{"id":71664,"date":"2022-01-15T08:02:21","date_gmt":"2022-01-15T11:02:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=71664"},"modified":"2022-01-14T10:14:28","modified_gmt":"2022-01-14T13:14:28","slug":"manoel-leal-noticias-de-jornal-e-outras-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2022\/01\/15\/manoel-leal-noticias-de-jornal-e-outras-historias\/","title":{"rendered":"Manoel Leal, not\u00edcias de jornal e outras hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15859\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/manoelleal.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15859\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-15859\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/manoelleal-300x193.jpg\" alt=\"a falta que o velho capo faz\" width=\"300\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/manoelleal-300x193.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/manoelleal.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15859\" class=\"wp-caption-text\">a falta que o velho capo faz<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Daniel Thame<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-71665\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/daniel-flica-293x300.jpg\" alt=\"daniel flica\" width=\"165\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/daniel-flica-293x300.jpg 293w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/daniel-flica.jpg 468w\" sizes=\"(max-width: 165px) 100vw, 165px\" \/>H\u00e1\u00a0 \u00a024 anos, no in\u00edcio da noite de 14 de janeiro de 1998, seis tiros calaram Manoel Leal.<\/p>\n<p>Ainda que assassinos e mandantes continuem protegidos pela impunidade, n\u00e3o se vai aqui repetir o que se escreveu ao longo dos anos, at\u00e9 por ser desnecess\u00e1rio, tanto o que j\u00e1 se falou sobre o crime.<\/p>\n<p>O que vai se fazer aqui \u00e9 uma homenagem.<\/p>\n<p>Manoel Leal de Oliveira. O maior jornalista que j\u00e1 surgiu nesse ch\u00e3o grapiuna.<\/p>\n<p>Manoel Leal de Oliveira, o cordeiro que \u00e0s vezes brincava de ser lobo.<\/p>\n<p>Manoel Leal, o que assumia os defeitos e n\u00e3o espalhava as virtudes que tinha.<\/p>\n<p>Manoel Leal.<\/p>\n<p>Nunca, em tempo algum, uma aus\u00eancia se fez t\u00e3o presente.<\/p>\n<p>Desconhe\u00e7o, ao longo dos anos, uma conversa de bar que n\u00e3o tivesse convergido para seu nome. Que n\u00e3o remetesse a alguma hist\u00f3ria protagonizada ou inventada por ele.<\/p>\n<p>Manoel Leal das malhas impag\u00e1veis, como a do soco que Carlito do Sarinha deu em Hamilton Gomes, quando na verdade Hamilton foi quem bateu em Carlito. \u201cNo meu jornal, amigo meu n\u00e3o apanha, s\u00f3 bate\u201d.<\/p>\n<p>Dos trocadilhos impag\u00e1veis com o amigo Hermenegildo, a quem dizia ser muito \u00e1gil, numa refer\u00eancia nada sutil \u00e0 palavra \u00e1gio. Amigos, tanto que nas horas de aperto, l\u00e1 estava Leal batendo \u00e0s portas do \u00e1gil Hermenegildo. E sem pagar \u00e1gio.<\/p>\n<p>Da piada infame que contava centenas de vezes, e s\u00f3 ele achando gra\u00e7a, na presen\u00e7a de Roberto Abijaude:<br \/>\n-Voc\u00eas \u00e1rabes s\u00e3o muito unidos&#8230;<\/p>\n<p>E completava:<br \/>\n-Tamb\u00e9m, vieram para o Brasil amarrados no por\u00e3o do mesmo navio.<\/p>\n<p>Da maldade com uma amiga paulista que fez comer o bago de jaca, at\u00e9 ent\u00e3o uma fruta desconhecida para a mulher.<\/p>\n<p>Do fog\u00e3o novo enviado \u201cpor engano\u201d para a casa do amigo Fl\u00e1vio Monteiro Lopes, apenas para que a esposa pensasse que ele tinha outra.<\/p>\n<p>Das flores enviadas semanalmente para Nilson Franco, em nome de uma mulher misteriosa.<\/p>\n<p>O Manoel Leal que pegava a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica e ficava na porta da Cesta do Povo fotografando as dondocas que escondiam o rosto com suas bolsas de grife. Isso num tempo (e bota tempo nisso!) em que Cesta do Povo era coisa de pobre.<\/p>\n<p>De uma generosidade que n\u00e3o cabia no cora\u00e7\u00e3o cambaleante.<\/p>\n<p>E. vamos ao que interessa, de um talento para fazer jornal, do qual n\u00e3o apenas fui infinitas vezes testemunha como tamb\u00e9m co-autor, que \u00e9 poss\u00edvel dizer sem correr o risco de cair no rid\u00edculo que nunca haver\u00e1 algu\u00e9m como Manoel Leal.