{"id":61935,"date":"2024-06-15T12:13:40","date_gmt":"2024-06-15T15:13:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=61935"},"modified":"2024-06-12T16:02:52","modified_gmt":"2024-06-12T19:02:52","slug":"manuel-e-daniel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2024\/06\/15\/manuel-e-daniel\/","title":{"rendered":"Manuel e Daniel, o Arco e a Flecha&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-145707\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/leal.jpg\" alt=\"\" width=\"376\" height=\"241\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Daniel Thame<\/strong><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><\/h2>\n<p style=\"text-align: left;\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft  wp-image-152500\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dt-cuba.jpg\" alt=\"\" width=\"244\" height=\"325\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dt-cuba.jpg 413w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dt-cuba-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 244px) 100vw, 244px\" \/>-Eu soube que o senhor vai lan\u00e7ar um jornal e est\u00e1 precisando de rep\u00f3rteres&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">-Voc\u00ea \u00e9 de onde?<\/p>\n<p>-S\u00e3o Paulo, cheguei h\u00e1 um m\u00eas aqui&#8230;<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o come\u00e7a amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>-Mas o senhor n\u00e3o vai nem me pedir pra fazer um texto pra avaliar?<\/p>\n<p>-N\u00e3o precisa. Se voc\u00ea \u00e9 de S\u00e3o Paulo \u00e9 bom, pode vir amanh\u00e3 cedo e come\u00e7ar a trabalhar&#8230;<\/p>\n<p>-0-0-0-<\/p>\n<p>Contado assim, 37\u00a0 anos\u00a0 depois, parece at\u00e9 uma daquelas narra\u00e7\u00f5es inveross\u00edmeis, feitas para dourar a p\u00edlula e transformar um ato banal em algo digno de registro.<\/p>\n<p>Mas foi exatamente assim que aconteceu naqueles meados de abril de 1987, num fim de tarde em que, levado por Vilma Medina (testemunha desse di\u00e1logo surreal), meu destino se cruzou com o de Manuel Leal e me fez mergulhar na aventura de uma vida que foi, durante os 13 anos em que l\u00e1 passei como rep\u00f3rter e depois editor, trabalhar no jornal A Regi\u00e3o.<\/p>\n<p>13 anos, dez deles convivendo com Leal. O tempo permite o que em outras situa\u00e7\u00f5es soaria como cabotinismo: o inigual\u00e1vel faro para a not\u00edcia e o destemor\u00a0 de Leal, somados a um texto cortante como uma navalha afiada e uma compuls\u00e3o por grandes reportagens deste que ora vos escreve (puta que pariu, `dourar a p\u00edlula` e \u00b4deste que\u00a0 ora vos escreve` s\u00e3o dignos de aposentadoria compuls\u00f3ria),\u00a0 foram a ess\u00eancia de um jornal que mais do que papel e tinta, era impresso com alma.<\/p>\n<p>O arco se encontrou com a flecha.<\/p>\n<p>Antes que a banda siga e o mundo gire, um adendo necess\u00e1rio: gente com muito mais talento para a escrita passou por A Regi\u00e3o, mas n\u00e3o citarei nomes para n\u00e3o despertar egos adormecidos. Estou me referindo \u00e0 simbiose de duas almas que o acaso (ou n\u00e3o) reuniu numa reda\u00e7\u00e3o de jornal. Nisso, a uni\u00e3o de Manuel com Daniel produziu uma rima e uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram 10 anos de Malhas Finas e Malhas Grossas, de reportagens inesquec\u00edveis, manchetes de antologia, hist\u00f3rias (ao menos as public\u00e1veis)\u00a0 que dariam um livro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-61938\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/primeira-capa2-212x300.jpg\" alt=\"primeira capa\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/primeira-capa2-212x300.jpg 212w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/primeira-capa2-724x1024.jpg 724w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/primeira-capa2.