{"id":654,"date":"2026-04-18T10:13:00","date_gmt":"2026-04-18T13:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2010\/04\/26\/50010-o-dia-em-que-o-brasil-enfrentou-o-brazil\/"},"modified":"2026-04-18T12:06:24","modified_gmt":"2026-04-18T15:06:24","slug":"50010-o-dia-em-que-o-brasil-enfrentou-o-brazil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2026\/04\/18\/50010-o-dia-em-que-o-brasil-enfrentou-o-brazil\/","title":{"rendered":"500+10: o dia em que o Brasil enfrentou o Brazil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Daniel Thame<\/strong><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S9V0jW0lnMI\/AAAAAAAABHk\/7jyq_jkmSlw\/s1600\/Brasil+550+anos+Lula++Marques.bmp\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-146016 alignnone\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/FB0C6593-317E-4024-8DF5-A6D5842E3960.jpeg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/FB0C6593-317E-4024-8DF5-A6D5842E3960.jpeg 320w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/FB0C6593-317E-4024-8DF5-A6D5842E3960-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><br \/>\n<\/a><strong>Na foto de Lula Marques, o \u00edndio Terena no ch\u00e3o, cercado de policiais:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong> trucul\u00eancia que atravessa os s\u00e9culos<\/strong><\/p>\n<p>Estava tudo devidamente acertado. Naquele 22 de abril do ano 2000, em Porto Seguro, e elite empresarial e pol\u00edtica do Brasil faria a festa vip dos 500 anos do \u201cdescobrimento\u201d, com direito a coquet\u00e9is em hotel de luxo, passeio pelo centro hist\u00f3rico e uma apresenta\u00e7\u00e3o musical numa caravela \u00e0 beira-mar.<\/p>\n<p>\u00c0 patul\u00e9ia, \u00edndios, estudantes, trabalhadores, sem-terras, estava reservada a figura\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio montado para celebrar o Brasil Primeiro. Mundo, existente apenas na presun\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o presidente Fernando Cardoso. Segregado por um espantoso aparato de seguran\u00e7a, o povo ficaria no lugar onde sempre esteve, a senzala, enquanto as autoridades e os convidados se refestelariam na casa grande.<\/p>\n<p>Se estava acertado, faltou combinar com o povo.<\/p>\n<p>Que naquele dia especialmente, decidiu n\u00e3o concordar com o papel que lhe fora reservado. O bloqueio do acesso a Porto Seguro via Eun\u00e1polis, que tinha o objetivo de barrar os sem-terras, mas barrou mesmo foram moradores locais e turistas; somado \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o de uma marcha entre Coroa Vermelha e Porto Seguro,\u00a0 serviu como estopim de um barril de p\u00f3lvora prestes a explodir. As palavras do patax\u00f3 Luiz Tili\u00e1 funcionaram como o fogo que acende o estopim e explode o barril.<\/p>\n<p>-Amanh\u00e3 n\u00f3s vamos fazer uma caminhada at\u00e9 Porto Seguro e a pol\u00edcia n\u00e3o vai deixar. Quero que cada tribo junte os dez guerreiros mais fortes. Eles v\u00e3o na frente, porque n\u00f3s vai passar de qualquer jeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o passariam. Um vidente previu chuvas e trovoadas em Porto Seguro no dia 22 de abril do ano de 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acertou na previs\u00e3o do tempo e na met\u00e1fora.<\/p>\n<p>A documentarista inglesa Vik Birkbeck, radicada h\u00e1 mais de quarenta e cinco\u00a0 anos no Brasil, estava em Porto Seguro e produziu imagens que foram utilizadas no document\u00e1rio \u201c500+10\u201d.\u00a0 \u201cA imagem que ficou, que rodou o mundo, e foi estampada na capa dos jornais nacionais e internacionais como a imagem definitiva, s\u00edmb\u00f3lica dos 500 anos do dito descobrimento do Brasil foi a foto de Lula Marques do \u00edndio Gilson Terena sendo pisoteado pelo avan\u00e7o da tropa de choque, na chuva, em meio de uma nuvem de gas lacrimog\u00eanio: o corpo quase nu, torso magro, cal\u00e7\u00e3o preto, estendido no asfalto molhado, debaixo dos p\u00e9s dos jovens sarados, armados para combate, de bota, escudo, capacete avan\u00e7ando no melhor estilo Robocop\u201d, relata Vik.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para ela, \u201c todos os elementos do desfecho estavam j\u00e1 presentes. Havia ind\u00edcios pr\u00e9vios da trucul\u00eancia oficial\u201d. Faziam tr\u00eas anos que o \u00edndio patax\u00f3 Galdino, de Pau Brasil, havia sido queimado vivo em Bras\u00edlia por rapazes de fam\u00edlias de classe media, que como explica\u00e7\u00e3o para o assassinato alegaram tratar-se de uma brincadeira. No dia 17 de mar\u00e7o o Governo Federal instalou uma imensa cruz de a\u00e7o na aldeia dos Patax\u00f3s h\u00e3 h\u00e3 h\u00e3e em Coroa Vermelha. \u201cAo tentar erguer o seu pr\u00f3prio monumento aos 500 anos de resist\u00eancia ind\u00edgena, os Patax\u00f3s viram suas terra invadidas por 200 policiais militares que derrubarem o monumento em constru\u00e7\u00e3o com um trator\u201d, lembra a cineasta.