{"id":56844,"date":"2018-02-24T09:12:58","date_gmt":"2018-02-24T12:12:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=56844"},"modified":"2018-02-23T10:35:08","modified_gmt":"2018-02-23T13:35:08","slug":"novos-arranjos-familiares-a-coparentalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2018\/02\/24\/novos-arranjos-familiares-a-coparentalidade\/","title":{"rendered":"Novos arranjos familiares: a coparentalidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Debora Spagnol<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft  wp-image-56748\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/debora-2-254x300.jpg\" alt=\"debora-2\" width=\"195\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/debora-2-254x300.jpg 254w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/debora-2.jpg 407w\" sizes=\"(max-width: 195px) 100vw, 195px\" \/>Em tempos idos, o casamento era visto como um neg\u00f3cio, um arranjo financeiro que se destinava a aumentar o patrim\u00f4nio das fam\u00edlias. Pouco importava o sentimento: o amor n\u00e3o era considerado no relacionamento e n\u00e3o havia la\u00e7os afetivos a embasar o contrato.<\/p>\n<p>Com o advento do amor rom\u00e2ntico (idealizado, j\u00e1 que na maioria das vezes o parceiro n\u00e3o corresponde \u00e0s expectativas fantasiosas criadas), nasceram os conceitos de exclusividade e, em consequ\u00eancia, o de posse do outro.\u00a0 Os casamentos ent\u00e3o passaram a se basear no afeto: marido, esposa e os filhos que advirem da rela\u00e7\u00e3o formam a institui\u00e7\u00e3o familiar que muitos conceituam como a base da sociedade.<\/p>\n<p>No p\u00f3s-guerra, a inser\u00e7\u00e3o da mulher no mercado de trabalho e a inven\u00e7\u00e3o da p\u00edlula anticoncepcional mudaram a ess\u00eancia dos relacionamentos diante da maior liberdade sexual e do rompimento de tabus. Facilitadas as novas experi\u00eancias, as escolhas amorosas e sexuais passaram a se basear na liberdade, levando o amor e o sexo para al\u00e9m do afeto e do prazer: tornaram-se necess\u00e1rias a praticidade e a desenvoltura.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Com a internet, ampliou-se a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre todos os assuntos poss\u00edveis, propiciando a oportunidade de novas reflex\u00f5es sobre o mundo e o comportamento. Dentro desse caldeir\u00e3o de novos conceitos, estilos de vida e de relacionamento, as pessoas s\u00e3o livres para escolher como exercer seu afeto e sua sexualidade e o fazem das mais variadas formas, objetivando sempre seu bem-estar.<\/p>\n<p>O sexo casual \u00e9 uma realidade frequente, sendo os desejos vividos com mais liberdade e sem pudor, muitas vezes desvinculados de qualquer compromisso amoroso ou familiar. Dia a dia cresce o n\u00famero de pessoas que decidem enfrentar sozinhas as agruras da vida, restando \u00e0 sociedade adaptar-se \u00e0s escolhas: de im\u00f3veis a supermercados, passando pelas redes sociais, o \u201cmercado da solid\u00e3o\u201d cresce e rende muito.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas pessoas, por\u00e9m, que n\u00e3o desejam manter um v\u00ednculo amoroso ou uma institui\u00e7\u00e3o familiar tradicional, mas carregam em si o sonho da maternidade ou paternidade.<\/p>\n<p>Essa nova configura\u00e7\u00e3o familiar \u00e9 conhecida como \u2018COPARENTALIDADE\u201d \u2013 o termo \u00e9 antigo e conceitua, basicamente, o relacionamento entre pessoas que n\u00e3o buscam o amor, mas uma paternidade compartilhada com a finalidade de gerar e criar um filho de forma respons\u00e1vel e din\u00e2mica. Em suma: duas pessoas se unem sexualmente, geram uma crian\u00e7a a fornecem a ela, de forma conjunta, todos os cuidados e a educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios a lhe tornar um adulto saud\u00e1vel, livre e, qui\u00e7\u00e1, feliz. (1)<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Na busca do parceiro ideal para gerar a crian\u00e7a, a internet tem sido a maior respons\u00e1vel pelos encontros, disponibilizando v\u00e1rios sites que se destinam a favorecer a aproxima\u00e7\u00e3o entre pessoas para a \u201cparceria de paternidade\u201d: \u201cMyAlternativeFamily\u201d, \u201cCoparents\u201d, \u201cCo-ParentMatch\u201d s\u00e3o exemplos, al\u00e9m de v\u00e1rias comunidades existentes no Facebook. Um das maiores \u00e9 a \u201cCoparentalidade Respons\u00e1vel\u201d e possui mais de 800 membros.