{"id":552,"date":"2010-01-11T17:26:00","date_gmt":"2010-01-11T20:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2010\/01\/11\/os-outros-filhos-do-brasil\/"},"modified":"2010-01-11T17:26:00","modified_gmt":"2010-01-11T20:26:00","slug":"os-outros-filhos-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2010\/01\/11\/os-outros-filhos-do-brasil\/","title":{"rendered":"OS OUTROS FILHOS DO BRASIL"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S0uJw31NRFI\/AAAAAAAAA5U\/a9i4ay5XWGY\/s1600-h\/pau+de+arara+1.jpg\"><img style=\"display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 250px; height: 175px;\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/S0uJw31NRFI\/AAAAAAAAA5U\/a9i4ay5XWGY\/s320\/pau+de+arara+1.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5425581648811738194\" \/><\/a><br \/>H\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas, um menino subiu num pau de arara, com a fam\u00edlia, fugindo do flagelo da seca no sert\u00e3o nordestino. Viajou 13 dias at\u00e9 chegar a S\u00e3o Paulo, comeu o p\u00e3o que o diabo amassou e n\u00e3o contente ainda cuspiu, aprendeu a profiss\u00e3o de metal\u00fargico, se transformou num l\u00edder sindical respeitado, fundou um partido de trabalhadores, disputou e perdeu tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es para a presid\u00eancia da rep\u00fablica, at\u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>Bem, essa \u00e9 uma hist\u00f3ria fant\u00e1stica e que virou at\u00e9 filme, com o t\u00edtulo de \u201cO Filho do Brasil\u201d e que todos j\u00e1 conhecem.<\/p>\n<p> O pau de arara, que trouxe o menino assustado que depois se tornaria personalidade planet\u00e1ria, deveria nos remeter aos tempos de antigamente, s\u00edmbolo de um Brasil atrasado, caminhando lentamente para a modernidade.<\/p>\n<p>Quase uma alegoria a alimentar o mito que superou a dist\u00e2ncia entre o Brasil pobre e o Brasil rico e, no comando desse pa\u00eds, vem procurando reduzir essa dist\u00e2ncia na pr\u00e1tica, embora ainda haja um longo caminho a ser percorrido.<\/p>\n<p> Mas, infelizmente, o pau de arara, esse sistema de transporte coletivo arcaico, desumano e arriscado, n\u00e3o \u00e9 uma alegoria.<\/p>\n<p> Tanto tempo depois, tanto progresso depois, o pau de arara continua circulando pelas estradas poeirentas deste imenso Brasil e tamb\u00e9m pelas grandes rodovias, transportando gente como se transporta gado. Muitas vezes, transportando gente como nem gado se transporta. <\/p>\n<p> E, pela completa falta de seguran\u00e7a, matando gente.<\/p>\n<p> Foi o que aconteceu no domingo, dia 10, em plena rodovia BR 101, elo de liga\u00e7\u00e3o entre o Sul\/Sudeste com o Nordeste do Brasil.<\/p>\n<p> Nas proximidades da cidade de Tancredo Neves, no Sul da Bahia, um caminh\u00e3o pau de arara, que transportava cerca de 30 pessoas para a zona rural, todas elas amontoadas na carroceria, bateu de frente numa moto. Testemunhas alegam que o motorista do caminh\u00e3o perdeu a dire\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p> Sandro Ger\u00f4nimo de Jesus e Jo\u00e3o de Jesus Oliveira estavam na moto e morreram na hora. Genival Nascimento dos Santos, Z\u00e9lia de Jesus Andrade e Luiz Carlos dos Santos Sacerdote, que eram passageiros do caminh\u00e3o, foram lan\u00e7ados para fora da carroceira e tamb\u00e9m morreram.<\/p>\n<p>28 pessoas, todas elas passageiras do pau de arara, ficaram feridas, nove delas internadas em estado grave.<\/p>\n<p>Genival Nascimento dos Santos, Z\u00e9lia de Jesus Andrade e Luiz Carlos dos Santos Sacerdote, que encontraram a morte em vez do destino glorioso na madeira dura do pau de arara, s\u00e3o os filhos de um Brasil que nem deveria existir mais.<\/p>\n<p>Mas que resiste em forma de exclus\u00e3o social e, for\u00e7oso dizer, desse misto de irresponsabilidade e omiss\u00e3o de quem deveria fiscalizar e fecha os olhos para essas armadilhas, que passam impunemente pelos postos de fiscaliza\u00e7\u00e3o, como se invis\u00edveis fossem.<\/p>\n<p>Sandro, Jo\u00e3o, Genival, Z\u00e9lia e Luiz Carlos, cuja chance de virarem filme \u00e9 zero, s\u00e3o apenas o enredo quase an\u00f4nimo de uma trag\u00e9dia tantas vezes anunciada.<\/p>\n<p>Transformados em cinco cruzes na beira de estrada,  muito fariam  se suas mortes conseguissem  por um fim a esse tipo de transporte.<\/p>\n<p> \u00c9 pouco prov\u00e1vel que isso ocorra. <\/p>\n<p>Um pau de arara, e l\u00e1 se vai muito tempo, transportou o imponder\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os de hoje transportam apenas v\u00edtimas em potencial.<\/p>\n<p>Ou v\u00edtimas reais como  Sandro, Jo\u00e3o, Genival, Z\u00e9lia e Luiz Carlos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas, um menino subiu num pau de arara, com a fam\u00edlia, fugindo do flagelo da seca no sert\u00e3o nordestino. 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