{"id":69057,"date":"2017-11-11T07:56:47","date_gmt":"2017-11-11T10:56:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=69057"},"modified":"2017-11-10T17:23:39","modified_gmt":"2017-11-10T20:23:39","slug":"cronicas-de-um-golpe-na-ufsb-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2017\/11\/11\/cronicas-de-um-golpe-na-ufsb-3\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas de um Golpe na UFSB (3)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Naomar Almeida Filho<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-69058\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/naomar-300x285.jpg\" alt=\"naomar\" width=\"243\" height=\"231\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/naomar-300x285.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/naomar.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 243px) 100vw, 243px\" \/>Amo as palavras. Respeito a palavra. A palavra compromisso, por exemplo. Uma promessa que se faz, com outros, para outros, a si mesmo. Prometemos algo com algu\u00e9m para algu\u00e9m: nos comprometemos, pode ser com um grupo para uma coletividade. A com-promessa implica confian\u00e7a e uma palavra de honra. Desonrada fica a pessoa que n\u00e3o cumpre seu compromisso, n\u00e3o honra sua promessa. Isso vale para a vida pessoal e social, tanto quanto deveria valer para a pol\u00edtica, principalmente a pequena pol\u00edtica de cada dia.<\/p>\n<p>A Carta de Funda\u00e7\u00e3o da UFSB foi escrita numa pequena pousada na estrada de Itacar\u00e9, ao norte de Ilh\u00e9us, entre 17 e 20 de setembro de 2013, por dezessete professores da UFBA, por mim convidados para compartilhar a constru\u00e7\u00e3o da UFSB, nossa protopia de uma universidade socialmente referenciada. Foram quatro dias de foco quase total, imers\u00e3o rica e produtiva, ap\u00f3s um m\u00eas de reuni\u00f5es preparat\u00f3rias realizadas no escrit\u00f3rio de Salvador. Andando cedo na praia de areia escura, no caf\u00e9 da manh\u00e3, nos animados grupos de discuss\u00e3o, \u00e0 noite no jantar, revendo as anota\u00e7\u00f5es do dia. Debates acalorados e entusiasmados, palavra a palavra.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos consci\u00eancia da import\u00e2ncia de nossa tarefa de construir conceitos fundantes. Esgot\u00e1vamos todos os argumentos, nos ouv\u00edamos com paci\u00eancia e respeito num processo tranquilo. Em nenhum momento foi necess\u00e1rio votar. Lembro-me especialmente da discuss\u00e3o para inclus\u00e3o da palavra alegria, proposta por Denise Coutinho, que para alguns parecia pouco acad\u00eamica; foram convencidos pela press\u00e3o carinhosa principalmente das mulheres, lideradas por F\u00e1tima Tavares. Os relatores trabalhavam com entusiasmo e dedica\u00e7\u00e3o: recordo e destaco Robson Magalh\u00e3es, volunt\u00e1rio que n\u00e3o tinha cargo de gest\u00e3o, atento, registrando todos os detalhes. Muita energia positiva, em suma. Poucas vezes em minha vida estive num ambiente t\u00e3o fraterno, t\u00e3o produtivo intelectualmente.<\/p>\n<p>O primeiro Conselho Universit\u00e1rio da UFSB reuniu-se na sede provis\u00f3ria da reitoria, no Campus Jorge Amado, no final do dia 20 de setembro de 2013, uma sexta-feira que come\u00e7ou ensolarada. Na ampla convoca\u00e7\u00e3o, propus uma pauta de puro simbolismo: instala\u00e7\u00e3o do Conselho Universit\u00e1rio Matriz para aprecia\u00e7\u00e3o da Carta de Funda\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Sul da Bahia. Fomos direto da pousada, ap\u00f3s os derradeiros retoques no texto e a checagem dos \u00faltimos detalhes do evento. Ao chegar, notamos centenas de carros estacionados dentro e fora do p\u00e1tio, no acostamento da rodovia. O \u00e1trio estava lotado. As fotos do evento mostram uma multid\u00e3o transbordando porta afora. Lideran\u00e7as pol\u00edticas, autoridades, militantes de movimentos sociais, muita gente do povo (como se diz no interior da Bahia).