{"id":66,"date":"2008-08-26T18:50:00","date_gmt":"2008-08-26T21:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2008\/08\/26\/pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-flores\/"},"modified":"2008-08-26T18:50:00","modified_gmt":"2008-08-26T21:50:00","slug":"pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2008\/08\/26\/pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-flores\/","title":{"rendered":"Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei das flores"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SLR7I4vGaEI\/AAAAAAAAAEY\/KkOaNjBP4Lo\/s1600-h\/menina+do+Jorge+Amado.JPG\"><img style=\"float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SLR7I4vGaEI\/AAAAAAAAAEY\/KkOaNjBP4Lo\/s320\/menina+do+Jorge+Amado.JPG\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5238947659137837122\" \/><\/a><br \/>        A menina que ilustra a foto que abre esse texto mora num bairro que homenageia um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e onde as ruas ostentam nomes como Orqu\u00eddea, Violeta, Ang\u00e9lica. Brom\u00e9lia, Roseira, Margarida e L\u00edrio, al\u00e9m da inevit\u00e1vel Rua Gabriela.<br \/> Mas, se mora num bairro que nos remete a um local buc\u00f3lico, o que a menina faz numa porta protegida por grades, como se estivesse numa pris\u00e3o?<br \/> A resposta \u00e9 simples: o encantamento n\u00e3o vai al\u00e9m da homenagem ao escritor e aos nomes das ruas.<br \/> O bairro Jorge Amado, localizado na periferia de Itabuna, \u00e9 um exemplo t\u00edpico de como o poder p\u00fablico \u00e9 incapaz, por uma s\u00e9rie de fatores que v\u00e3o do descaso, falta de recursos a invers\u00e3o de prioridades; de atender demandas por servi\u00e7os b\u00e1sicos.<br \/> No bairro, onde vivem cerca de cinco mil pessoas, n\u00e3o existe saneamento b\u00e1sico nem pavimenta\u00e7\u00e3o. Os esgotos correm a c\u00e9u aberto e nos dias de chuva se misturam \u00e0 lama que toma conta das ruas esburacadas. Quando faz sol, o mau cheiro torna-se insuport\u00e1vel.<br \/> O posto de sa\u00fade, uma constru\u00e7\u00e3o imponente para os padr\u00f5es do local, funciona precariamente e a escola mais pr\u00f3xima fica na Urbis IV. \u00c0 noite, os moradores ficam expostos \u00e0 viol\u00eancia e poucos se arriscam a deixar suas casas, constru\u00e7\u00f5es de alvenaria feitas \u00e0 custa de muitos sacrif\u00edcios, ou barracos de madeira.<br \/> Com um com\u00e9rcio rudimentar, composto de pequenos bares e mercearias, o bairro Jorge Amado reflete outro drama: o desemprego. Jovens e adultos que poderiam estar produzindo e ganhando sal\u00e1rios para sustentar a fam\u00edlia, simplesmente n\u00e3o tem acesso ao mercado de trabalho, num circulo vicioso em que crian\u00e7as, pela absoluta falta de oportunidades, seguem pelo mesmo caminho.<br \/> O transporte coletivo demora uma eternidade e a coleta de lixo tem que ser feita com carro\u00e7as em ruas que mais parecem crateras. Aquela que seria a \u00fanica pra\u00e7a do bairro n\u00e3o passou do projeto. Existe, mas s\u00f3 no papel, como tantas e tantas propostas que nunca deixam a categoria da boa inten\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o \u00e9 a da engana\u00e7\u00e3o mesmo.<br \/>Para a maioria das pessoas do bairro, a \u00b4t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o\u00b4 atende pelo nome de Bolsa Fam\u00edlia, o programa de transfer\u00eancia de renda do Governo Federal, que apesar do vi\u00e9s assistencialista tem o m\u00e9rito de tirar milh\u00f5es de brasileiros da pobreza. N\u00e3o \u00e9 raro encontrar fotos de Lula nas paredes das casas, numa admira\u00e7\u00e3o que \u00e9 quase uma rever\u00eancia. <br \/> O bairro Jorge Amado, \u00e9 bom que se diga, est\u00e1 longe de ser uma exce\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 regra. Apenas para ficarmos em Itabuna, essa  mesma realidade pode ser encontrada no Novo Fonseca, no Nova Calif\u00f3rnia, no Gog\u00f3 da Ema, no S\u00e3o Louren\u00e7o, na Bananeira, no Maria Pinheiro, em tantos outros bairros da abandonada periferia da cidade.<br \/> A diferen\u00e7a \u00e9 que os moradores do Jorge Amado sofrem essas agruras em meio a ruas de nomes floridos.<br \/> Eles, incluindo a menina da porta que mais parece uma grade, trocariam de bom grado a sonoridade e beleza dos nomes de suas vias p\u00fablicas por coisas mais concretas como esgotamento sanit\u00e1rio, asfalto, educa\u00e7\u00e3o de qualidade, acesso ao mercado de trabalho, etc.<br \/> Por enquanto, a exemplo da literatura do escritor que d\u00e1 nome ao bairro, tudo isso n\u00e3o passa de obra de fic\u00e7\u00e3o.<br \/> Que um dia deixe de ser, para se tornar realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A menina que ilustra a foto que abre esse texto mora num bairro que homenageia um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e onde as ruas ostentam nomes como Orqu\u00eddea, Violeta, Ang\u00e9lica. Brom\u00e9lia, Roseira, Margarida e L\u00edrio, al\u00e9m da inevit\u00e1vel Rua Gabriela. Mas, se mora num bairro que nos remete a um local [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}