{"id":30226,"date":"2014-05-16T09:00:12","date_gmt":"2014-05-16T12:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=30226"},"modified":"2014-05-16T10:21:37","modified_gmt":"2014-05-16T13:21:37","slug":"anti-copa-anti-eleicao-anti-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2014\/05\/16\/anti-copa-anti-eleicao-anti-jornalismo\/","title":{"rendered":"Anti-Copa, anti-elei\u00e7\u00e3o &#038; anti-jornalismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Paulo Moreira Leite (*)<\/p>\n<p>Havia mais gente num ato do Planalto para anunciar condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Copa do que na maioria dos protestos anti-Copa<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entender a import\u00e2ncia atribu\u00edda pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o aos protestos anti-Copa, ontem, como parte do esfor\u00e7o para colocar o governo Dilma na defensiva quando faltam cinco meses para a elei\u00e7\u00e3o presidencial. \u00c9 isso e s\u00f3 isso.<\/p>\n<p>Na maioria dos protestos realizados do pa\u00eds, havia menos gente do que no Pal\u00e1cio do Planalto, \u00e0s 15 horas da tarde de ontem, quando o governo, entidades patronais e as centrais sindicais \u2013 inclusive a For\u00e7a Sindical \u2013 assinaram um acordo pelo trabalho decente durante da Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode achar burocr\u00e1tico. Mas veja as consequ\u00eancias pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>No final do dia, em Bras\u00edlia, grandes redes de alimenta\u00e7\u00e3o e hoteis \u2013 estamos falando de Mac Donalds e Habibs, Accor, por exemplo \u2013 haviam firmado um acordo que, soube depois, era in\u00e9dito no mundo.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Um total de 1600 empresas (o plano \u00e9 chegar a 6000 nas pr\u00f3ximas semanas), que empregam alguns dezenas de milhares de trabalhadores, firmou um compromisso para a Copa. Refor\u00e7ar direitos trabalhistas, criar formas legais de evitar que trabalho tempor\u00e1rio seja sin\u00f4nimo de trabalho prec\u00e1rio e impedir o avan\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes, t\u00e3o comum em situa\u00e7\u00e3o desse tipo.<\/p>\n<p>Sabe a preocupa\u00e7\u00e3o social? Sabe aquele esfor\u00e7o para impedir que a Copa transforme o pa\u00eds num grande bordel? Pois \u00e9.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode at\u00e9 achar que tudo isso \u00e9 caf\u00e9 pequeno diante das imensas causas e car\u00eancias do pa\u00eds. \u00c9 mesmo. Tamb\u00e9m pode se perguntar para que falar de iniciativas modestas, limitadas, quando a rua arde em chamas de pneus revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>S\u00e3o, definitivamente, iniciativas menos que reformistas, para falar em linguagem conhecida. Populistas, para usar um termo t\u00edpico de quem n\u00e3o tem voto nem consegue comunicar-se com o povo. Eleitoreiras, \u00e9 claro. Mas eu acho que os fatos de ontem ensinam muita coisa sobre o Brasil de hoje.<\/p>\n<p>A menos que se acredite que em 2014 o Brasil se encontra \u00e0s portas de uma revolu\u00e7\u00e3o, numa situa\u00e7\u00e3o que coloca quest\u00f5es econ\u00f4micas como a expropria\u00e7\u00e3o dos meios privados de produ\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica de conselhos oper\u00e1rios e populares, conv\u00e9m admitir que nossos meios de comunica\u00e7\u00e3o resolveram construir um embuste pol\u00edtico em torno dos protestos e apresentar manifesta\u00e7\u00f5es de rua fracassadas como se fosse um elemento da realidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o seja Ney Matogrosso: leia os or\u00e7amentos, compare os gastos, veja as prioridades. Entre no debate real.<\/p>\n<p>Veja quem defende, a portas fechadas, as \u201cmedidas impopulares\u201d. Quem j\u00e1 se rendeu ao capital financeiro e quer entregar o Banco Central \u2013 isto\u00e9, a moeda dos brasileiros \u2013 aos mercados, para que possam jogar com ela, especular, comprar e vender. N\u00e3o acredite na lorota de austeridade, de defesa da moeda acima da pol\u00edtica e dos interesses sociais em eterno conflito. O que se quer \u00e9 mais cassino em vez de mais sal\u00e1rio m\u00ednimo. (Quase rimou&#8230;)<\/p>\n<p>No cassino est\u00e1 o fil\u00e9 \u2013 que \u00e9 sempre para poucos. E quando algu\u00e9m falar no exemplo dos pa\u00edses desenvolvidos, recorde: no marmore da entrada do FED, o BC americano, est\u00e1 escrito que a institui\u00e7\u00e3o tem dois compromissos \u2013 defender a moeda do pa\u00eds e o emprego dos cidad\u00e3os. L\u00e1, no cora\u00e7\u00e3o do capitalismo, o BC tem essa fun\u00e7\u00e3o \u2013 ou miss\u00e3o, como dizem os RHs de hoje em dia. Toda luta pela independ\u00eancia do Fed consiste em lutar para revogar o compromisso com a defesa do emprego.