{"id":29577,"date":"2014-04-22T17:30:30","date_gmt":"2014-04-22T20:30:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=29577"},"modified":"2014-04-22T17:30:30","modified_gmt":"2014-04-22T20:30:30","slug":"sua-truculencia-nao-e-rebeldia-e-niilismo-carta-aberta-de-um-ex-fa-ao-lobao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2014\/04\/22\/sua-truculencia-nao-e-rebeldia-e-niilismo-carta-aberta-de-um-ex-fa-ao-lobao\/","title":{"rendered":"\u201cSua trucul\u00eancia n\u00e3o \u00e9 rebeldia, \u00e9 niilismo\u201d: Carta aberta de um ex-f\u00e3 ao Lob\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_29578\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-29578\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-29578\" alt=\"o rebelde virou um lobo-cordeiro da Midia Pistoleira...\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/lob\u00e3o-300x253.jpg\" width=\"300\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/lob\u00e3o-300x253.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/lob\u00e3o.jpg 569w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-29578\" class=\"wp-caption-text\">o rebelde virou um lobo-cordeiro da Midia Pistoleira&#8230;<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Escrito por Pedro Sprejer e publicado originalmente na\u00a0<a href=\"http:\/\/revistapolivox.com\/carta-ao-lobao-de-um-ex-fa\/\">Polivox<\/a><\/em><\/p>\n<p>Eu te acompanho desde meados dos anos 80, quando, ainda crian\u00e7a, pulava na frente da TV e do r\u00e1dio ao som de \u201cVida Bandida\u201d e \u201cCora\u00e7\u00f5es Psicod\u00e9licos\u201d.<\/p>\n<p>Essas e outras can\u00e7\u00f5es constitu\u00edram o meu repert\u00f3rio afetivo-musical e sempre olho para elas com carinho. Hoje, entretanto, sua voz me soa amarga. Acho que cansei dela. E me atrevo a falar em nome de outros f\u00e3s que est\u00e3o desapontados com o papel\u00e3o que voc\u00ea tem feito por a\u00ed.<\/p>\n<p>Voc\u00ea e Cazuza foram os artistas mais provocadores da gera\u00e7\u00e3o 80, os mais aut\u00eanticos. Cazuza foi um libert\u00e1rio genial, com sua ironia, homossexualidade escancarada, e entrega total \u00e0 vida. E voc\u00ea, com um rock man\u00edaco-depressivo foi mesmo uma ovelha negra dentro da MPB, como gosta de dizer.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acrescentou \u00e0 MPB algumas doses a mais, trouxe euforia, porra-louquice, mas tamb\u00e9m melancolia e desespero, fazendo a trilha dos anos 80 entre festas hom\u00e9ricas e ressacas suicidas. E ainda colocou na can\u00e7\u00e3o brasileira, comportada e luminosa na maior parte das vezes, uma viol\u00eancia crua. A mesma viol\u00eancia que j\u00e1 estava nos filmes do Cinema Marginal, nos contos do Rubem Fonseca ou nas pe\u00e7as de Pl\u00ednio Marcos.<\/p>\n<p>Depois de debutar com um rock dan\u00e7ante adolescente, voc\u00ea enveredou por um lado selvagem da motocicleta. Mergulhou na vida louca e bandida dos anos 80 para contar a hist\u00f3ria do personagem que \u201cchutou a cara do cara ca\u00eddo\u201d e \u201cbateu no seu melhor amigo\u201d e tamb\u00e9m a do que \u201csem d\u00f3, nem pena, sem um telefonema, matou a fam\u00edlia e foi ao cinema\u201d.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Voc\u00ea prop\u00f4s um ver\u00e3o na boca do lixo, ainda que esse universo decadente e sujo \u00e0s vezes se parecesse mais com uma hist\u00f3ria de Charles Bukowski ou com o \u201cTaxi Driver\u201d de Scorsese .<\/p>\n<p>Sua hist\u00f3ria deu um livro, Lob\u00e3o. Voc\u00ea fez de tudo um pouco, inclusive \u201cMe Chama\u201d e outras belas can\u00e7\u00f5es. Lan\u00e7ou discos bons, como \u201cNostalgia da Modernidade\u201d (1995). Lutou uma briga boa contra as grandes gravadoras e o jab\u00e1 nas r\u00e1dios. Fez tamb\u00e9m, vale lembrar, uma certa dose de m\u00fasicas que me parecem muito ruins.