{"id":69,"date":"2008-09-05T17:37:00","date_gmt":"2008-09-05T20:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2008\/09\/05\/waldomiro-de-deus\/"},"modified":"2008-09-05T17:37:00","modified_gmt":"2008-09-05T20:37:00","slug":"waldomiro-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2008\/09\/05\/waldomiro-de-deus\/","title":{"rendered":"Waldomiro de Deus"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SMGZjMpH2nI\/AAAAAAAAAFI\/6pED_6kQ3ok\/s1600-h\/waldomirofotocora%C3%A7%C3%A3o.jpg\"><img style=\"display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SMGZjMpH2nI\/AAAAAAAAAFI\/6pED_6kQ3ok\/s320\/waldomirofotocora%C3%A7%C3%A3o.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5242640271204145778\" \/><\/a><br \/>DE ITAGIB\u00c1 PARA O MUNDO<br \/>DO MUNDO PARA ITAGIB\u00c1<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de 50 anos,  um menino saiu no interior do Nordeste, subiu num pau de arara com a fam\u00edlia e foi buscar uma vida melhor em S\u00e3o Paulo. Passou fome e frio, lutou muito, venceu e hoje \u00e9 conhecido mundialmente.<br \/>Apesar das incr\u00edveis semelhan\u00e7as, n\u00e3o \u00e9 quem o leitor certamente est\u00e1 pensando.<br \/>O menino em quest\u00e3o \u00e9 Waldomiro de Deus, nascido em Itagib\u00e1, cidadezinha acolhedora encravada nas bordas da regi\u00e3o cacaueira da Bahia, num tempo em que o cacau gerava riqueza, mas n\u00e3o a dividia, como acontece hoje e acontecer\u00e1 para todo o sempre. Sua fam\u00edlia perambulou por Ipia\u00fa, Gandu e Prado, no sul-baiano,  at\u00e9 decidir embarcar para  S\u00e3o Paulo.<br \/>Considerado pela cr\u00edtica um dos tr\u00eas maiores pintores primitivistas do Brasil ao lado de Djanira e Jos\u00e9 Antonio da Silva, ele acaba de fazer uma exposi\u00e7\u00e3o com 54 obras no rec\u00e9m-inaugurado Museu Brasileiro de Escultura (Mube) em S\u00e3o Paulo. A exposi\u00e7\u00e3o, calorosamente saudada pela cr\u00edtica, comemora os 60 anos de vida e os 44 anos da arte de Waldomiro.<br \/>Uma arte descoberta de maneira quase inveross\u00edmel (tudo em Waldomiro parece inveross\u00edmel, a come\u00e7ar pela sua aut\u00eantica ingenuidade). Trabalhando como jardineiro, aproveitava as frias noites paulistanas para pintar em peda\u00e7os de papel. Como pintava na hora em que deveria estar dormindo e dormia na hora em que deveria estar trabalhando, foi mandado embora.<br \/>Sem alternativa, resolveu expor seus trabalhos no Viaduto do Ch\u00e1, um dos s\u00edmbolos da Capital Paulista, j\u00e1 naquela \u00e9poca o Eldorado de milh\u00f5es de nordestinos. A m\u00e3o do destino pintou a tela de sua vida.<br \/>O marqu\u00eas italiano Terry Della Stuffa passou pelo local, se apaixonou por aquela pintura ing\u00eanua e adotou Waldomiro, que ganhou casa, comida e, melhor, tempo de sobra e material a vontade para exercer sua arte.<br \/>A partir da\u00ed, as m\u00e3os de Deus, o pintor, ganharam o mundo. Suas obras est\u00e3o expostas em museus e galerias de arte e foram adquiridas por colecionadores da Europa, Estados Unidos, Jap\u00e3o, Oriente M\u00e9dio. Os franceses, principalmente, se encantaram com o estilo que denominaram \u201cnaif\u201d (ing\u00eanuo).<br \/>Um ing\u00eanuo, que ao participar do movimento tropicalista ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Z\u00e9, Gal Costa e Cia., escandalizou o Brasil conservador do final dos turbulentos anos 60 ao pintar Nossa Senhora Aparecida de minissaia, numa s\u00e9rie de quadros que hoje se tornaram rel\u00edquias.<br \/>Um ex\u00edlio  art\u00edstico fez de Waldomiro cidad\u00e3o do mundo. Morou na Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Alemanha e Israel, onde espalhou seus quadros e cravou seu nome como um dos grandes artistas brasileiros, adorado pelos cr\u00edticos e pela nobreza europ\u00e9ia.<br \/>De volta ao Brasil, fixou resid\u00eancia em Osasco, cidade industrial da Grande S\u00e3o Paulo.  Sua casa,  repleta de quadros e esculturas e com um quarto cheio de bonecas e com um caix\u00e3o de defunto no lugar da cama, tornou-se ponto de refer\u00eancia para artistas, colecionadores, empres\u00e1rios, jornalistas, socialites e afins.