{"id":63173,"date":"2017-05-30T11:30:46","date_gmt":"2017-05-30T14:30:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=63173"},"modified":"2017-05-30T13:38:01","modified_gmt":"2017-05-30T16:38:01","slug":"sobrevivente-do-massacre-no-para-relatam-execucao-e-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2017\/05\/30\/sobrevivente-do-massacre-no-para-relatam-execucao-e-tortura\/","title":{"rendered":"Sobreviventes do massacre no Par\u00e1 relatam execu\u00e7\u00e3o e tortura"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-63006\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/para.jpg\" alt=\"para\" width=\"323\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/para.jpg 640w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/para-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/para-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 323px) 100vw, 323px\" \/><\/p>\n<p>Ana Aranha<strong> | <a href=\"http:\/\/reporterbrasil.org.br\/2017\/05\/sobreviventes-de-massacre-no-para-descrevem-execucao-e-tortura\/\" target=\"_blank\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>\u00a0| <\/strong>Pau D&#8217;Arco (Par\u00e1) &#8211;<strong>\u00a0<\/strong>Os policiais militares do Par\u00e1 teriam rendido e torturado os trabalhadores rurais sem terra antes de disparar tiros fatais contra eles, relatam os sobreviventes do massacre que tirou a vida de dez pessoas no sudeste do Estado. O crime ocorreu no dia 24 de maio na fazenda Santa L\u00facia, \u00e1rea de Pau D&#8217;Arco, ent\u00e3o ocupada por posseiros.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-63174\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/par\u00e1-300x107.jpg\" alt=\"par\u00e1\" width=\"300\" height=\"107\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/par\u00e1-300x107.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/par\u00e1.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A\u00a0<em>Rep\u00f3rter Brasil<\/em>\u00a0colheu o relato de dois deles e teve acesso ao depoimento de um terceiro. Todos deram depoimentos ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, que j\u00e1 ouviu seis de quinze sobreviventes. H\u00e1 dois considerados como desaparecidos.<\/p>\n<p>As revela\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas contestam a vers\u00e3o da Pol\u00edcia Civil e Militar, que declarou ter sido recebida na fazenda a tiros, como sugere que o crime envolveu tortura e crueldade.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o do confronto fora questionada desde o in\u00edcio porque os policiais n\u00e3o apresentavam ferimentos, enquanto os dez trabalhadores foram levados mortos ao hospital. A movimenta\u00e7\u00e3o dos corpos foi apontada como adultera\u00e7\u00e3o do local do crime pela subprocuradora-geral da Rep\u00fablica Deborah Duprat, que participou da per\u00edcia.<\/p>\n<p>Os relatos s\u00e3o fortes:<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando o grupo de posseiros relata ter visto o comboio da pol\u00edcia chegando, de longe, e\u00a0 correram para se esconder na mata fechada. Foi quando eles\u00a0 abriram uma lona preta para se proteger da chuva, que a pol\u00edcia os teria surpreendido, aos gritos de: \u201c\u00c9 a pol\u00edcia, porra. Quem correr, morre\u201d.<\/p>\n<p>Os sobreviventes fugiram sob fogo, alguns alvejados de rasp\u00e3o na cabe\u00e7a ou pelas costas. \u201cA pol\u00edcia chegou atirando\u201d, foi frase repetida por mais de um sobrevivente. Um deles diz ter ouvido: \u201cpode matar. Corre atr\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 pra deixar um vivo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu fiquei perto, muito perto, vi o olhar de um companheiro que caiu quase por cima de mim quando levou o tiro. Era um olhar triste\u201d, diz outra testemunha. A maioria dos sobreviventes n\u00e3o conseguiu ver o que aconteceu, apenas ouviu, pois tiveram que ficar escondidos. Foi o caso dos relatos seguintes:<\/p>\n<p>\u201cA gente ouviu alguns colegas chorando antes de morrer, dizendo \u2018n\u00e3o faz isso, ningu\u00e9m vai correr&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>Um deles diz que se arrastou pelo ch\u00e3o e ficou deitado dentro da mata fechada a cerca de 70 metros de onde ocorria a chacina. Ele relata ter ouvido os policiais agredindo os trabalhadores com chutes aos gritos de \u201cvira para c\u00e1, vagabundo, cad\u00ea os outros?\u201d<\/p>\n<p>Segundo essa testemunha, depois de gritar e chutar cada trabalhador, a pol\u00edcia atirava. Ritual repetido, na sequ\u00eancia, com a pr\u00f3xima v\u00edtima. O massacre teria durado cerca de duas horas.<\/p>\n<p>\u201cBarulho de paulada, porrada que a pol\u00edcia dava. Depois matavam, um por um\u201d, diz outro sobrevivente. \u201cEles humilhavam, xingavam\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com os relatos, a maioria das v\u00edtimas tombou logo na chegada da pol\u00edcia. Os que ficaram vivos teriam sido executados a queima roupa. A reportagem viu ao menos um corpo com perfura\u00e7\u00e3o na face.