{"id":187032,"date":"2026-04-22T07:00:50","date_gmt":"2026-04-22T10:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=187032"},"modified":"2026-04-22T07:14:17","modified_gmt":"2026-04-22T10:14:17","slug":"arquitetura-de-prateleira-projetos-a-preco-de-banana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2026\/04\/22\/arquitetura-de-prateleira-projetos-a-preco-de-banana\/","title":{"rendered":"Arquitetura de prateleira: projetos a pre\u00e7o de banana"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-187033\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/PHOTO-2026-04-21-12-03-15.jpg\" alt=\"\" width=\"266\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/PHOTO-2026-04-21-12-03-15.jpg 550w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/PHOTO-2026-04-21-12-03-15-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/PHOTO-2026-04-21-12-03-15-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 266px) 100vw, 266px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Kiko de Assis<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A casa virou produto. E pior: produto barato. Em poucos cliques, qualquer pessoa pode hoje comprar um projeto pronto na internet, uma \u201ccaixa\u201d gen\u00e9rica, empilhada em linhas retas, vendida como solu\u00e7\u00e3o moderna e eficiente. Sem contexto, sem clima, sem hist\u00f3ria. Um arquivo digital que promete resolver tudo, mas que, na pr\u00e1tica, ignora quase tudo que importa.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 apenas a exist\u00eancia desses projetos. \u00c9 a naturaliza\u00e7\u00e3o desse modelo. \u00c9 o fato de que estamos aceitando, sem o devido inc\u00f4modo, que a arquitetura seja tratada como mercadoria de prateleira, replic\u00e1vel, impessoal e descart\u00e1vel.<\/p>\n<p>A \u201ccaixa de concreto\u201d deixou de ser apenas uma linguagem para se tornar um sintoma. Sob o discurso da economia e da praticidade, consolidou-se como padr\u00e3o. R\u00edgida, repetitiva, indiferente ao entorno. Uma solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o escuta o lugar nem quem vai habit\u00e1-lo.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>E, nesse processo, o arquiteto vai sendo silenciosamente rebaixado. De autor a operador. De int\u00e9rprete a replicador. Projetos comprados a pre\u00e7o de banana passam a orientar decis\u00f5es que deveriam nascer do di\u00e1logo, da leitura do territ\u00f3rio, da compreens\u00e3o do modo de vida.<br \/>\nH\u00e1 uma invers\u00e3o perigosa em curso. O cliente, em vez de ser atendido em sua singularidade, \u00e9 encaixado em um molde pr\u00e9-definido. E isso vem sendo vendido como \u201cminimalismo\u201d, \u201clinguagem contempor\u00e2nea\u201d ou \u201cotimiza\u00e7\u00e3o de custos\u201d. Mas n\u00e3o h\u00e1 sofistica\u00e7\u00e3o em cortar qualidade. N\u00e3o h\u00e1<\/p>\n<p>conceito em ignorar o clima. N\u00e3o h\u00e1 intelig\u00eancia em padronizar a vida.<br \/>\nO resultado est\u00e1 \u00e0 vista: materiais de baixa durabilidade, ambientes termicamente desconfort\u00e1veis, espa\u00e7os que n\u00e3o envelhecem bem, nem t\u00e9cnica, nem afetivamente. Casas que exigem corre\u00e7\u00f5es constantes. Edif\u00edcios que dependem de solu\u00e7\u00f5es artificiais para compensar erros b\u00e1sicos de projeto&#8230;<\/p>\n<p>No Sul da Bahia, essa distor\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais evidente. Em uma regi\u00e3o onde a tradi\u00e7\u00e3o construtiva sempre soube lidar com o calor, com a ventila\u00e7\u00e3o, com a rela\u00e7\u00e3o entre dentro e fora, o que se v\u00ea hoje \u00e9 o avan\u00e7o de uma arquitetura que fecha, isola e desconsidera. Varandas desaparecem.<\/p>\n<p>Sombreamentos s\u00e3o ignorados. A paisagem vira pano de fundo, quando poderia ser protagonista.<br \/>\nPerde-se, junto com isso, algo mais sutil e mais grave: a personalidade do habitar. A leveza, o ritmo, a informalidade, a tal \u201calma buc\u00f3lica\u201d que nunca foi sin\u00f4nimo de atraso, mas de intelig\u00eancia adaptativa. Em seu lugar, surge uma est\u00e9tica dura, gen\u00e9rica, que poderia estar em qualquer lugar e, por isso mesmo, n\u00e3o pertence a lugar nenhum.<\/p>\n<p>Arquitetura n\u00e3o \u00e9 cat\u00e1logo. N\u00e3o \u00e9 download. N\u00e3o \u00e9 f\u00f3rmula replic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando aceitamos isso, abrimos m\u00e3o do que sustenta a profiss\u00e3o: a capacidade de interpretar realidades e transformar necessidades em espa\u00e7o qualificado. Mais do que isso, abrimos m\u00e3o da responsabilidade \u00e9tica de construir melhor, n\u00e3o apenas mais barato.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o custo importa. Sempre importou. Mas economia sem crit\u00e9rio \u00e9 s\u00f3 precariza\u00e7\u00e3o com outro nome. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a qualidade dos projetos. \u00c9 o pr\u00f3prio sentido da arquitetura. Se continuarmos nesse caminho, corremos o risco de nos tornar irrelevantes, profissionais que apenas aplicam solu\u00e7\u00f5es compradas, repetem tend\u00eancias e legitimam decis\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o, de fato, nossas.<\/p>\n<p>A pergunta que fica \u00e9 simples, e inc\u00f4moda: estamos projetando ou apenas reproduzindo?<br \/>\nPorque, quando a arquitetura vira c\u00f3pia, o arquiteto vira sombra. E uma profiss\u00e3o que aceita viver de reflexo, mais cedo ou mais tarde, deixa de ter luz pr\u00f3pria<\/p>\n<p>&#8212;-<\/p>\n<p><em>Kiko de Assis \u00e9 Arquiteto e Urbanista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kiko de Assis &nbsp; A casa virou produto. E pior: produto barato. Em poucos cliques, qualquer pessoa pode hoje comprar um projeto pronto na internet, uma \u201ccaixa\u201d gen\u00e9rica, empilhada em linhas retas, vendida como solu\u00e7\u00e3o moderna e eficiente. Sem contexto, sem clima, sem hist\u00f3ria. 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