<br \/>Naquela \u00e9poca, apesar de algumas obras contestadoras, Waldomiro ainda fazia o estilo l\u00edrico, mostrando o cotidiano das cidades e do meio rural. De uns dez anos para c\u00e1, j\u00e1 dividindo sua resid\u00eancia entre Osasco e Goi\u00e2nia, passou para aquilo que pode ser definido como primitivismo tem\u00e1tico. Os sem-terra,  o desemprego, o atentado de 11 de setembro nos EUA, a guerra do Iraque s\u00e3o retratados em cores fortes, tra\u00e7os definidos.<br \/> Pinturas que falam. \u201cWaldomiro tem uma sensibilidade muito grande,  v\u00ea o mundo com alma de menino e sua obra \u00e9 sempre atual. Ele est\u00e1 cada vez melhor\u201d, diz a marchand carioca Ruth Almeida Prado, uma de suas maiores admiradoras. \u201c\u00c9 um artista em v\u00e1rios, um camale\u00e3o, que est\u00e1 sempre mudando, sem perder a ess\u00eancia primitivista\u201d, completa o cr\u00edtico Oscar D\u00b4Ambr\u00f3sio, autor do livro \u201cOs pinc\u00e9is de Deus- Vida e obra do pintor naif  Waldomiro de Deus\u201d.<br \/>E \u00e9 esse respeit\u00e1vel senhor com alma de menino que  reencontramos durante as festas de S\u00e3o Jo\u00e3o em 2004, na Itagib\u00e1 de uma inf\u00e2ncia que ele parece nunca ter perdido. Convidado pelo ent\u00e3o prefeito L\u00e9o Quadros, passou cinco dias na cidade, acompanhado das esposa Lourdes de Deus (tamb\u00e9m pintora primitivista), m\u00e3e de seus seis filhos, que levam nomes ex\u00f3ticos com Amon Hebron, Edon Hesrom, Esdras Shalon, Rebeca&#8230;<br \/>D\u00e9cadas depois de ter partido num pau de arara, voltou como uma esp\u00e9cie de \u201ccelebridade an\u00f4nima\u201d. Os moradores sabiam que aquele sujeito simp\u00e1tico, conversador,  que saia distribuindo cart\u00f5es para compradores absolutamente improv\u00e1veis  (suas obras variam entre R$ 6 mil e R$ 50 mil) \u00b4era algu\u00e9m`. Mas n\u00e3o sabiam exatamente quem. No Brasil onde santo de casa n\u00e3o faz milagres, a Bahia \u00e9 o lugar onde nem Deus de casa faz. Apesar da fama internacional, o pintor simplesmente \u00e9 ignorado pelos museus e galerias do Estado.<br \/>Visitou a casa onde nasceu, compareceu todas as  noites \u00e0 Pra\u00e7a do Forr\u00f3 (Itagib\u00e1 \u00e9 famosa pelo S\u00e3o Jo\u00e3o que promove), dan\u00e7ou meio sem jeito com Lourdes, se empanturrou com pamonha, canjica, bolo de tapioca, vatap\u00e1 e sarapatel e, evang\u00e9lico, passou longe dos licores de genipapo, jabuticaba, abacaxi,  cacau e laranja, uma tenta\u00e7\u00e3o maior do que a outra.<br \/>\u201cFoi um mergulho na minha inf\u00e2ncia, nas minhas ra\u00edzes. Minha obra \u00e9 fruto das coisas simples que eu vi aqui, dessa gente que apesar da vida dif\u00edcil est\u00e1 sempre com um sorriso aberto\u201d. E d\u00e1-lhe distribui\u00e7\u00e3o de cart\u00f5es, aperto de m\u00e3o (era sempre Waldomiro quem tomava a iniciativa e n\u00e3o o contr\u00e1rio, tudo nele parece il\u00f3gico), fotografias&#8230;<br \/>Numa visita \u00e0 zona rural, vira-se para L\u00e9o Quadros, cuja admira\u00e7\u00e3o pelo pintor s\u00f3 \u00e9 inferior a seu sincero fervor evang\u00e9lico, e pergunta:<br \/>-Seu minino, quanto \u00e9 que a gente gasta pra comprar umas terrinhas aqui?<br \/>Lourdes apenas balbucia \u201cWaldomiro, n\u00e3o v\u00e1 me dizer que&#8230;\u201d<br \/>O que espanta n\u00e3o \u00e9 terminar essa hist\u00f3ria acalentando a possibilidade de que o menino retirante das terras do cacau se transforme no sessent\u00e3o fazendeiro, uma saga que nem o grande Jorge Amado (f\u00e3 de Waldomiro de Deus, registre-se) ousaria escrever, cravando uma tela surrealista no mais ing\u00eanuo dos nossos primitivistas.<br \/>O que espanta \u00e9 que na vida e na obra de Waldomiro nada  espanta.<br \/>O menino Waldomiro perambulando  pelas ruas tranq\u00fcilas de Itagib\u00e1 depois de escrever sua hist\u00f3ria com as m\u00e3os do destino, as m\u00e3os de Deus e as pr\u00f3prias m\u00e3os, \u00e9 uma bel\u00edssima obra de arte.<br \/>Espantosamente ing\u00eanua, espantosamente genial.<\/p>\n<p>___________________________<\/p>\n<p>Texto publicado em junho de 2004 nos jornais Agora (BA) e Di\u00e1rio de Osasco (SP)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DE ITAGIB\u00c1 PARA O MUNDODO MUNDO PARA ITAGIB\u00c1 H\u00e1 cerca de 50 anos, um menino saiu no interior do Nordeste, subiu num pau de arara com a fam\u00edlia e foi buscar uma vida melhor em S\u00e3o Paulo. 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