{"id":239,"date":"2009-04-15T08:50:00","date_gmt":"2009-04-15T11:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2009\/04\/15\/um-texto-que-v-nao-vai-ler\/"},"modified":"2009-04-15T08:50:00","modified_gmt":"2009-04-15T11:50:00","slug":"um-texto-que-v-nao-vai-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2009\/04\/15\/um-texto-que-v-nao-vai-ler\/","title":{"rendered":"Um texto que V. n\u00e3o vai ler"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SeXLdmQ6w6I\/AAAAAAAAAac\/WCisW32-ofQ\/s1600-h\/texto+embaralhado.jpg\"><img style=\"float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 316px;\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SeXLdmQ6w6I\/AAAAAAAAAac\/WCisW32-ofQ\/s320\/texto+embaralhado.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5324885843783631778\" \/><\/a><br \/>V. tem 32 anos, \u00e9 casada, um filho, empregada dom\u00e9stica, mora num lugar paup\u00e9rrimo e de nome obsceno na periferia de Itabuna, chamado, sabe-se l\u00e1 porque,  Buraco da Gia.<\/p>\n<p>O lugar, que n\u00e3o pode ser em hip\u00f3tese alguma chamado de bairro, \u00e9 a s\u00edntese de todo tipo de aus\u00eancia de servi\u00e7os p\u00fablicos. N\u00e3o tem escola, n\u00e3o tem posto de sa\u00fade, n\u00e3o tem pavimenta\u00e7\u00e3o. A coleta de lixo e o abastecimento de \u00e1gua s\u00e3o precar\u00edssimos.<\/p>\n<p>Em per\u00edodos eleitorais, o Buraco da Gia costuma receber candidatos em busca de votos e munidos de promessas de melhorias.<\/p>\n<p>Conquistados os votos, as melhorias n\u00e3o saem da categoria promessa e o Buraco da Gia volta a ser o lugar de nome obsceno, habitado por gente honesta e trabalhadora, como a dom\u00e9stica V., que d\u00e1 um duro danado para sobreviver com dignidade.<\/p>\n<p>Mas V., al\u00e9m de morar no Buraco da Gia e ter que faltar ao trabalho quando chove demais, tem uma caracter\u00edstica que a poderia tornar diferente, mas lamentavelmente a iguala a  milh\u00f5es de baianos: n\u00e3o sabe ler nem escrever.<\/p>\n<p>\u00c9 analfabeta.<\/p>\n<p>Falar em analfabetismo num pa\u00eds de tecnologia de ponta, de acesso a internet em qualquer ponta de rua (inclusive no Buraco da Gia), de universaliza\u00e7\u00e3o do ensino, parece um contra-senso, um mergulho nos meados do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de contra-senso, nem V. \u00e9 uma personagem ex\u00f3tica, uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com dados da Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, existem na Bahia, cerca de dois milh\u00f5es e cem mil pessoas com mais de 15 anos, como V., que n\u00e3o sabem ler nem escrever.<\/p>\n<p>Isso, sem contar os chamados analfabetos funcionais, gente que em tese sabe ler e escrever, mas na pr\u00e1tica precisa de ajuda at\u00e9 para identificar o \u00f4nibus que os leva de casa para o trabalho e para quem o jornal di\u00e1rio \u00e9 apenas um monte de figuras incompreens\u00edveis.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que, ainda segundo a Secret\u00e1ria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, a Bahia ocupe o pen\u00faltimo lugar no \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica no Brasil. O ensino b\u00e1sico possui, al\u00e9m de escolas com estrutura prec\u00e1ria, um d\u00e9ficit de cerca de 5 mil professores.<\/p>\n<p>Nesse sentido, iniciativas como o programa Todos pela Alfabetiza\u00e7\u00e3o (TOPA), desenvolvido pela Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o e amplamente respaldado pelo Governo da Bahia, tornam-se fundamentais para mudar uma realidade vergonhosa, fruto de d\u00e9cadas de descaso com a educa\u00e7\u00e3o e de sucateamento do ensino p\u00fablico.<\/p>\n<p>O TOPA tem uma meta ambiciosa: alfabetizar um milh\u00e3o de pessoas e reduzir em 50% o \u00edndice de analfabetismo da Bahia. \u00c9 um projeto que demanda n\u00e3o apenas esfor\u00e7o governamental, mas a participa\u00e7\u00e3o de todos os segmentos da sociedade organizada. <\/p>\n<p>Passa pela articula\u00e7\u00e3o de prefeituras, faculdades, clubes de servi\u00e7o, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es, ONGs, toda envolvidas numa miss\u00e3o dif\u00edcil, mas imprescind\u00edvel, abrindo as portas da inclus\u00e3o social para centenas de milhares de baianos, privados do mais elementar dos direitos.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o da Bahia, Adeum Sauer, entre tantos desafios que vem enfrentando, ter\u00e1 dado uma contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel ao Estado que o acolheu, caso o TOPA atinja seus objetivos. <\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 -\u00e9 bom que fique bem claro- uma vit\u00f3ria particular, visto que se trata de uma a\u00e7\u00e3o conjunta, uma pol\u00edtica de governo. .<\/p>\n<p>Ser\u00e1 principalmente, uma vit\u00f3ria de gente com V. que poder\u00e1 mostrar e  tamb\u00e9m assinar com orgulho seu nome e sobrenome,  hoje substitu\u00eddos pela impress\u00e3o digital; sair do anonimato e das trevas do analfabetismo e descortinar um novo mundo, deixando de ser apenas um n\u00famero numa  estat\u00edstica vergonhosa e se tornar, com todas as letras, uma cidad\u00e3 de verdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V. tem 32 anos, \u00e9 casada, um filho, empregada dom\u00e9stica, mora num lugar paup\u00e9rrimo e de nome obsceno na periferia de Itabuna, chamado, sabe-se l\u00e1 porque, Buraco da Gia. 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