{"id":43661,"date":"2015-10-01T20:12:55","date_gmt":"2015-10-01T23:12:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=43661"},"modified":"2015-10-01T10:15:57","modified_gmt":"2015-10-01T13:15:57","slug":"ritmos-harmonias-e-dissonancias-das-palavras-em-cachoeira-na-flica-2015-a-festa-literaria-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2015\/10\/01\/ritmos-harmonias-e-dissonancias-das-palavras-em-cachoeira-na-flica-2015-a-festa-literaria-do-brasil\/","title":{"rendered":"Ritmos, harmonias e disson\u00e2ncias das palavras em Cachoeira, na Flica 2015, a festa liter\u00e1ria do Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Aur\u00e9lio Schommer<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-43662\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/aurelio-300x300.jpg\" alt=\"aurelio\" width=\"184\" height=\"184\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/aurelio-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/aurelio-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/aurelio.jpg 512w\" sizes=\"(max-width: 184px) 100vw, 184px\" \/>Escritores desejavam parecer m\u00fasicos, que os limites das palavras fossem estendidos a dist\u00e2ncias tais que pudessem alcan\u00e7ar os ritmos e harmonias da suprema arte dos sons. Para tal nobre fim, sentiam-se limitados menos pelas palavras do que pela inevit\u00e1vel disson\u00e2ncia das ideias.<\/p>\n<p>Pobres autores, desconsolados por tal incapacidade, tal inferioridade, agonisticamente seguem tentando venc\u00ea-la. Alcan\u00e7ar\u00e3o alguma harmonia, algum ritmo digno de nota entre tantas notas dissonantes? Bem, a programa\u00e7\u00e3o da Flica 2015 foi pensada para esse nobre fim, sem ilus\u00f5es, pois as marcas das disson\u00e2ncias tamb\u00e9m s\u00e3o caras a essa festa liter\u00e1ria, sempre o foram, agora mais.<\/p>\n<p>H\u00e1 ritmo, ditado pelo homenageado, prosador ex\u00edmio em espichar o alcance das palavras \u00e0s alturas, jornalista atento \u00e0s disson\u00e2ncias pr\u00f3prias da verdade. Ant\u00f4nio Torres, o imortal brasileiro, orgulhosamente baiano, cosmopolita por voca\u00e7\u00e3o de ber\u00e7o e senso est\u00e9tico adquirido em longa e admir\u00e1vel trajet\u00f3ria. Na mesa de abertura, estar\u00e1 ao lado de um jornalista virtuose na capta\u00e7\u00e3o do excruciante nos fatos, Igor Gielow, quanto ritmo na narrativa de Ariana, trag\u00e9dias e reden\u00e7\u00f5es entrela\u00e7adas.<\/p>\n<p>Nos mitos, a representa\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica obtida do mosaico de palavras de resist\u00eancia e fantasia, os \u201csignos da cultura\u201d, express\u00e3o \u201cn\u00e3o sei que\u201d da filosofia vertida em prosa afiada, para fins de narrativa hist\u00f3rica ou fant\u00e1stica, mais cedo de Cacau Nascimento, signo da terra cachoeirana, e de T\u00e2mis Parron, garimpeiro dos sinais e simbolismos da escravid\u00e3o; mais tarde, j\u00e1 no s\u00e1bado, Andr\u00e9 Vianco e Ana Beatriz Brand\u00e3o, virtuoses do imagin\u00e1rio estendido, dos mitos \u201cn\u00e3o sei nada\u201d, mas se nada sei tudo posso criar.<\/p>\n<p>Professar no sentido de \u201ctomar o h\u00e1bito\u201d, vestir-se de prosador, no dia do professor (15) \u00e9 of\u00edcio para os devotos das palavras, t\u00e3o devotos quanto reconhecidos como tais. Num dia s\u00f3 Ver\u00f4nica Stiger, Jo\u00e3o Paulo Cuenca, Lima Trindade e Martha Medeiros. Professemos, no sentido de \u201cfazer uso p\u00fablico de\u201d, esses encontros devocionais, em duplo sentido, devotos eles do professar, devotos \u00e0 mancheia na plateia.<\/p>\n<p>Do lirismo dos sentimentos ao lirismo da guerra, do choque entre ressentidos irreconcili\u00e1veis, a sexta-feira vai de Clarissa Macedo e Rita Santana, a declamar em prosa falada ou poesia escrita na tradicional mesa de poesia by Flica, a Kamila Shamsie e Rodrigo Gurgel, dois prosadores que preferem o romance povoado de sentimentos aos piores sentimentos, mas n\u00e3o fogem da arena do argumento reto, na guerra entre Isl\u00e3 x Ocidente, ressentimentos de treze s\u00e9culos ora agudizados, em mais uma mesa tradicional by Flica: choque de opostos.