{"id":730,"date":"2010-06-21T17:37:00","date_gmt":"2010-06-21T20:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2010\/06\/21\/ensaio-sobre-o-amor-e-a-cegueira\/"},"modified":"2010-06-21T17:37:00","modified_gmt":"2010-06-21T20:37:00","slug":"ensaio-sobre-o-amor-e-a-cegueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2010\/06\/21\/ensaio-sobre-o-amor-e-a-cegueira\/","title":{"rendered":"Ensaio sobre o amor e a cegueira"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/TB_Nrj-bArI\/AAAAAAAABTw\/lbCGPho2RiY\/s1600\/ensaio+sobre+a+cegueira.jpg\"><img style=\"display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/TB_Nrj-bArI\/AAAAAAAABTw\/lbCGPho2RiY\/s320\/ensaio+sobre+a+cegueira.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5485329019435680434\" \/><\/a><br \/>No ar pesado do duplo vel\u00f3rio, naquele momento de separa\u00e7\u00e3o e de adeus aos corpos j\u00e1 sem vida, podiam-se ouvir os murm\u00farios de tristeza, ver  as l\u00e1grimas brotando nos  olhos vermelhos de tanto chorar; os abra\u00e7os n\u00e3o eram abra\u00e7os de alegria, mas de conforto e solidariedade; a dor abra\u00e7ando a dor; e, unidos e ao mesmo tempo distantes, aqueles dois corpos mergulhados na imensid\u00e3o do desconhecido; uma nova vida para os que cr\u00eaem e o nada para os que acham que a morte \u00e9 o fim. Havia, naquela eletricidade que permeia os momentos de extrema dor, o choque da indigna\u00e7\u00e3o. Por que, todos  se perguntavam?  entretanto  sem nada dizerem, porque j\u00e1 o diziam os centenas de porqu\u00eas que se cruzavam em busca de uma resposta que n\u00e3o vinha, e se o viesse de nada adiantaria, respostas n\u00e3o tem o dom da ressurrei\u00e7\u00e3o. Palavras, palavras, quais teriam sido as derradeiras palavras daqueles que j\u00e1 n\u00e3o podiam falar, nem se mover, mortos que estavam? Eu ainda te amo, n\u00e3o posso viver sem voc\u00ea, ele teria dito repetidas vezes; Mas eu n\u00e3o te amo mais, j\u00e1 tenho outra pessoa, deixe-me viver a minha vida, v\u00e1 viver e sua e vivamos em paz, teria respondido ela; o amor, sempre o amor, primeiro como doce brisa que acaricia o cora\u00e7\u00e3o, depois como faca que perpassa o peito. Eu quero viver a minha vida, seremos bons amigos, temos um filho para cuidar, ela provavelmente disse; Minha vida sem voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 vida, n\u00e3o consigo imagin\u00e1-la com outro que n\u00e3o seja eu, vamos criar o nosso filho juntos; ele possivelmente retrucou; essa paix\u00e3o que cega os olhos e que come\u00e7a a matar a raz\u00e3o. Diga sim, clama ele, N\u00e3o, sentencia ela; o n\u00e3o e o sim se trombam no ar  de uma dor que s\u00f3 faz aumentar \u00e0 medida em que a tarde cai e \u00e9 preciso dar o \u00faltimo antes que aqueles dois corpos sem vida sejam levados \u00e0 morada da morte, cimentados na solid\u00e3o do descanso eterno; mas ainda se buscam as derradeiras das derradeiras palavras, em meio ao nada de um ponto ermo da periferia da cidade que se enluta com a trag\u00e9dia; Fica comigo ou n\u00e3o ficar\u00e1 com ningu\u00e9m, o tom dele agora era de amea\u00e7a; N\u00e3o fa\u00e7a isso, pense no nosso filho, voc\u00ea vai encontrar algu\u00e9m que te far\u00e1 feliz, o tom dela agora era quase uma s\u00faplica diante do que intu\u00eda que iria acontecer e aconteceu. A dor do primeiro disparo e depois a escurid\u00e3o; sem tempo de ouvir e sentir o segundo disparo, menos ainda de v\u00ea-lo se auto-imolar;  enterrados os corpos, o  sol come\u00e7a a se por na tarde sombria; na prociss\u00e3o que  se dispersa, cada qual de volta \u00e0 sua vida e \u00e0 sua dor pessoal,  \u00e9 poss\u00edvel ouvir algu\u00e9m pensar Mas que final tr\u00e1gico para uma hist\u00f3ria de amor;  no quarto de um hospital pr\u00f3ximo ao cemit\u00e9rio, uma mulher abatida pelo c\u00e2ncer, em estado terminal no frescor de seus 45 anos, parece responder ao pensamento an\u00f4nimo, Morte e amor n\u00e3o rimam nem fazem sentido; ela que \u00e0s portas da morte ainda se emociona com hist\u00f3rias de vida e de amor.<\/p>\n<p><em>(Esse texto, inspirado pela genialidade de  Jos\u00e9 Saramago, \u00e9 dedicado a todos aqueles que acreditam no amor como fonte da vida e n\u00e3o da morte)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ar pesado do duplo vel\u00f3rio, naquele momento de separa\u00e7\u00e3o e de adeus aos corpos j\u00e1 sem vida, podiam-se ouvir os murm\u00farios de tristeza, ver as l\u00e1grimas brotando nos olhos vermelhos de tanto chorar; os abra\u00e7os n\u00e3o eram abra\u00e7os de alegria, mas de conforto e solidariedade; a dor abra\u00e7ando a dor; e, unidos e ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/730"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=730"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/730\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}