{"id":56698,"date":"2016-12-02T06:19:15","date_gmt":"2016-12-02T09:19:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=56698"},"modified":"2016-12-02T10:21:08","modified_gmt":"2016-12-02T13:21:08","slug":"a-gloria-a-tragedia-e-o-velho-chapeco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2016\/12\/02\/a-gloria-a-tragedia-e-o-velho-chapeco\/","title":{"rendered":"A gl\u00f3ria, a trag\u00e9dia e o velho Chapec\u00f3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>BRUNO AMABILE BRACCO*<\/strong><\/p>\n<p>Jogo mais importante da hist\u00f3ria do clube. \u00daltimo minuto da semifinal do torneio continental. \u00c9 um clube modesto, que heroicamente sobe, em seis anos, da quarta para a primeira divis\u00e3o nacional. De repente, tem \u00e0 frente um gigante argentino, recentemente campe\u00e3o da Am\u00e9rica, time do Papa. Mas o clube modesto tem seu dia heroico. Bravamente, segura o empate que garante a passagem \u00e0 in\u00e9dita e grandiosa final do torneio continental. Bravamente, segura o empate at\u00e9 o \u00faltimo minuto.<\/p>\n<p>\u00daltimo minuto. O gigante argentino cruza a bola na \u00e1rea. A bola \u00e9 rebatida. Sobra, limpa, para um jogador argentino, frente \u00e0 frente com o goleiro. Todo o est\u00e1dio se cala. No \u00faltimo minuto do jogo mais importante da hist\u00f3ria do clube, aquele segundo parece eterno. O jogador argentino arma o chute fatal. Talvez dois ou tr\u00eas metros entre a bola e o gigantesco gol \u00e0 frente: gol de mais de sete metros de largura e quase dois e meio de altura. O chute vem. \u00c9 o golpe fatal de Golias contra Davi.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o. N\u00e3o neste dia sublime. Num movimento magistral, o goleiro do modesto clube sacramenta em gl\u00f3rias aquele dia destinado a ser heroico. Uma perna esticada. A bola, que parecia certeira em dire\u00e7\u00e3o ao gol imenso, explode na perna direita esticada do goleiro-her\u00f3i. \u00c9 o dia de maior alegria nos 43 anos de vida daquele modesto clube \u2013 que jamais havia sido t\u00e3o gigante.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma lenda antiqu\u00edssima que tenta retratar o profundo mist\u00e9rio da vida.<\/p>\n<p>Conta-se que havia um povoado em que muito do trabalho necess\u00e1rio era realizado por cavalos. Um j\u00e1 idoso senhor possu\u00eda o mais belo e forte cavalo do povoado. O cavalo, entretanto, certo dia fugiu.<\/p>\n<p>Todos ficaram perplexos e, repletos de piedade, dirigiam-se ao velho com palavras de pesar, ao que o senhor respondia: \u201cPor que falam assim? O cavalo se foi, mas como podemos dizer se isso \u00e9 bom ou ruim? Deixemos que o tempo nos traga suas respostas\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o cavalo retornou trazendo consigo sete outros cavalos. O povoado encheu-se de alegria e resolveu celebrar. \u201cO velho estava certo\u201d, diziam. \u201cA fuga do cavalo era o melhor que poderia ter acontecido!\u201d Mas o anci\u00e3o era o \u00fanico que se mantinha sereno. \u201cChegaram aqui sete novos cavalos. Mas como poderemos afirmar se isso \u00e9 motivo para comemora\u00e7\u00f5es? Deixemos que o tempo nos traga suas respostas\u201d.<\/p>\n<p>Mais um dia se passou e, numa cavalgada, um dos novos cavalos derrubou o filho do velho, quebrando sua perna. \u201cVelho s\u00e1bio\u201d, todos pensaram. \u201cEle sabia que esses novos cavalos n\u00e3o trariam coisa boa ao povoado, e eis o resultado\u201d. Mas o velho se mantinha tranquilo. A perna quebrada de seu filho seria de fato motivo de lamenta\u00e7\u00e3o? Somente o tempo traria suas respostas.<\/p>\n<p>No dia seguinte, chefes do ex\u00e9rcito vieram ao povoado recrutar soldados. Como o filho do s\u00e1bio anci\u00e3o estava com a perna quebrada, foi poupado da guerra. O povo surpreendeu-se novamente. Mas o velho mantinha sua postura. O velho sempre mantinha sua postura. A hist\u00f3ria, do velho e de cada um de n\u00f3s, prossegue indefinidamente. A sabedoria de vida suprema do anci\u00e3o estava em saber que nada poderia saber sobre a vida. A sabedoria suprema do anci\u00e3o estava em saber que a sabedoria est\u00e1 apenas no tempo \u2013 e o tempo sempre seguir\u00e1 seu curso, contar\u00e1 suas hist\u00f3rias e trar\u00e1 suas respostas.