<br \/>\nEsse faro para a not\u00edcia aliado a um destemor apavorante fez de A Regi\u00e3o um jornal que n\u00e3o era apenas um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Regi\u00e3o era aguardado nas bancas. Algumas de suas edi\u00e7\u00f5es se esgotavam logo no domingo, menos de 24 horas ap\u00f3s o jornal come\u00e7ar a circular.<\/p>\n<p>E n\u00e3o eram apenas as Malhas Finas e Malhas Grossas, capazes de arrasar reputa\u00e7\u00f5es ou garantir goza\u00e7\u00f5es ao longo de uma semana.<\/p>\n<p>A not\u00edcia, muitas vezes exclusiva, muitas e muitas vezes corajosa, algumas vezes beirando a irresponsabilidade, era o combust\u00edvel que alimentava o jornalista Manoel Leal.<\/p>\n<p>Tr\u00e1fico de Crian\u00e7as, Importa\u00e7\u00e3o de Cacau, Esquema dos \u201cCabritos\u201d envolvendo autoridades, Fraude no Vestibular da Uesc, Libera\u00e7\u00e3o dos recursos do cacau para o\u00a0 ent\u00e3o governador Paulo Souto sem as garantias necess\u00e1rias. E mais uma infinidade de not\u00edcias que A Regi\u00e3o deu porque s\u00f3 Leal sabia ou porque s\u00f3 Leal tinha coragem de publicar.<\/p>\n<p>Manoel Leal era um garimpeiro de not\u00edcias. Isso \u00e9 raro.<\/p>\n<p>Numa noite de 1996, v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o municipal. A Justi\u00e7a determina a apreens\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o do jornal.<br \/>\nOrdem cumprida com um batalh\u00e3o de PMs armados at\u00e9 os dentes na porta da gr\u00e1fica. Leal calmo.<\/p>\n<p>Quando a pol\u00edcia sai, pergunto:<\/p>\n<p>-Voc\u00ea entregou o jornal assim, sem mais nem menos?<\/p>\n<p>A resposta, seca, ir\u00f4nica.<\/p>\n<p>-Menino, voc\u00ea n\u00e3o notou nada? Eles levaram mil jornais. O resto est\u00e1 a\u00ed no fundo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft  wp-image-71666\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/A-Regi\u00e3o-274x300.png\" alt=\"A Regi\u00e3o\" width=\"194\" height=\"212\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/A-Regi\u00e3o-274x300.png 274w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/A-Regi\u00e3o.png 280w\" sizes=\"(max-width: 194px) 100vw, 194px\" \/>Na madrugada, milhares de exemplares da edi\u00e7\u00e3o apreendida eram espalhados pela cidade.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio da denuncia de fraude no Vestibular da Uesc, talvez o maior furo da hist\u00f3ria do jornal e de toda a imprensa itabunense, a edi\u00e7\u00e3o sendo impressa na gr\u00e1fica, Manoel Leal liga aflito para minha casa:<br \/>\n-E se esse neg\u00f3cio n\u00e3o for verdade?<\/p>\n<p>Duas horas da madrugada, morto de sono, igualmente aflito com a possibilidade de uma barrigada monumental, s\u00f3 consigo responder:<\/p>\n<p>-N\u00f3s dois estamos fodidos.<\/p>\n<p>No dia em que um navio trazendo cacau atracou no porto de Ilh\u00e9us, Leal esqueceu-se que era jornalista (porque tamb\u00e9m era produtor) e postou-se feito um Dom Quixote diante da embarca\u00e7\u00e3o, tentando impedir o desembarque.<\/p>\n<p>Simb\u00f3lico, embora hoje soe apenas engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>O tempo tem dessas coisas.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se cobrar, at\u00e9 a puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis, que o assassinato de Manoel Leal seja esclarecido. Porque esse \u00e9 um crime que, decorridos cinco, dez, cinquenta, cem ou quinhentos anos, vai permanecer como uma mancha na hist\u00f3ria da cidade<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m que se resgatar hist\u00f3rias de algu\u00e9m que, parafraseando Nietszche, era \u201chumano demasiadamente humano\u201d.<\/p>\n<p>Nas virtudes, nos defeitos. Na vida e na morte.<\/p>\n<p>Mesmo para quem, entendam como quiserem, n\u00e3o morreu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Thame H\u00e1\u00a0 \u00a024 anos, no in\u00edcio da noite de 14 de janeiro de 1998, seis tiros calaram Manoel Leal. Ainda que assassinos e mandantes continuem protegidos pela impunidade, n\u00e3o se vai aqui repetir o que se escreveu ao longo dos anos, at\u00e9 por ser desnecess\u00e1rio, tanto o que j\u00e1 se falou sobre o crime. 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