{"id":51923,"date":"2016-06-22T20:25:40","date_gmt":"2016-06-22T23:25:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=51923"},"modified":"2016-06-22T20:27:30","modified_gmt":"2016-06-22T23:27:30","slug":"setenta-e-cinco-noites-frias-joao-carlos-haas-sobrinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2016\/06\/22\/setenta-e-cinco-noites-frias-joao-carlos-haas-sobrinho\/","title":{"rendered":"Setenta e cinco noites frias: Jo\u00e3o Carlos Haas Sobrinho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Sonia Haas<\/p>\n<p>Rio Grande do Sul, S\u00e3o Leopoldo, 1941. Noite fria de S\u00e3o Jo\u00e3o. Nossa m\u00e3e, ansiosa, enfrentava a madrugada \u00e0 espera da chegada do segundo filho.<\/p>\n<p>Na rua Primeiro de mar\u00e7o, n\u00famero 514, a janela se entreabria e os raios da lua banhavam a sala pequena do sobrado dos Haas. Nosso pai, Ildefonso, cat\u00f3lico que sempre foi, rezava para que a esposa Ilma Linck tivesse uma boa hora do parto. Contou-me ele, nos idos de 1980, quando conseguiu expor seus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do filho desaparecido na ditadura, que nos primeiros momentos do ecoar do choro de Jo\u00e3o Carlos, uma luz forte entrou pela vidra\u00e7a emba\u00e7ada do quarto alertando: \u201cCuida bem deste teu filho, pois ele \u00e9 especial.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/joca.jpe\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-51924\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/joca-300x300.jpe\" alt=\"joca\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/joca-300x300.jpe 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/joca-150x150.jpe 150w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/joca.jpe 479w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Jo\u00e3o Carlos foi um menino alegre, tinha no olhar o brilho da lideran\u00e7a. Jogava futebol, organizava festas, brincava com os animais, ajudava a m\u00e3e a cozinhar, escrevia poemas e artigos no jornal da escola &#8211; um aluno nota dez, cheio de medalhas no peito. Fez-se homem e seguiu firme em busca de seus ideais, atitude dif\u00edcil para a fam\u00edlia entender. Jo\u00e3o Carlos escolheu a Medicina e ao longo do curso percebeu que esta escolha poderia conduzi-lo a algo maior: dedicar sua vida ao pr\u00f3ximo. E assim seguiu, se afastando das ruas de nossa cidade.<\/p>\n<p>Ficamos n\u00f3s, familiares e amigos, navegando em um vazio de obscuridade.<\/p>\n<p>Em 1966 ele deixou o nosso conv\u00edvio, rompeu os limites de seu horizonte e pisou firme nos trilhos de um novo mundo, onde o homem estaria no centro, como majestade, livre e forte. Assim ele quis, assim sonhou e lutou, at\u00e9 tombar em 1972, na regi\u00e3o do Araguaia.<\/p>\n<p>As noites de 24 de junho sempre foram frias, por\u00e9m, para nossa fam\u00edlia, ap\u00f3s 1966, foram ficando g\u00e9lidas, carregadas de saudade e tristeza.<\/p>\n<p>Na inf\u00e2ncia da rua Primeiro de mar\u00e7o, havia bandeirinhas e fogos na noite de S\u00e3o Jo\u00e3o: era a comemora\u00e7\u00e3o da vida. Recordo o profundo sil\u00eancio que ficou ap\u00f3s termos ci\u00eancia de seu desaparecimento, em 1979, 7 anos ap\u00f3s a sua morte. Em cada canto da casa parecia haver uma ora\u00e7\u00e3o a acalentar a esperan\u00e7a de que era tudo um sonho, n\u00e3o era verdade. Mas a realidade veio batendo \u00e0 nossa porta aos poucos, a cada not\u00edcia: o reencontro n\u00e3o aconteceria.<\/p>\n<p>Nossa m\u00e3e silenciava sua dor na tristeza do olhar, em todos estes anivers\u00e1rios passados. At\u00e9 2001, quando nos deixou, sempre fazia uma encomenda: \u201cJ\u00e1 mandei rezar a missa para o Jo\u00e3o, vamos?\u201d, com voz embargada me ligava sempre, a cada ano, numa nostalgia ritmada pelo vazio sem respostas.<\/p>\n<p>24 de junho de 2016: 75 anos de nascimento de um amigo do povo que n\u00e3o mediu esfor\u00e7os para cumprir sua miss\u00e3o. Seu Ildefonso e Dona Ilma partiram sem poder sepultar o filho que tanto amaram. Talvez porque, na verdade, ele esteja mais vivo do que nunca, entre n\u00f3s. N\u00e3o s\u00f3 na mem\u00f3ria dos que com ele conviveram, como tamb\u00e9m em tantas homenagens que vieram depois. Jo\u00e3o Carlos Haas Sobrinho: Presente!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0S\u00f4nia Maria Haas\u00a0 \u00e9 \u00a0publicit\u00e1ria e \u00a0irm\u00e3 de Jo\u00e3o Carlos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sonia Haas Rio Grande do Sul, S\u00e3o Leopoldo, 1941. Noite fria de S\u00e3o Jo\u00e3o. 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