{"id":66062,"date":"2018-07-14T06:00:08","date_gmt":"2018-07-14T09:00:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=66062"},"modified":"2018-07-13T17:06:44","modified_gmt":"2018-07-13T20:06:44","slug":"kaua-e-iacina-uma-encantada-historia-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2018\/07\/14\/kaua-e-iacina-uma-encantada-historia-de-amor\/","title":{"rendered":"Kau\u00e3 e Iacina, uma encantada hist\u00f3ria de amor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Gerson Marques<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-66063\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/gerson-marques-225x300.jpg\" alt=\"gerson marques\" width=\"170\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/gerson-marques-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/gerson-marques.jpg 694w\" sizes=\"(max-width: 170px) 100vw, 170px\" \/>Quando o portugu\u00eas Pero \u00a0Magalh\u00e3es G\u00e2ndavo chegou a Lagoa de Ita\u00edpe em fevereiro de 1570, ficou completamente extasiado com a beleza do lugar, chamou de \u201cmar de dentro\u201d tamanha eram as \u00e1guas da lagoa, sua\u00a0 extens\u00e3o e beleza.<\/p>\n<p>G\u00e2ndavo estava com Felisberto Lisboa, seu imediato auxiliar, oficial do ex\u00e9rcito portugu\u00eas encarregado de lhe acompanhar, a viagem de G\u00e2ndavo era uma miss\u00e3o de prospec\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o da Coroa de Sebasti\u00e3o I, o objetivo era registrar e relatar a vossa alteza, tudo sobre as terras de Santa Cruz, a mais nova e mais desconhecida descoberta lusitana, o Novo Mundo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A Vila de S\u00e3o Jorge dos Ilh\u00e9us j\u00e1 era habitada por duas d\u00fazias de portugueses, uns oito padres e cinquenta e dois \u00edndios catequizados, foram eles que levaram Gand\u00e2vo e Felisberto at\u00e9 a Lagoa que os portugueses j\u00e1 chamavam de Encantada.<\/p>\n<p>A viagem foi em parte a p\u00e9 e depois em canoa, a lagoa era terra dos \u00edndios Tupinamb\u00e1s de comportamento imprevis\u00edvel, no entanto, amigos dos padres jesu\u00edtas, que j\u00e1 andavam por aquelas paragens catequizando os ribeirinhos. Situada ao norte de Ilh\u00e9us umas tr\u00eas l\u00e9guas, existiam na lagoa duas pequenas aldeias, uma com oito ocas e uns cem \u00edndios, contando as crian\u00e7as, que se chamava \u00a0Patiti, e outra um pouco menor, chamada de Aldeia Pequena, viviam todos da pesca e ca\u00e7a, al\u00e9m dos ro\u00e7ados. Junto aos \u00edndios vivia tamb\u00e9m uma fam\u00edlia mesti\u00e7a, formada por um franc\u00eas j\u00e1 idoso, que fora deportado e abandonado na costa por um navio cors\u00e1rio, trinta anos antes da chegada de G\u00e2ndavo, casado com uma \u00edndia da na\u00e7\u00e3o Botocudo, tinham oito filhos entre eles um cego de nascen\u00e7a de nome \u00c7aaci, moravam em uma choupana fora do n\u00facleo da aldeia, tamb\u00e9m na margem da Lagoa, eram no entanto, integrados ao cotidiano dos demais \u00edndios da Aldeia Patiti.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria que vou contar n\u00e3o est\u00e1 no livro \u201cTratado da Terra do Brasil, Hist\u00f3ria da Prov\u00edncia de Santa Cruz\u201d que Pero G\u00e2ndavo publicou depois que voltou a Portugal, trata-se do casamento da filha do Cacique da Aldeia Patiti com o filho do Cacique da Aldeia Pequena, me foi contada ao p\u00e9 de ouvido por gente antiga que morou e morreu na Lagoa, que por sua vez ouviu de outros ainda mais antigos, uma hist\u00f3ria oral que ser\u00e1 escrita pela primeira vez.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-66066\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/lagoa-encantada-2-300x158.jpg\" alt=\"lagoa encantada (2)\" width=\"300\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/lagoa-encantada-2-300x158.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/lagoa-encantada-2.jpg 320w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Desde crian\u00e7a o \u00edndio \u00a0\u00c7aaci, j\u00e1 apresentava um comportamento diferente, \u00a0apesar de cego enxergava mais que qualquer um da aldeia, tinha a capacidade de saber onde estavam as pessoas e os bichos mesmo muito distante ou na escurid\u00e3o da noite, dizia onde estavam os peixes no fundo da lagoa, conversava com as \u00e1rvores de quem, dizia ele, recebia informa\u00e7\u00f5es sobre o tempo e a sa\u00fade das pessoas, tamb\u00e9m falava com animais, que em sua presen\u00e7a tinha um comportamento d\u00f3cil e manso, chamava qualquer ave do c\u00e9u at\u00e9 sua m\u00e3o, fui iniciado por um velho paj\u00e9 ainda muito novo no complexo mundo espiritual dos Tupinamb\u00e1s, apesar de jovem era um curador reconhecido e procurado at\u00e9 pelos brancos, teria espantado os padres jesu\u00edtas ao curar um deles, em estado leproso que vivia isolado dos demais h\u00e1 muitos anos, usando somente \u00e1gua.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Alguns dias depois da chegada de G\u00e2ndavo, uma grande festa de casamento estava marcada, a filha do Cacique Kaluan\u00e3 da aldeia onde estava o portugu\u00eas, Iacina, casaria em dois dias com o filho do Cacique Aruan\u00e3 da Aldeia Pequena, um jovem guerreiro de nome Cau\u00e3.