<\/p>\n<p>O Governador Jaques Wagner presidiu a sess\u00e3o, numa mesa solene composta por ele, pelo ent\u00e3o Prefeito de Itabuna, Claudevane Leite, pela Senadora L\u00eddice da Mata, pela Reitora Dora Leal Rosa (a UFBA era nossa institui\u00e7\u00e3o-tutora) e por mim. Os parlamentares eram tantos, de todos os n\u00edveis de representa\u00e7\u00e3o legislativa, que estendemos simbolicamente a mesa solene, incluindo ainda prefeitos de praticamente toda a regi\u00e3o grapi\u00fana e reitores\/as de todas as universidades baianas. O Governador me passou a \u201ccondu\u00e7\u00e3o dos trabalhos\u201d (acho bem engra\u00e7ada esta express\u00e3o), fiz uma chamada nominal dos membros do Conselho Universit\u00e1rio Matriz e formalmente dei posse a cada um, listados nos documentos posteriormente publicados.<\/p>\n<p>Coube a Sebasti\u00e3o Loureiro, militante da Reforma Sanit\u00e1ria Brasileira, ex-Presidente da Abrasco, a leitura da Carta. Professor em\u00e9rito do Instituto de Sa\u00fade Coletiva da UFBA, meu mentor e companheiro de muitas lutas, fora convidado a colaborar com nosso projeto assumindo o primeiro decanato do Centro de Forma\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade. Visivelmente emocionado, com a voz embargada, mas segura e firme, Sebasti\u00e3o leu bem devagar o nosso curto documento-compromisso, palavra a palavra. Ainda mais elegante do que era sempre, o decano dos nossos decanos finalizou sua leitura. Nesse momento, o sil\u00eancio era profundo e denso; mesmo os cabos eleitorais, apoiadores das comitivas e curiosos que costumam ficar de p\u00e9 no fundo dos eventos para tagarelar, calaram-se. Aplausos explodiram, por v\u00e1rios minutos, todos de p\u00e9. Fiquei arrepiado. Sa\u00ed de onde estava, na ponta da mesa, e fui dar um abra\u00e7o no meu professor Sebasti\u00e3o. O Governador Wagner veio junto e fez o mesmo. Recompusemos a mesa e submetemos uma mo\u00e7\u00e3o de aprova\u00e7\u00e3o do documento por aclama\u00e7\u00e3o. A ata foi lida, assinada por todos os membros do Conselho, a sess\u00e3o foi encerrada, as autoridades e suas comitivas se despediram, o Governador embarcou no helic\u00f3ptero que aterrissara no campo ao lado da sede da Reitoria e n\u00f3s, meio at\u00f4nitos, no buffet que o cerimonial da governadoria havia instalado no pavilh\u00e3o ainda vazio, ficamos conversando, sorrindo, alegres, empolgados, cheios de confian\u00e7a, celebrando nosso primeiro e mais profundo compromisso.<\/p>\n<p>A Carta de Funda\u00e7\u00e3o representa um compromisso de m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Primeiro, uma com-promessa pessoal m\u00fatua, de cada membro para a equipe fraterna, geradora deste projeto de Universidade. Segundo compromisso: uma com-promessa institucional, daquele coletivo inicial para o Conselho Superior matriz desta Universidade. E um terceiro compromisso: o de uma institui\u00e7\u00e3o social promissora que nascia, com-prometida \u00e0 sociedade do territ\u00f3rio que a aconchegava. Por \u00faltimo, um compromisso hist\u00f3rico: com a transforma\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior brasileira, reafirmando a ideia-pot\u00eancia de uma universidade anisiana, de fato popular, mas sem perder a compet\u00eancia jamais.<\/p>\n<p>Abordarei em mais detalhe a quest\u00e3o do compromisso social quando contar a hist\u00f3ria dos bloqueios ao Conselho Estrat\u00e9gico Social, dos boicotes ao F\u00f3rum Social e da sabotagem ao Congresso Geral da UFSB. O tema do compromisso hist\u00f3rico atravessar\u00e1 v\u00e1rias cr\u00f4nicas, algumas duramente cr\u00edticas, outras docemente esperan\u00e7osas, quando escrever sobre Di\u00e1logo, Recupera\u00e7\u00e3o, Luta e Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Adoro palavras. Acho at\u00e9 que inventei uma: mais que utopia, protopia (vejam no google). Al\u00e9m desse gosto, respeito muito a palavra. Respeito quem honra a palavra. Compromisso, \u00e9 isso a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naomar Almeida Filho \u00a0Amo as palavras. Respeito a palavra. A palavra compromisso, por exemplo. Uma promessa que se faz, com outros, para outros, a si mesmo. Prometemos algo com algu\u00e9m para algu\u00e9m: nos comprometemos, pode ser com um grupo para uma coletividade. A com-promessa implica confian\u00e7a e uma palavra de honra. 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