{"id":561,"date":"2010-01-21T18:57:00","date_gmt":"2010-01-21T21:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2010\/01\/21\/operario-em-desconstrucao\/"},"modified":"2010-01-21T18:57:00","modified_gmt":"2010-01-21T21:57:00","slug":"operario-em-desconstrucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2010\/01\/21\/operario-em-desconstrucao\/","title":{"rendered":"Oper\u00e1rio em (des)constru\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S1jOSx692CI\/AAAAAAAAA6c\/HIiduGMIuxc\/s1600-h\/oper%C3%A1rio+em+constru%C3%A7%C3%A3o.jpg\"><img style=\"display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 229px;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S1jOSx692CI\/AAAAAAAAA6c\/HIiduGMIuxc\/s320\/oper%C3%A1rio+em+constru%C3%A7%C3%A3o.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5429316172828760098\" \/><\/a><br \/><em>\u201cEra ele que erguia casas\/Onde antes s\u00f3 havia ch\u00e3o\/Como um p\u00e1ssaro sem asas\/Ele subia com as asas\/que lhe brotavam da m\u00e3o\/mas tudo desconhecia\/de  sua grande miss\u00e3o&#8230;\/ Como tampouco sabia\/Que a casa que ele fazia\/ sendo a sua liberdade\/ era a sua escravid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Trecho de \u201cOper\u00e1rio em Constru\u00e7\u00e3o\u00b4 de Vinicius de Moraes.<\/em><\/p>\n<p> O pedreiro Gilcimar Pereira Santos, de 23 anos, provavelmente n\u00e3o conhecia o poema-can\u00e7\u00e3o de Vinicius de Morais, que fala dos milhares de trabalhadores an\u00f4nimos que ganham o p\u00e3o com o suor de seu rosto, numa profiss\u00e3o estafante e exposta a riscos de acidentes. Gente que ajuda a construir um pa\u00eds,  ergue mans\u00f5es e muitas vezes mora em casas que, que de t\u00e3o prec\u00e1rias, s\u00f3 com muito boa vontade podem receber o nome de moradias.<br \/> \u00c9 o caso de Gilcimar, morador do bairro S\u00e3o Pedro, na periferia de Itabuna, em que \u00e0s casas simples, constru\u00eddas \u00e0 custa de muito sacrif\u00edcio, somam-se a escassez  de servi\u00e7os p\u00fablicos e uma viol\u00eancia desenfreada.<br \/> Gilcimar, entre o caminho aparentemente f\u00e1cil da criminalidade e a vida dif\u00edcil, mas decente, de trabalhador, optou pela profiss\u00e3o de pedreiro, que lhe garantia uma exist\u00eancia modesta, mas digna.<br \/> Atuava como pedreiro, sem carteira assinada e sem poder se dar ao luxo de escolher trabalho. <br \/> E na impossibilidade de poder escolher ou dispensar trabalho, Gilcimar trombou com a irresponsabilidade, um item n\u00e3o necessariamente raro no setor de constru\u00e7\u00e3o civil, notadamente em obras menores, em que a inexist\u00eancia de equipamentos de seguran\u00e7a ou de respeito \u00e0s normas b\u00e1sicas do setor exp\u00f5em os oper\u00e1rios a risco de vida.<br \/> No caso de Gilcimar, essa combina\u00e7\u00e3o foi fatal.<br \/> Numa manh\u00e3 de calor sufocante, ele trabalhava numa constru\u00e7\u00e3o na \u00e1rea central de Itabuna, quando a barra de ferro que levava nas m\u00e3os  tocou no fio de alta tens\u00e3o da rede el\u00e9trica.<br \/> A viol\u00eancia de descarga foi t\u00e3o violenta, que o pedreiro morreu na hora, eletrocutado. <br \/> Poderia se afirmar que a morte de Gilcimar Pereira dos Santos foi um acidente, uma fatalidade, dessas que podem acontecer com qualquer um.<br \/> N\u00e3o foi.<br \/> Al\u00e9m de o oper\u00e1rio trabalhar sem equipamentos de seguran\u00e7a, a obra estava embargada pela Prefeitura de Itabuna. O embargo n\u00e3o ocorreu apenas uma, mas duas vezes.<br \/>Ainda assim a obra continuou, no lament\u00e1vel senso comum de que lei existe mesmo \u00e9 para ser ignorada.<br \/> Ou seja: o pedreiro Gilcimar n\u00e3o poderia n\u00e3o deveria estar ali.<br \/> Mas estava e do rapaz trabalhador e brincalh\u00e3o (os amigos afirmam que ele estava sempre sorrindo, encarando a vida com otimismo e bom humor) restou apenas um corpo carbonizado estendido no ch\u00e3o.<br \/> Um oper\u00e1rio em (des)constru\u00e7\u00e3o. <br \/> Mais uma v\u00edtima da irresponsabilidade casada com a impunidade.<br \/> Que \u00e9 rima, mas nunca \u00e9 solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEra ele que erguia casas\/Onde antes s\u00f3 havia ch\u00e3o\/Como um p\u00e1ssaro sem asas\/Ele subia com as asas\/que lhe brotavam da m\u00e3o\/mas tudo desconhecia\/de sua grande miss\u00e3o&#8230;\/ Como tampouco sabia\/Que a casa que ele fazia\/ sendo a sua liberdade\/ era a sua escravid\u00e3o\u201d. 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