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/>Quem sen\u00e3o A Regi\u00e3o teria coragem de dar a manchete de fraude no Vestibular da Uesc, apostando num suposto gabarito jogado por baixo da porta da sede do jornal? A edi\u00e7\u00e3o rodando, Leal me liga de madrugada:<\/p>\n<p>-E se aquilo for uma falsifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Respondi com a \u00fanica frase poss\u00edvel:<\/p>\n<p>-N\u00f3s dois estamos fodidos.<\/p>\n<p>As denuncias \u00a0de fraude, com conhecimento pr\u00e9vio dos gabaritos por alguns privilegiados, principalmente nos cursos mais disputados, como Direito, eram recorrentes. Comprovada, mudou para sempre a hist\u00f3ria do vestibular\u00a0 na Uesc.<\/p>\n<p>Quem sen\u00e3o Leal para perceber que um romance entre um fazendeiro\u00a0 de 70 anos e uma estudante de 13 era not\u00edcia nacional? Foi al\u00e9m: a hist\u00f3ria de Ferreirinha e Yolanda foi destaque at\u00e9 no Jap\u00e3o, com direito a uma impag\u00e1vel entrevista a J\u00f4 Soares em que Ferreirinha, orientado por Leal, repetia que sua propalada virilidade se devia ao suco de cacau. E eram tempos pr\u00e9-viagra&#8230;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Aproveitando a deixa: eram tamb\u00e9m tempos duros, por conta das in\u00fameras denuncias feitas pelo jornal, que incomodava os poderosos de plant\u00e3o, entre eles o mais poderosos de todos, Antonio Carlos Magalh\u00e3es, que de t\u00e3o poderoso virou sigla.<\/p>\n<p>Pois ACM em pessoa, n\u00e3o a sigla, inventou a inaugura\u00e7\u00e3o de um poste para vir a Itabuna e desancar o ent\u00e3o ex-amigo Leal (a rela\u00e7\u00e3o de ambos era de amor e \u00f3dio como o pr\u00f3prio jornal atesta em suas p\u00e1ginas), num com\u00edcio na pra\u00e7a Adami. T\u00e3o rid\u00edculo que Leal riu. O tempo, entretanto, mostraria que nem todos os poderosos (ou que se acham poderosos) s\u00e3o de anedota.<\/p>\n<p>A Regi\u00e3o (e Manuel Leal porque o jornal essencialmente era ele) das denuncias de tr\u00e1fico de crian\u00e7as, de privil\u00e9gios na libera\u00e7\u00e3o de recursos para combater a vassoura-de-bruxa, da primeira importa\u00e7\u00e3o de cacau em d\u00e9cadas, que mereceu uma manchete em letras garrafais: ACABOU!, com direito a exclama\u00e7\u00e3o. Definitiva.<\/p>\n<p>Manuel Leal, Manuel Leal, Manuel Leal. Manchetes e hist\u00f3rias. Do cora\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil sustentado por pontes de safena, mas \u00a0imenso e generoso.<\/p>\n<p>-Leal, estou querendo fazer uma s\u00e9rie de reportagens em Cuba (na verdade, conhecer Cuba era o sonho imposs\u00edvel dos meus tempos de rebeldia e dureza em Osasco).<\/p>\n<p>Um jornal do interior da Bahia mandando um jornalista pra Cuba em 1995 tinha tanto sentido quanto mandar um rep\u00f3rter a Marte. Mas Leal bancou a viagem e me vi na obriga\u00e7\u00e3o de deixar a ideologia de lado e fazer aquelas que, modestamente, considero as melhores reportagens da minha vida. E olha que nesse neg\u00f3cio eu costumo colocar a mod\u00e9stia no pared\u00f3n&#8230;<\/p>\n<p>A Cuba dos avan\u00e7os na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, nos esportes foi mostrada ao lado da falta de liberdade, da prostitui\u00e7\u00e3o, da fome extrema (eram tempos p\u00f3s queda do Muro de Berlim), das levas de cubanos que se arriscavam em balsas improvisadas pare tentar chegar aos Estados Unidos. Isso quando os tubar\u00f5es n\u00e3o chegavam antes.