<\/p>\n<p>Entremeando a sexta de opostos e harm\u00f4nicos, a homenagem by Flica, que j\u00e1 celebrou de forma original Nelson Rodrigues e Jorge Amado (em 2012), ao ex\u00edmio retratista baiano dos conflitos da saga grapi\u00fana, uma das mais fant\u00e1sticas sagas de todos os tempos, Adonias Filho, com especialistas (Carlos Ribeiro, Silmara Oliveira, Adonias Neto) na obra do imortal\u00edssimo itajuipense, da terra da guerra do Sequeiro do Espinho, que faz parecer os atuais conflitos \u00e9tnicos das periferias das capitais europeias coisa de gente mimada.<\/p>\n<p>O s\u00e1bado da Flica j\u00e1 era uma maratona: quatro mesas. Agora, s\u00e3o cinco, maratona pouca \u00e9 bobagem. O fim dela j\u00e1 casamos no in\u00edcio deste texto: o encontro in\u00e9dito da revela\u00e7\u00e3o Ana Beatriz com o experiente Vianco, de pai para filha? Veremos. O dia come\u00e7a mesmo com Hansen Bahia, homem do mundo e de Cachoeira, um dos tantos a descobrir que em Cachoeira reside o mundo. Apresentam Hansen xilogravurasliteraturas Rubem Grillo, Ant\u00f4nio Costella e Evandro Sybine.<\/p>\n<p>O Estado, esse monstro que nossa imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 criou como implantou, se quer benfazejo. Benfazejo? Mariana Trigo acha que sim; Bruno Garschagen, que n\u00e3o. Ah, sim, eles acabam invertendo as posi\u00e7\u00f5es, como Portugal e Brasil tantas vezes inverteram na hist\u00f3ria multissecular dos di\u00e1logos lus\u00f3fonos. Em seguida, di\u00e1logos africanos para dizer das pontes entre Estado e globalismos \u00e9tnicos, com Helon Habila, nigeriano que fala de perto aos americanos, e Jos\u00e9 Carlos Limeira, a avaliar as intera\u00e7\u00f5es entre etnicidades brasileiras, africanas e americanas.<\/p>\n<p>Retomando o tema da m\u00fasica, \u00e9 a vez de John Philip Sousa. N\u00e3o, o compositor de marchas nascido em Washington e morto em 1932, n\u00e3o estar\u00e1 na Flica. Mas \u00e9 no seu ritmo, disson\u00e2ncias, instrumentos, harmonias, tudo t\u00e3o vasto, com tantas influ\u00eancias, que se apresentam as americanas Sapphire e Meg Cabot, ao lado das brasileiras L\u00edvia Nat\u00e1lia e Paula Pimenta, tradi\u00e7\u00e3o Flica do encontro dessas duas Am\u00e9ricas a disputar mitos de cria\u00e7\u00e3o (evocando Pocahontas e Caramuru, tema da edi\u00e7\u00e3o 2011).<\/p>\n<p>Sapphire, al\u00e9m de dramas de adolescentes abandonadas por qualquer sorte (quem n\u00e3o leu \u201cPreciosa\u201d?) e quest\u00f5es de g\u00eanero, estabelece com L\u00edvia Nat\u00e1lia uma das tantas pontes cachoeiranas afro-baianas-americanas, sem perder de vista a elei\u00e7\u00e3o metropolitana de 2016. Meg Cabot talvez tenha algo a dizer sobre isso tamb\u00e9m, mas Paula Pimenta h\u00e1 de cham\u00e1-la, para fechar a Flica, j\u00e1 no domingo, com o tema do amor, esse \u201cn\u00e3o sei que\u201d indefinido que faz os escritores alcan\u00e7arem as alturas da m\u00fasica, ritmo, harmonia, em meio a disson\u00e2ncias sem fim, tudo muito by Flica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(*)Aur\u00e9lio Schommer \u00e9 escritor, cr\u00edtico liter\u00e1rio, titular\u00a0 do Conselho Estadual de Cultura da Bahia curador da Flica,<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aur\u00e9lio Schommer \u00a0Escritores desejavam parecer m\u00fasicos, que os limites das palavras fossem estendidos a dist\u00e2ncias tais que pudessem alcan\u00e7ar os ritmos e harmonias da suprema arte dos sons. Para tal nobre fim, sentiam-se limitados menos pelas palavras do que pela inevit\u00e1vel disson\u00e2ncia das ideias. 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