<\/p>\n<p>Ao final da matan\u00e7a, dois sobreviventes relataram que a pol\u00edcia saiu \u201cgargalhando\u201d, como se comemorasse uma vit\u00f3ria. E que os policiais fizeram varreduras com as viaturas pela fazenda, como que \u00e0 ca\u00e7a de sobreviventes. A chuva pode ter salvado os que fugiam, dificultando o acesso de carro \u00e0s \u00e1reas mais isoladas da fazenda.<\/p>\n<p>\u201cEu fiquei andando perdido, sem for\u00e7a, \u00e0s vezes de joelhos, sempre pedindo a Deus pra ajudar\u201d diz testemunha que buscou socorro das 8 da manh\u00e3 at\u00e9 quase o fim da tarde.<\/p>\n<p>\u201cA vers\u00e3o dessa pessoa \u00e9 conflitiva com a vers\u00e3o da pol\u00edcia, mas coaduna com o que a gente encontrou no local\u201d, diz o procurador Igor Sp\u00edndola do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal ao ouvir o primeiro depoimento. Ele estava na primeira per\u00edcia no local do crime e chama aten\u00e7\u00e3o para diversos elementos que contrariam a vers\u00e3o de que os trabalhadores reagiram. \u201cSe voc\u00ea investiga o caso sem a vers\u00e3o da pol\u00edcia, voc\u00ea conclui que n\u00e3o teve confronto. Que um lado chegou atirando\u201d, diz o procurador.<\/p>\n<p>Outra evid\u00eancia apontada por ele que vai contra a vers\u00e3o da pol\u00edcia \u00e9 o local do crime. Os posseiros estavam escondidos em uma mata fechada, o que daria vantagem para eles. \u201cSe essas pessoas quisessem atirar, elas teriam uma vis\u00e3o maior do que a pol\u00edcia tinha. Mas n\u00e3o h\u00e1 sinal de nenhum policial ferido\u201d.<\/p>\n<p>A Secretaria de Estado de Seguran\u00e7a P\u00fablica e Defesa Social do Par\u00e1 informou que um inqu\u00e9rito foi aberto para investigar o caso e que afastou 29 policiais envolvidos na a\u00e7\u00e3o. Os policiais militares que estavam na opera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foram ouvidos pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal.<\/p>\n<p>Segundo o advogado da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra Jos\u00e9 Batista Afonso, esse crime teve elementos muito pr\u00f3ximos ao massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, que completou 20 anos em 2016. Em 17 de abril de 1996,\u00a0 a Pol\u00edcia Militar do Par\u00e1 matou 19 trabalhadores do Movimento Sem Terra. \u201cTiveram caracter\u00edsticas parecidas: n\u00e3o s\u00f3 de surpreender e assassin\u00e1-los a sangue frio, como atestam os depoimentos, mas tamb\u00e9m de usar espancamento e tortura. \u00c9 uma forma de mostrar for\u00e7a, dar um recado aos movimentos\u201d.<\/p>\n<p>Uma das suspeitas de motiva\u00e7\u00e3o para o crime \u00e9 a escalada de viol\u00eancia no conflito por terra que levou ao assassinato de um seguran\u00e7a particular da fazenda ocupada, al\u00e9m da morte de um policial militar da regi\u00e3o. Segundo a CPT, que acompanha os conflitos na regi\u00e3o, essas mortes geraram uma rea\u00e7\u00e3o forte do setor agropecu\u00e1rio e uma indigna\u00e7\u00e3o entre os policiais. A entidade j\u00e1 vinha chamando a aten\u00e7\u00e3o para a grande vulnerabilidade dessa \u00e1rea: s\u00f3 no sul e sudeste do Par\u00e1 h\u00e1 mais de 150 fazendas ocupadas.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia devido a conflitos agr\u00e1rios passa por uma escalada em todo o pa\u00eds. H\u00e1 tr\u00eas anos, o Brasil \u00e9 onde mais morrem lideran\u00e7as ambientais e do campo. No ano passado, batemos nosso recorde com 1.295 conflitos por terra, n\u00famero mais alto dos \u00faltimos dez anos. S\u00f3 at\u00e9 maio desse ano, j\u00e1 s\u00e3o 36 mortes de lideran\u00e7as ou ativistas do campo, sendo 12 delas no Par\u00e1.<\/p>\n<p>O procurador tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para o desn\u00edvel de armamento entre os grupos, j\u00e1 que a maior parte das armas com os posseiros eram antigas. Segundo o sobrevivente, em seu depoimento, os posseiros tinham espingardas, um fuzil e uma pistola .380.<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o pode concluir nada, \u00e9 a senten\u00e7a que vai determinar. Mas podemos falar que h\u00e1 s\u00e9rias d\u00favidas sobre a vers\u00e3o da pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<div id=\"_adr_abp_iframe_2\" class=\"_adr_abp_iframe\" data-section=\"c7a8c5ce7ddd137ed40d5a245514916f\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Aranha | Rep\u00f3rter Brasil\u00a0| Pau D&#8217;Arco (Par\u00e1) &#8211;\u00a0Os policiais militares do Par\u00e1 teriam rendido e torturado os trabalhadores rurais sem terra antes de disparar tiros fatais contra eles, relatam os sobreviventes do massacre que tirou a vida de dez pessoas no sudeste do Estado. 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