<\/p>\n<p>Mas o que eu acho curioso \u00e9 como voc\u00ea \u00e9 at\u00e9 hoje associado aos anos 80, mesmo tendo feito tantas coisas depois. Por algum motivo, ao longo das d\u00e9cadas seguintes, sua m\u00fasica foi saindo de cena lentamente. A\u00ed te vimos ressurgir das estepes, lobo escaldado a latir com raiva, primeiro como um entrevistado que premiava os rep\u00f3rteres com declara\u00e7\u00f5es pol\u00eamicas, depois como apresentador de TV e, por fim, como colunista da Veja.<\/p>\n<p>Sua primeira apari\u00e7\u00e3o nacional como pugilista verbal foi na longa discuss\u00e3o com o Caetano Veloso, que teve \u00f3timos momentos e gerou sua incr\u00edvel \u201cPara o Mano Caetano\u201d. Acertou Ca\u00ea \u00e0 queima-roupa, brindando-o com o maravilhoso ep\u00edteto \u201cdandi dend\u00ea\u201d, batendo forte, mas tamb\u00e9m o reverenciando como mestre ao mesmo tempo. A discuss\u00e3o virou at\u00e9 mat\u00e9ria no Fant\u00e1stico. Havia ali um di\u00e1logo interessant\u00edssimo entre duas vertentes nem sempre opostas da can\u00e7\u00e3o brasileira, entre o tropicalismo e uma gera\u00e7\u00e3o roqueira que o absorveu e negou ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que parece que foi justamente isso que voc\u00ea perdeu, Lob\u00e3o, a capacidade de dialogar, entrando numa certa \u201cd\u00e9cadence sans \u00e9l\u00e9gance\u201d. Tornou-se uma das figuras beligerantes de \u201cpenas afiadas e garganta acelerada\u201d t\u00e3o bem descritas numa coluna recente do Thomaz Wood Jr.<\/p>\n<p>Andou injuriando por a\u00ed gente como Chico, Tom, Gil e tantos outros. N\u00e3o me entenda mal, acho saud\u00e1vel questionar \u00edcones, em arte nada deve ser sagrado. H\u00e1 de fato, muito o que se discutir na postura aristocr\u00e1tica e mesmo no conjunto da obra de nossos medalh\u00f5es (vide o papel\u00e3o que fizeram na quest\u00e3o das biografias).<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que nem a quase extinta bossa-nova, nem a sua filha MPB, como fizeram crer, s\u00e3o capazes de representar e traduzir o pa\u00eds, se \u00e9 que isso um dia chegou a acontecer.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a sua virul\u00eancia leviana, o seu jeito de atacar os consensos sem nada de novo para oferecer n\u00e3o me parece rebeldia, mas uma outra coisinha que \u00e0s vezes \u00e9 confundida ingenuamente com iconoclastia: niilismo. Isso mesmo, uma negatividade incapaz de criar qualquer horizonte.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente o contr\u00e1rio do que faz o artista. Se \u00e9 o artista quem puxa o n\u00f3 da realidade e faz de tudo que v\u00ea um \u201clink\u201d para a cria\u00e7\u00e3o, o difamador maledicente usa da ret\u00f3rica apenas para destruir e mortificar.<\/p>\n<p>Sabe, Lobo, a gota d\u2019\u00e1gua que me motivou a escrever esta carta-belisc\u00e3o foi a besteira que voc\u00ea falou a respeito dos Racionais MC\u2019s, um grupo que sempre admirei e que tem como l\u00edder aquele que \u00e9, sem d\u00favida, o melhor letrista a despontar no Brasil nos \u00faltimos 25 anos. (Se voc\u00ea n\u00e3o acredita, ou\u00e7a \u201cEu to ouvindo algu\u00e9m me chamar\u201d ou \u201cCap\u00edtulo 4, vers\u00edculo 3\u201d). Procure saber.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Lob\u00e3o, os Racionais s\u00e3o mesmo, como voc\u00ea escreveu no \u00faltimo livro que lan\u00e7ou, \u201co bra\u00e7o armado do PT\u201d? Como \u00e9 isso? Panteras-negras-bolivarianos? Ou uma fac\u00e7\u00e3o leninista do PCC?<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, recentemente voc\u00ea voltou a provocar, chamando, em sua coluna na Veja, os Racionais, o MST e outros de \u201crebeldes chapa-branca\u201d.<\/p>\n<p>Tentando botar uma pimenta na sua salada envenenada maluca, disse que Mano Brown e seus manos \u201csobem nos palanques, t\u00eam o benepl\u00e1cito da m\u00eddia oficial bancada pelo governo e, mesmo assim, s\u00e3o revoltad\u00edssimos com o sistema!