<\/p>\n<p>A procura por esses sites cresceu significativamente desde 2011, sendo que a maioria dos participantes \u00e9 composta por mulheres que possuem entre 30 e 45 anos. Muitas delas s\u00e3o profissionais talentosas e abdicaram da maternidade na \u00e9poca mais produtiva de suas vidas e agora lutam contra o rel\u00f3gio biol\u00f3gico para realizar o sonho de ter filhos. Mas h\u00e1 muitos homens que tamb\u00e9m desejam transmitir seus genes sem vincular-se emocionalmente \u00e0 futura m\u00e3e de seus filhos.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo \u00e9 muito simples: o usu\u00e1rio preenche um cadastro e cria um perfil, informando seu modo de vida, o que espera do poss\u00edvel parceiro e como deseja conduzir a vida do filho. Outra pessoa, caso se interesse, inicia uma conversa e ambos decidem como v\u00e3o gerar, criar e educar essa crian\u00e7a. Quando a crian\u00e7a nasce, ambos dividem o poder familiar.<\/p>\n<p>Por retratar uma forma de constitui\u00e7\u00e3o familiar diversa dos padr\u00f5es sociais que conhecemos, o assunto se torna pol\u00eamico.<\/p>\n<p>Os defensores da coparentalidade que se d\u00e1 pelo v\u00ednculo exclusivo para gera\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de filhos, exclu\u00edda a rela\u00e7\u00e3o amorosa, defendem que a crian\u00e7a \u00e9 a maior beneficiada desse arranjo. A pondera\u00e7\u00e3o acerca de como querem e com querem ter um filho, para eles, representa uma vantagem em rela\u00e7\u00e3o a muitos casais tradicionais que n\u00e3o possuem essa organiza\u00e7\u00e3o. Nas uni\u00f5es tradicionais, dizem, muitas vezes a gera\u00e7\u00e3o dos filhos se d\u00e1 de forma imediatista e sem qualquer planejamento, ou ainda como consequ\u00eancia do casamento e das imposi\u00e7\u00f5es sociais, sem representar um verdadeiro desejo de exercer a paternidade ou maternidade. Esse novo formato seria, assim, uma alternativa menos constrangedora e conflituosa do que a insemina\u00e7\u00e3o artificial ou a \u201cbarriga de aluguel\u201d.<\/p>\n<p>A maior diferen\u00e7a entre a \u201ccoparentalidade\u201d e a gera\u00e7\u00e3o de filhos em um relacionamento tradicional est\u00e1 associada ao objeto de cuidado: <strong><u>enquanto o novo arranjo prev\u00ea exclusivamente o bem-estar da crian\u00e7a, o relacionamento tradicional baseia-se na intensa preocupa\u00e7\u00e3o com o parceiro, por si e pela rela\u00e7\u00e3o conjugal. <\/u><\/strong><\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a de foco para o bem-estar da crian\u00e7a, a rela\u00e7\u00e3o deve se basear no apoio e comprometimento m\u00fatuo no exerc\u00edcio da parentalidade, atrav\u00e9s da negocia\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is exercidos, da responsabilidade e das contribui\u00e7\u00f5es pessoais para a crian\u00e7a. Em tese, de forma diversa do relacionamento tradicional, a intera\u00e7\u00e3o entre os parceiros visa t\u00e3o somente o bem estar da crian\u00e7a, restando isenta dos \u201cran\u00e7os\u201d e conflitos causados pelos desgastes das rela\u00e7\u00f5es afetivas e, portanto, possibilitando um desenvolvimento psicol\u00f3gico mais saud\u00e1vel ao filho.<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m da \u201cCOPARENTALIDADE VIRTUAL\u201d, em que os parceiros buscam gerar filhos atrav\u00e9s de relacionamento sexual, \u00e9 importante registrar outras formas de exerc\u00edcio da livre paternidade, como: \u2013 Casal homossexual com uma ou mais crian\u00e7as nascidas de rela\u00e7\u00f5es heterossexuais anteriores de um ou ambos; \u2013 Filhos biol\u00f3gicos de uma mulher e de um homem, sendo um deles ou os dois homossexuais, podendo ser criados por um ou por ambos; \u2013 Casal homossexual com filho nascido por meio das t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o assistida; \u2013\u00a0Casal homossexual com crian\u00e7a adotada por um dos membros; \u2013 Homem ou mulher homossexual solteiro (a) com crian\u00e7a em uma das situa\u00e7\u00f5es anteriormente descritas.<\/p>\n<p>Por ser assunto relativamente novo (no Brasil, os primeiros filhos da coparentalidade virtual nasceram em 2016), a quest\u00e3o jur\u00eddica da parceria de paternidade ainda n\u00e3o est\u00e1 definida.