<\/p>\n<p>A heroica perna esticada no \u00faltimo minuto do jogo hist\u00f3rico. O juiz apita o fim da partida. O modesto clube tem a maior gl\u00f3ria de seus 43 anos de vida. Est\u00e1 na final do torneio continental.<\/p>\n<p>O tempo traz, contudo, suas respostas. O tempo traz suas respostas mesmo quando n\u00f3s n\u00e3o sabemos qual era a pergunta. Cai na Col\u00f4mbia o avi\u00e3o que transportava os jogadores e a comiss\u00e3o t\u00e9cnica para a t\u00e3o esperada final do torneio continental, contra aquele que \u00e9, hoje, o melhor time das Am\u00e9ricas. N\u00e3o entendemos as tramas misteriosas da vida. Nunca conseguimos de fato entender, por mais que tanto queiramos. Nos desesperamos a cada dia em que percebemos que n\u00e3o estamos no controle da nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Nos desesperamos a cada dia em que a vida escancara diante da nossa cara at\u00f4nita que n\u00e3o temos a menor ideia, de fato, sobre o que \u00e9 bom e o que \u00e9 mau.<\/p>\n<p>Dias de grandes trag\u00e9dias escancaram nossa pequenez. Contentamo-nos com nossas pequenas vit\u00f3rias sem termos a menor ideia se s\u00e3o, de fato, gloriosas. Desesperamo-nos com nossas pequenas derrotas sem saber as b\u00ean\u00e7\u00e3os que a vida pode esconder no aparentemente tr\u00e1gico. Seguimos como os habitantes comuns do antigo povoado: rindo e chorando diante de cada acontecimento em nossas vidas, como se soub\u00e9ssemos que s\u00e3o motivos para choro ou para riso. Mas n\u00e3o sabemos. Nunca soubemos.<\/p>\n<p>Mas talvez viva, em Medellin ou em Chapec\u00f3, um s\u00e1bio anci\u00e3o. Um anci\u00e3o que sabe que nada pode saber. Um velho que sabe que uma perna quebrada n\u00e3o necessariamente \u00e9 tr\u00e1gica e que uma heroica perna esticada n\u00e3o necessariamente \u00e9 gloriosa. E que talvez, com seus olhos s\u00e1bios, consiga ver ainda al\u00e9m.<\/p>\n<p>Gosto de imaginar o velho se levantando nas primeiras horas da manh\u00e3 e preparando, em sil\u00eancio, seu caf\u00e9. Um vizinho vem, com os olhos fundos de tristeza, e lhe conta a not\u00edcia da madrugada. O velho se entristece tamb\u00e9m. Mas, em seu cora\u00e7\u00e3o, mant\u00e9m a serenidade. Porque sabe que pernas esticadas n\u00e3o necessariamente s\u00e3o gloriosas e pernas quebradas n\u00e3o necessariamente s\u00e3o tristes. Porque sabe: s\u00f3 o tempo pode dar a verdadeira dimens\u00e3o das nossas vit\u00f3rias e das nossas derrotas. E, acima de tudo, sabe: mesmo a mais aparentemente insuport\u00e1vel dor das grandes perdas e das grandes trag\u00e9dias talvez seja apenas um pequeno momento na infind\u00e1vel trama da exist\u00eancia. Apenas um pequenino momento que nossos pequeninos olhos podem ver. Nas imensas profundezas do seu cora\u00e7\u00e3o, o velho sabe: a hist\u00f3ria continua. Sempre continuar\u00e1. E o tempo continuar\u00e1 nos trazendo suas respostas.<\/p>\n<p>Talvez viva, em Medellin ou em Chapec\u00f3, um velho.<\/p>\n<p>*<strong style=\"font-style: inherit;\"><em>Bruno Amabile Bracco \u00e9 Defensor p\u00fablico, mestre e doutor em Criminologia pela USP e autor dos livros \u201cCarl Jung e o Direito Penal\u201d e \u201cA Gnose de Sofia\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Publicado originalmente no site\u00a0<a href=\"http:\/\/justificando.com\/2016\/11\/29\/gloria-tragedia-e-o-velho-chapeco\/\">Justificando<\/a>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BRUNO AMABILE BRACCO* Jogo mais importante da hist\u00f3ria do clube. \u00daltimo minuto da semifinal do torneio continental. \u00c9 um clube modesto, que heroicamente sobe, em seis anos, da quarta para a primeira divis\u00e3o nacional. De repente, tem \u00e0 frente um gigante argentino, recentemente campe\u00e3o da Am\u00e9rica, time do Papa. 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