<\/p>\n<p>Era tradi\u00e7\u00e3o fazer o casamento na aldeia da noiva, uma comitiva com os irm\u00e3os da Iacina, buscaria Cau\u00e3 em sua aldeia, G\u00e2ndavo pediu para ir junto a eles na travessia de busca do noivo, no dia seguinte partiram logo cedo, a viagem durava meio dia de navega\u00e7\u00e3o a remo para ir e mais meio dia para voltar.<\/p>\n<p>Foram recebidos com festa na Aldeia Pequena, comeram peixe e farinha de mandioca e tardaram mais que deveriam para fazer a jornada de volta, no fim da tarde juntaram cinco canoas com o noivo Cau\u00e3 e seus parentes iniciando a travessia, \u00a0chegando o in\u00edcio da noite ainda estavam em alto lago quando foram surpreendidos pela mudan\u00e7a do vento, logo as ilhas flutuantes, fen\u00f4meno \u00fanico nessa lagoa, por isso mesma batizada pelos portugueses de Encantada, fechou o caminho das canoas impedindo a viagem, caiu a noite e apesar de muito esfor\u00e7o, n\u00e3o houve como avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Os \u00edndios das duas aldeias demostravam muito medo, falavam o tempo todo de um monstro chamado Arikonta que vivia nas ilhas flutuantes.<\/p>\n<p>A noite escura sem lua, tornava tudo mais assustador, j\u00e1 tarde da noite um barulho tenebroso colocou todos em pavorosa situa\u00e7\u00e3o, um segundo barulho ainda mais pr\u00f3ximo revelou o monstro Arikonta com seus gigantescos \u00a0tent\u00e1culos como um povo marinho, uma enorme cabe\u00e7a de touro com muitos chifres e uma boca pavorosa, avan\u00e7ou no escuro para cima da canoa onde estavam G\u00e2ndavo e o jovem Cau\u00e3, arrancando o noivo de Iacina da canoa e desaparecendo com ele no matagal de ilhas flutuantes, tudo muito r\u00e1pido e assustador como um trov\u00e3o.<\/p>\n<p>De sua choupana \u00c7aaci acordou com a n\u00edtida imagem de tudo que estava acontecendo, correu para margem da lagoa, p\u00f3s a m\u00e3o direita sob \u00e0 \u00e1gua e provocou uma enorme tempestade, ondas se fizeram do nada agitando toda lagoa, ventos em f\u00faria soprou por todos os lados, as ilhas flutuantes imediatamente se abriram libertando as canoas prisioneiras, assustados puseram-se os remadores em tamanha velocidade a remar que em pouco tempo j\u00e1 chegaram a margem da Aldeia Patiti onde \u00c7aaci os esperava sentado em uma pedra.<\/p>\n<p>Toda a aldeia correu para o local, logo a not\u00edcia do desaparecimento de Cau\u00e3 levado pelo monstro Arikonta chegou aos ouvidos de Iacina, que prostrou-se a chorar um pranto t\u00e3o sentido que causou profunda como\u00e7\u00e3o nos presentes, \u00c7aaci foi at\u00e9 ela e disse que ele estava vendo seu jovem noivo na barriga do monstro, mas nada podia fazer, a noiva em desespero pediu ent\u00e3o a \u00c7aaci para ir ter com seu amado na barriga da fera, todos ficaram assustados e clamaram para que este pedido da jovem \u00edndia n\u00e3o fosse aceito, Iacina ent\u00e3o implorou ao pai cacique \u00a0que mandasse \u00c7aaci atender o seu pedido, Kaluan\u00e3 n\u00e3o aceitou, Iacina ent\u00e3o se jogou no lago e pois a nadar com tamanha f\u00faria que logo se distanciou, todos puseram-se em desespero implorando que voltasse, \u00c7aaci deu dois passos para dentro do lago apontou a m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a Iacina que j\u00e1 ia longe e a transformou em uma sereia, que logo mergulhou desaparecendo no fundo da lagoa.<\/p>\n<p>Ainda hoje, contasse na regi\u00e3o que ela habita as profundezas daquela linda lagoa junto a pequena ilha de nome Arigo\u00e1, onde, ocasionalmente pode ser vista em noite de lua entoando antigos cantos de seu povo que tamb\u00e9m j\u00e1 desapareceu.<\/p>\n<p>G\u00e2ndavo e Felisberto ainda ficaram por ali alguns dias, em seu livro publicado em 1577 em Lisboa, o escritor portugu\u00eas relata a exist\u00eancia de tubar\u00f5es, peixe boi e outros monstros na Lagoa Encantada, mas nada diz sobre \u00c7aaci, Iacina e Cau\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0<em>Gerson Marques \u00a0\u00e9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores de Chocolate do Sul da Bahia<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gerson Marques Quando o portugu\u00eas Pero \u00a0Magalh\u00e3es G\u00e2ndavo chegou a Lagoa de Ita\u00edpe em fevereiro de 1570, ficou completamente extasiado com a beleza do lugar, chamou de \u201cmar de dentro\u201d tamanha eram as \u00e1guas da lagoa, sua\u00a0 extens\u00e3o e beleza. G\u00e2ndavo estava com Felisberto Lisboa, seu imediato auxiliar, oficial do ex\u00e9rcito portugu\u00eas encarregado de lhe [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[14589,218,19364,2228],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66062"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66062"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66062\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78870,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66062\/revisions\/78870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66062"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66062"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66062"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}