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>C\u00c3ES RAIVOSOS<\/p>\n<p>Vik cita ainda que \u201cpara chegarem a Coroa Vermelha, muitos dos povos ind\u00edgenas tinham feito viagens de at\u00e9 duas semanas, saindo das florestas e lugares distantes, pelas trilhas do mato ou de canoa para ainda enfrentarem dias de viagem em velhos \u00f4nibus fretados. A maioria jamais tinha enfrentado uma viagem dessas e nem conhecia outras regi\u00f5es do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S9V0ulJL4tI\/AAAAAAAABHs\/VwqZzt5bkFQ\/s1600\/acm+e+fhc+nos+500+anos.JPG\"><img id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5464402066477408978\" style=\"display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: hand; width: 320px; height: 214px;\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S9V0ulJL4tI\/AAAAAAAABHs\/VwqZzt5bkFQ\/s320\/acm+e+fhc+nos+500+anos.JPG\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\n<strong>Na casa grande, ACM e FHC sorriem. Simbolicamente, de costas para o povo (foto Arquivo Sedoc\/Uesc)<\/strong><\/p>\n<p>Durante o encontro de Coroa Vermelha, diante da falta de negocia\u00e7\u00f5es com a comitiva presidencial, os ind\u00edgenas, apoiados pelo Movimento Negro, MST e estudantes, decidiram realizar, no dia 22 de abril, uma grande marcha at\u00e9 Porto Seguro. No grupo, centenas de mulheres e crian\u00e7as, a maioria pintada e com roupas tradicionais de suas tribos. Chovia torrencialmente naquele dia, como que num pren\u00fancio das trovoadas que viriam em forma de trucul\u00eancia expl\u00edcita. A tropa de choque da PM Baiana, orientada a impedir a chegada do grupo a qualquer custo, usou todo o seu arsenal, incluindo c\u00e3es ferozes, para barrar os que se atreviam a deixam a senzala rumo \u00e0 casa grande.<\/p>\n<p>NAU DOS INSENSATOS<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S9V1TQ3lFoI\/AAAAAAAABH0\/QEir7VKVveQ\/s1600\/nau+dos+insensatos.JPG\"><img id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5464402696690013826\" style=\"display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: hand; width: 320px; height: 213px;\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S9V1TQ3lFoI\/AAAAAAAABH0\/QEir7VKVveQ\/s320\/nau+dos+insensatos.JPG\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\n<strong>A caravela e o teatro do absurdo. Em vez de aplausos, pedras. (foto Arquivo Sedoc\/Uesc<\/strong>)<\/p>\n<p>Em Porto Seguro, brasileiros mobilizados pela Rede Globo, que praticamente monopolizou a data hist\u00f3rica, foram a reduzidos a meros figurantes. Comerciantes de Porto Seguro que haviam se preparado durante meses para o evento ficaram revoltados ao ver suas lojas completamente tapadas pela imenso tapume colocado para proteger os VIPs convidados para um espet\u00e1culo numa nau ancorada na Passarela do Alcool. Resultado: populares atacaram o navio e seus convidados mais ou menos ilustres com pedras, coroando um dos dias mais deprimentes da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Fernando Henrique Cardoso, que deveria passar dois dias na cidade, ficou apenas tr\u00eas horas, limitando sua visita ao regabofe no Hotel Vela Branca, onde enfrentou um protesto de jornalistas que se sentiam cerceados no direito de trabalhar e errou duas vezes ao tentar cantar o Hino Nacional; e a uma visita ao Centro Hist\u00f3rico, totalmente cercado pela pol\u00edcia e com sorridentes baianas de fancaria a lhe fazer corte.<\/p>\n<p>Vik Birkbeck, acredita que \u201cse deixassem os indios chegarem a Porto Seguro teria havido uma verdadeira festa, porque as tribos n\u00e3o estavam buscando confus\u00e3o, mas sim fazendo um contraponto dos 500 anos, que para eles n\u00e3o eram de descobrimento, mas de ocupa\u00e7\u00e3o. O protesto nem sempre se faz com briga mas tamb\u00e9m com a dan\u00e7a, os ituais, a beleza, sobretudo com a presen\u00e7a dos corpos vivos das mulheres, homens e crian\u00e7as\u201d. \u201cEssa festa, os elites sempre negaram. Vieram o movimento negro, os sem terra, enfim todos que se sentiram alijados do processo nacional. Para eles se tratava de um momento de reflex\u00e3o e questionamento de 500 anos de massacre e explora\u00e7\u00e3o\u201d, afirma ela. \u201c Que imagem esses indios que sairam das suas florestas pela primeira vez devem ter do pa\u00eds, se tentar dialogar levam porrada?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 muito a ser feito para que n\u00e3o haja uma dist\u00e2ncia t\u00e3o abissal entre os poucos que desfrutam os prazeres da casa grande Brasil com as m\u00e3os no primeiro mundo e as agruras dos milh\u00f5es que tem os p\u00e9s no Brasil sensala de padr\u00f5es africanos.<\/p>\n<p>Se existe alguma li\u00e7\u00e3o daqueles dias de abril de 2000, \u00e9 a de que exclus\u00e3o social n\u00e3o se combate com porrada. A outra li\u00e7\u00e3o \u00e9 que o Brasil ainda tem uma imensa d\u00edvida social com os povos que construiram e constroem esse pa\u00eds no anonimato de suas vidas simples e n\u00e3o raro cheias de dificuldades.<\/p>\n<p>Mas isso s\u00e3o outros 500.<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Thame Na foto de Lula Marques, o \u00edndio Terena no ch\u00e3o, cercado de policiais: trucul\u00eancia que atravessa os s\u00e9culos Estava tudo devidamente acertado. 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