem num outro mundo e quando se aproxima de n\u00f3s podem ser facilmente identific\u00e1veis como cidad\u00e3os de segunda categoria, tal qual os judeus eram para os nazistas e os palestinos s\u00e3o, hoje em dia, para os judeus\u201d.<\/p>\n<p>Outro coment\u00e1rio de Fausto nas suas coluna foi: \u201cOra, esses patifes todos, essas aves de rapina, se dizem cat\u00f3licos, protestantes, judeus. Se isso fosse verdade, bastaria que seguissem os ensinamentos de Mois\u00e9s e de Cristo e n\u00e3o haveria um s\u00f3 faminto no mundo. Os verdadeiros revolucion\u00e1rios, como Jesus, Buda, Giordano Bruno, Galileu, Einstein, Schweitzer e Russell, entre tantos outros, s\u00f3 s\u00e3o louvados hoje em dia porque est\u00e3o mortos e os mortos n\u00e3o perturbam o poder\u201d.<\/p>\n<p>Durante o vel\u00f3rio de Fausto Wolff, falei em nome do Comit\u00ea da Palestina Viva Intifada, agradecendo diretamente ao meu lado o propriet\u00e1rio do Jornal do Brasil Nelson Tanure por ter resistido as press\u00f5es da comunidade judaica e n\u00e3o ter demitido o jornalista da sua reda\u00e7\u00e3o, pois Fausto foi a \u00fanica\u00a0 voz na imprensa brasileira que sempre defendeu a causa palestina. Foi um jornalista que honrou a classe de jornalistas brasileiros, que sempre esteve ao lado dos ofendidos e humilhados, denunciando as injusti\u00e7as e contrariando os poderosos.<\/p>\n<p>UM EXEMPLO A SEGUIR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Valter X\u00e9u<\/p>\n<p>Editor de P\u00e1tria Latina<\/p>\n<p>Conheci Fausto no inicio dos anos 80 sendo que antes o acompanhava na edi\u00e7\u00e3o semana do Pasquim\u00a0 on de ele escrevia uma coluna.<\/p>\n<p>Era ele um dos colaboradores do Noticias da Bahia, jornal que eu editava em Feira de Santana e depois passou a integrar a equipe do P\u00e1tria Latina<\/p>\n<p>Desde a funda\u00e7\u00e3o do P\u00e1tria\u00a0 em fevereiro de 2002 ate a data da sua morte.<\/p>\n<p>Sempre bat\u00edamos longos papos por telefone ou nas minhas idas ou passagens pelo Rio de Janeiro e compartilhava daquele sentimento de que jornalismo \u00e9 a defesa dos fracos e oprimidos e o resto \u00e9 perfumaria.<\/p>\n<p>P\u00e1tria Latina com quase 17 anos de vida. Tem na sua equipe v\u00e1rios Fausto Wolff e com todos eles, continuaremos firme e forte seguindo fielmente o estilo de jornalismo do grande Fausto Wolff.<\/p>\n<p>*Sergio Caldieri \u2013 Jornalista, escritor e vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro-SJPERJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sergio Caldieri* O povo Palestino e os oprimidos do Terceiro Mundo perderam o seu maior defensor em dia 5 de\u00a0 setembro de 2008, no Rio de Janeiro. O jornalista e escritor Fausto Wolff morreu aos 68 anos por disfun\u00e7\u00e3o m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os. 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