{"id":253,"date":"2009-04-27T10:30:00","date_gmt":"2009-04-27T13:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2009\/04\/27\/licao-de-casa-2\/"},"modified":"2009-04-27T10:30:00","modified_gmt":"2009-04-27T13:30:00","slug":"licao-de-casa-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2009\/04\/27\/licao-de-casa-2\/","title":{"rendered":"LI\u00c7\u00c3O DE CASA"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cEu  havia passado uma reda\u00e7\u00e3o para a turma e estava corrigindo as provas, quando dois alunos come\u00e7aram a discutir. Da\u00ed partiram para xingamentos pesados.<br \/>De repente, um dos alunos tirou uma faca da bolsa e avan\u00e7ou para cima do colega. Imediatamente,  fui at\u00e9 eles e impedi que a agress\u00e3o se consumasse, embora os palavr\u00f5es continuassem.<\/p>\n<p>Pedi que os dois alunos deixassem a sala de aula e disse que comunicaria o fato \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da escola.<\/p>\n<p>Eles se recusaram a sair e continuaram se xingando.<\/p>\n<p>Insisti que eles se retirassem e um deles, ao sair, bateu a porta da sala de aula com for\u00e7a.<\/p>\n<p>Fui atr\u00e1s do menino, fiz com que ele voltasse e se desculpasse.<\/p>\n<p>A\u00ed aconteceu o inesperado. Em vez de se desculpar, o menino  virou-se para mim e disse com arrog\u00e2ncia<\/p>\n<p>-Eu sei onde a senhora mora, onde os pais da senhora moram e que horas a senhora chega em casa de noite. N\u00e3o d\u00ea mole comigo que eu te acerto&#8230;<\/p>\n<p>Pelo tom de voz, percebi que o menino n\u00e3o estava brincando.<\/p>\n<p>Fui \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da escola, comuniquei o fato e disse que aquilo era caso para puni\u00e7\u00e3o rigorosa. A diretora procurou contemporizar e falou que iria suspender por tr\u00eas dias os alunos que haviam brigado. Nada mais do que isso.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que, pouco tempo depois, a m\u00e3e do aluno que me amea\u00e7ou, que nunca havia participado de nenhuma atividade na escola, me procurou para dizer que eu havia sido grosseira com o filho dela, que ele ainda era uma crian\u00e7a e que iria me denunciar na justi\u00e7a..<\/p>\n<p>Tentei explicar que o filho dela  havia puxado a faca para um aluno e amea\u00e7ado a mim e \u00e0 minha fam\u00edlia, mas nada adiantou. O filho estava certo e eu errada. Ponto final.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve puni\u00e7\u00e3o alguma para os alunos que brigaram na sala de aula e o menino que me amea\u00e7ou tornou-se ainda mais arrogante, como se fosse uma esp\u00e9cie de her\u00f3i numa turma formada basicamente por filhos de fam\u00edlias carentes da periferia, onde na aus\u00eancia do poder p\u00fablico, a viol\u00eancia \u00e9 regra.<\/p>\n<p>Depois daquele fato lament\u00e1vel,  minha situa\u00e7\u00e3o diante dos alunos se tornou t\u00e3o insustent\u00e1vel que decidi solicitar afastamento da escola. <\/p>\n<p>N\u00e3o sou de desistir f\u00e1cil, acredito na for\u00e7a transformadora da educa\u00e7\u00e3o, mas esse tipo de situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 quase regra, d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, como se a escola n\u00e3o significasse para aqueles meninos e meninas uma oportunidade de inclus\u00e3o social. <\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, parece que n\u00e3o significa mesmo.<\/p>\n<p>Vou continuar sendo professora, porque essa \u00e9 minha voca\u00e7\u00e3o, mas entendo que precisamos repensar n\u00e3o apenas a escola, mas a sociedade como um todo.<\/p>\n<p>O que esperar de uma sociedade em que uma crian\u00e7a, por for\u00e7a da conjuntura social  do meio em que vive, torna-se um marginal em potencial?\u201d<\/strong><br \/>o-o-o-o-o-<\/p>\n<p>O depoimento acima foi prestado por uma professora da rede p\u00fablica em Itabuna.<\/p>\n<p>Deve servir de reflex\u00e3o para o modelo de cidade, de estado e de pa\u00eds que estamos construindo.<\/p>\n<p>Ou desconstruindo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu havia passado uma reda\u00e7\u00e3o para a turma e estava corrigindo as provas, quando dois alunos come\u00e7aram a discutir. 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