<\/p>\n<p>Mas os pais podem tentar garantir maior seguran\u00e7a elaborando um contrato particular ou por escritura p\u00fablica, onde ser\u00e3o expressas as decis\u00f5es das partes j\u00e1 na gravidez, definindo situa\u00e7\u00f5es como registro da crian\u00e7a, forma de sustento, forma de guarda, conviv\u00eancia familiar, entre outros assuntos naturalmente abrangidos na cria\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o de um filho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nesses casos (como nos filhos do div\u00f3rcio), o ideal \u00e9 estabelecer a guarda compartilhada, modelo em que h\u00e1 m\u00fatuo compartilhamento e participa\u00e7\u00e3o na rotina e cotidiano da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Como nas paternidades tradicionais, por\u00e9m, todas as quest\u00f5es relativas \u00e0 guarda, conviv\u00eancia ou alimentos podem ser modificadas, j\u00e1 que se busca sempre priorizar o melhor interesse da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O afeto continua, assim, sendo a base das fam\u00edlias: no caso da coparentalidade, o elo de liga\u00e7\u00e3o \u00e9 o afeto exclusivo dos pais ao filho.<\/p>\n<p>_______________________________________________________________________<\/p>\n<p>1 \u2013 Uma ressalva, apenas: o conceito de \u201cCOPARENTALIDADE\u201d (<em>copareting) <\/em>n\u00e3o \u00e9 novo.\u00a0 \u00c9 um conceito psicanal\u00edtico criado na d\u00e9cada de 1960 e busca descrever a extens\u00e3o na qual o pai e a m\u00e3e dividem a lideran\u00e7a e os pap\u00e9is de \u201cchefes\u201d da fam\u00edlia, ou seja: os papeis parentais. Envolve dimens\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o, antagonismo e intera\u00e7\u00f5es do grupo familiar, onde se deixa claro a observa\u00e7\u00e3o de como os pais apoiam ou se op\u00f5em \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do outro componente do sistema parental com a crian\u00e7a. O conceito trata apenas dos cuidados com a crian\u00e7a, n\u00e3o abrangendo os aspectos legais, rom\u00e2nticos, sexuais, emocionais ou financeiros dos adultos. Alguns autores consideram inclusive que o conceito de coparentalidade pode ser aplicado em qualquer situa\u00e7\u00e3o na qual dois adultos compartilham a parentalidade de uma crian\u00e7a, como no caso de m\u00e3e e tia dividirem as fun\u00e7\u00f5es parentais entre si ou em situa\u00e7\u00f5es de p\u00f3s-div\u00f3rcio, designando a rela\u00e7\u00e3o entre os divorciandos no que se refere \u00e0 educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. A coparentalidade costuma ser associada a quatro principais componentes, a saber: a) concord\u00e2ncia ou discord\u00e2ncia quanto a aspectos relativos aos cuidados e educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a; b) divis\u00e3o de trabalho relacionado \u00e0 crian\u00e7a; c) apoio (ou falta de) ao papel coparental; e d) manejo conjunto das intera\u00e7\u00f5es familiares. Por priorizar t\u00e3o somente o bem estar da crian\u00e7a, nenhuma refer\u00eancia fazendo ao relacionamento dos adultos, o termo passou a definir o arranjo familiar tratado nesse texto.<\/p>\n<p>2 &#8211; Fonte: Frizzo, <strong>Giana Bitencourt Frizzo. In: O conceito de coparentalidade e suas implica\u00e7\u00f5es para a pesquisa e para a cl\u00ednica. Dispon\u00edvel em :\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><a href=\"http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?pid=S01042822005000300010&amp;script=sci_arttext&amp;tlng=es\"><strong>http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?pid=S01042822005000300010&amp;script=sci_arttext&amp;tlng=es<\/strong><\/a><strong>. <\/strong>Acesso em dezembro\/2016.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Debora Spagnol Em tempos idos, o casamento era visto como um neg\u00f3cio, um arranjo financeiro que se destinava a aumentar o patrim\u00f4nio das fam\u00edlias. Pouco importava o sentimento: o amor n\u00e3o era considerado no relacionamento e n\u00e3o havia la\u00e7os afetivos a embasar o contrato. Com o advento do amor rom\u00e2ntico (idealizado, j\u00e1 que na maioria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[20899,15593],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56844"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56844"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56844\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73294,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56844\/revisions\/73294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56844"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56844"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56844"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}