<\/p>\n<p>Numa conjuntura pr\u00e9-eleitoral onde cada rua interrompida, cada pedrada, cada confronto desnecess\u00e1rio com a pol\u00edcia e cada pequena labareda representa um desgaste das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas constru\u00eddas democraticamente no fim da ditadura militar, o que se pretende \u00e9 atingir um governo que toma medidas parciais mas concretas em defesa da maioria e favorecer uma restaura\u00e7\u00e3o conservadora. O cap\u00edtulo final do embuste &#8212; por isso \u00e9 embuste &#8212; \u00e9 este. Criar uma imagem, um borr\u00e3o, um ru\u00eddo, que embaralhe o debate da elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No pa\u00eds real de 2014, as alternativas s\u00e3o duas. E todos sabem quais s\u00e3o. E \u00e9 por causa delas que a revolta polilcial do Recife, ontem, recebeu o tratamento de um epis\u00f3dio menor e passageiros, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o Sudoeste de S\u00e3o Paulo, ontem, os trabalhadores cruzaram os bra\u00e7os em seis empresas. Mais tarde, avan\u00e7aram por uma das pistas da Via Anchieta e fizeram o protesto por meia hora. Olha a falta de charme radical-televisivo dessa turma. Olha o t\u00e9dio concreto de suas reinvindica\u00e7\u00f5es. A monotonia. Cert\u00edssimo.<\/p>\n<p>Ligados a industria de auto-pe\u00e7as, querem a manuten\u00e7\u00e3o do IPI que ajuda a vender autom\u00f3veis, at\u00e9 hoje o setor da industria que possui a cauda mais longa na produ\u00e7\u00e3o de empregos diretos e indiretos. No pa\u00eds real, onde vive a maioria dos brasileiros, uma das prioridades \u00e9 e sempre foi esta: emprego, que permite pagar a conta do fim do mes.<\/p>\n<p>A reivindica\u00e7\u00e3o dos metal\u00fargicos n\u00e3o era improvisada. E nada tem a ver com anti-Copa, movimento que ignoram porque gostam de futebol, n\u00e3o querem perder a oportunidade de torcer pela sele\u00e7\u00e3o brasileira em seu pr\u00f3prio pa\u00eds e at\u00e9 admitem que os empregos que a Copa criou ajudaram no or\u00e7amento de amigos, parentes e vizinhos.<\/p>\n<p>Os sindicatos querem sentar com os empres\u00e1rios e o governo para discutir medidas que a CUT e a For\u00e7a Sindical trouxeram da Alemanha, onde trabalhadores, empresas e governo repartem custos que ajudam a manter o emprego mesmo nas situa\u00e7\u00f5es que a economia esfria \u2013 esse tipo de pacto \u00e9 um dos motivos que explica a vit\u00f3ria eleitoral de Angela Merkel, que n\u00e3o aplica contra seu povo a pol\u00edtica de austeridade que exige dos pa\u00edses mais fracos da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>No mundo real, vivemos a \u00e9poca do capitalismo rastejante, como definiu um dos dirigentes pol\u00edticos de minha juventude. Cada emprego \u00e9 uma epop\u00e9ia, todo benef\u00edcio social \u00e9 um suadouro, garantir um horizonte de seguran\u00e7a para a fam\u00edlia \u00e9 uma utopia.<br \/>\nO que nossos conversadores mais reacion\u00e1rios pretendem \u00e9 um confronto com todas as armas \u2013 inclusive o embuste &#8212; com um governo que, com todos os limites, falhas e erros clamorosos, tem conseguido aliviar o sofrimento dos mais pobres.<\/p>\n<p>Numa fase da hist\u00f3ria em que a renda se concentra nos principais pa\u00edses do planeta, gerando uma desigualdade que bons estudiosos indicam como caminho seguro para novas cat\u00e1strofes, at\u00e9 mais frequenets, o Brasil conseguiu avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. O plano era fazer virar uma Gr\u00e9cia. Virou&#8230; o Brasil.<\/p>\n<p>Vamos lembrar de 1964. Num pa\u00eds polarizado, com um governo que havia chegado no limite poss\u00edve, a revolta dos sargentos, e dos cabos, a radicaliza\u00e7\u00e3o dos camponeses, a campanha sistem\u00e1tica de denuncia dos pol\u00edticos e do Congresso envolvia causas justas e corretas \u2013 mas seu efeito real foi abrir caminho para o golpe de Estado e uma derrota de 20 anos.<\/p>\n<p>Lembrem de 1933, na Alemanha. Convencido de que havia chegado a hora do assalto ao poder, o Partido Comunista Alem\u00e3o, orientado por Josef Stalin, estimulou uma pol\u00edtica sect\u00e1ria de den\u00fancia da social-democracia. Rompeu a unidade dos trabalhadores e passou a acusar os social-democratas de social-fascistas. O saldo foi Hitler \u2013 uma derrota que s\u00f3 seria revertida pela II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A historia mudou bastante, de l\u00e1 para c\u00e1. Mas conv\u00e9m entender que algumas li\u00e7\u00f5es permanecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><b>(*) Paulo Moreira Leite \u00e9 colunista da revista Isto\u00e9\u00a0<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Moreira Leite (*) Havia mais gente num ato do Planalto para anunciar condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Copa do que na maioria dos protestos anti-Copa S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entender a import\u00e2ncia atribu\u00edda pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o aos protestos anti-Copa, ontem, como parte do esfor\u00e7o para colocar o governo Dilma na defensiva quando faltam cinco meses [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30226"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30226"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30226\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30230,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30226\/revisions\/30230"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}