\u201d. Uma frase acusat\u00f3ria com vestes de den\u00fancia desprovida de qualquer dado concreto, que desemboca rasteiramente numa bobagem malvada e infame.<\/p>\n<p>Como se os Racionais n\u00e3o tivessem legitimidade para falar em nome da periferia. Como se qualquer discurso socialmente engajado fosse oportunismo. Ou os pr\u00f3prios rappers fossem apenas populistas que se beneficiam de um discurso revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Lob\u00e3o, o golpe foi baixo, mas o movimento previs\u00edvel demais. Voc\u00ea apenas pega o que outros articulistas de direita falam sobre Lula e encaixa grosseiramente em Mano Brown.<\/p>\n<p>Voc\u00ea que viveu e cantou sua vida bandida no Leblon deveria ter mais boa vontade com o relato daqueles que vivem a vida loka nas ruas das Ruandas brasileiras. O Haiti \u00e9 aqui, Lobo.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso te ver reagir assim uma das express\u00f5es mais interessantes surgidas no Brasil dos anos 90, d\u00e9cada em que o rock dos 80 foi perdendo a for\u00e7a at\u00e9 virar praticamente s\u00f3 a saudade da Legi\u00e3o e o \u201cretorno triunfante\u201d do Capital Inicial.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 engra\u00e7ado, pois foi justamente o rap, como o Chico Buarque notou, que fez com que a viol\u00eancia real do pa\u00eds passasse a jorrar na m\u00fasica brasileira, sedimentada desde os anos 30 em torno da ideia de concilia\u00e7\u00e3o e apaziguamento das tens\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Se para voc\u00ea a MPB \u00e9 \u201cpaumolesc\u00eancia\u201d e o rap oportunismo, o que sobrar\u00e1? Respondo: niilismo. L\u00e1grimas no escuro.<\/p>\n<p>Lob\u00e3o, voc\u00ea gritou \u201cLula\u201d no Faust\u00e3o, em 89, e, pelo andar da carruagem, qualquer dia ainda vai gritar \u201cOlavo de Carvalho!\u201d no Circo Voador. O problema, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a sua \u201cconvers\u00e3o\u201d. \u00a0O triste \u00e9 ver um m\u00fasico talentoso virando apenas e t\u00e3o somente um polemista, espalhando niilismo coxinha e faturando com a idiotiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a polariza\u00e7\u00e3o burra. Lobo de patas dadas com as raposas, papagaiando e batendo palma pra macaco. Para um ex-f\u00e3 \u00e9 um espet\u00e1culo triste.<\/p>\n<p>Greil Marcus, considerado por muitos o maior cr\u00edtico musical americano, definiu o ethos do rock como \u201cuma afronta \u00e0 entropia\u201d e \u201cum combate contra a mesmice\u201d. Talvez esses elementos estejam no \u00edmpeto das suas cr\u00edticas, Lob\u00e3o, mas te falta uma no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de hegemonia e contra-hegemonia, para saber que hoje \u00e9 voc\u00ea, n\u00e3o o Mano Brown, quem est\u00e1 do lado mais poderoso, do lado daqueles que d\u00e3o as cartas mais valiosas no pa\u00eds e no mundo, valendo-se do controle da economia e da m\u00eddia. N\u00e3o, Lob\u00e3o, os comunistas n\u00e3o mandam no Brasil. Voc\u00ea ainda n\u00e3o percebeu?<\/p>\n<p>A triste conclus\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 que talvez sejam justamente besteiras infundadas desse tipo que os seus novos admiradores querem ler. Eu n\u00e3o, me inclua fora dessa. Daqui em diante, dan\u00e7arei \u201cCora\u00e7\u00f5es Psicod\u00e9licos\u201d nas festas (como resistir?) E s\u00f3.<\/p>\n<p>Um abra\u00e7o sincero e um gancho metaf\u00f3rico de esquerda, do teu ex-f\u00e3,<\/p>\n<p>Pedro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por Pedro Sprejer e publicado originalmente na\u00a0Polivox Eu te acompanho desde meados dos anos 80, quando, ainda crian\u00e7a, pulava na frente da TV e do r\u00e1dio ao som de \u201cVida Bandida\u201d e \u201cCora\u00e7\u00f5es Psicod\u00e9licos\u201d. Essas e outras can\u00e7\u00f5es constitu\u00edram o meu repert\u00f3rio afetivo-musical e sempre olho para elas com carinho. 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