<\/p>\n<p>Dois anos depois, premiado com uma viagem a It\u00e1lia, numa tentativa de amenizar as denuncias de tr\u00e1fico de crian\u00e7as no Sul da Bahia, ele simplesmente disse:<\/p>\n<p>-Vai voc\u00ea. Eu iria s\u00f3 passear e voc\u00ea vai trazer boas reportagens pro jornal.<\/p>\n<div id=\"attachment_61876\" style=\"width: 218px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-61876\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-61876\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/capa-1-208x300.jpg\" alt=\"A mais dolorida das capas\" width=\"208\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/capa-1-208x300.jpg 208w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/capa-1-709x1024.jpg 709w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/capa-1.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><p id=\"caption-attachment-61876\" class=\"wp-caption-text\">A mais dolorida das capas<\/p><\/div>\n<p>E\u00a0 da It\u00e1lia, onde ainda deu tempo de cantar \u00b4il sole mio` numa gondola em Veneza, vieram reportagens sobre ado\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as que n\u00e3o terminavam necessariamente em pizza. Veio tamb\u00e9m uma premonit\u00f3ria hist\u00f3ria sobre uma italiana, Cinzia, agraciada com o bem estar social europeu,\u00a0 e um africano, Baussa, que vivia de esmolas na Verona de Romeu e Julieta. Qualquer semelhan\u00e7a com as levas de africanos e \u00e1rabes hoje em dia\u00a0 que morrem afogados no Mar Mediterr\u00e2neo antes de alcan\u00e7ar o suposto para\u00edso, n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>Padre mio, esse era Leal, que num sentido espiritual, foi mesmo um pai. Deixemos o cora\u00e7\u00e3o escrever: Leal foi, pra mim, um pai em todos os sentidos.<\/p>\n<p>Dezembro de 1997. A manchete mais emblem\u00e1tica de todas. \u201cDelegado que apura a fraude \u00a0do IPTU recebeu R$ 4.500,00 da Prefeitura de Itabuna\u201d. \u00a0A \u00fanica reportagem em que, como um leitor comum e atendendo um pedido meu por conta de sua\u00a0 mania de anunciar as `bombas` antes que elas fossem detonadas, Leal s\u00f3 viu o jornal depois de impresso. A flecha disparada sem o arco&#8230;Deus, como isso \u00e9 cruel e me atormenta at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Janeiro de 1998. Manuel Leal foi assassinado covardemente quando chegava a sua resid\u00eancia no Jardim Primavera, localizada entre a Delegacia Regional de Policia e a sede do Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<p>Manuel Leal, de certa forma, ainda vive atrav\u00e9s do jornal que foi a sua raz\u00e3o de viver, hoje em vers\u00e3o digital e, pena mas respeito,\u00a0 direital.<\/p>\n<p>E eu, o mais grapi\u00fana dos paulistas, Cidad\u00e3o Itabunense e Ilheense com as ben\u00e7\u00e3os de Alah, inebriado e arraigado de amor de perdi\u00e7\u00e3o por esse ch\u00e3o, espero o momento do reencontro, agora perguntando:<\/p>\n<p>-Voc\u00ea \u00e9 de onde Leal?<\/p>\n<p>-Eu sou da eternidade&#8230;<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o d\u00e1 licen\u00e7a que eu cheguei pra ficar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Daniel Thame -Eu soube que o senhor vai lan\u00e7ar um jornal e est\u00e1 precisando de rep\u00f3rteres&#8230; -Voc\u00ea \u00e9 de onde? -S\u00e3o Paulo, cheguei h\u00e1 um m\u00eas aqui&#8230; -Ent\u00e3o come\u00e7a amanh\u00e3&#8230; -Mas o senhor n\u00e3o vai nem me pedir pra fazer um texto pra avaliar? -N\u00e3o precisa. 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