{"id":185808,"date":"2026-03-15T18:12:32","date_gmt":"2026-03-15T21:12:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=185808"},"modified":"2026-03-16T08:17:25","modified_gmt":"2026-03-16T11:17:25","slug":"para-o-domingo-nao-ficar-sem-cronica-a-15-de-marco-de-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2026\/03\/15\/para-o-domingo-nao-ficar-sem-cronica-a-15-de-marco-de-2026\/","title":{"rendered":"Para o domingo n\u00e3o ficar sem cr\u00f4nica, a 15 de mar\u00e7o de 2026"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-185809\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/crmo.jpg\" alt=\"\" width=\"419\" height=\"405\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/crmo.jpg 464w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/crmo-300x290.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 419px) 100vw, 419px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Paloma Amado<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-35009\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paloma-amado-282x300.jpg\" alt=\"\" width=\"238\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paloma-amado-282x300.jpg 282w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paloma-amado.jpg 745w\" sizes=\"(max-width: 238px) 100vw, 238px\" \/>Amigos, pedi a meu pai para publicar este texto seu sobre Asunci\u00f3n Flores, em semana que ouvi \u00cdndia e mais uma quantidade enorme de guar\u00e2nias paraguaias, que acalentaram meu cora\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, tive a alegria de ter encontrado meu irm\u00e3o paraguaio Oscar Llanes, jurista e diplomata, e seu filho, meu sobrinho Oscarcito. Vieram \u00e0 Bahia e pudemos nos abra\u00e7ar e trocar juras de amor fraternal. Pena que desta vez Mazhra, sua mulher, ela irm\u00e3 tamb\u00e9m, n\u00e3o veio.<\/p>\n<p>Quando mam\u00e3e ficava muito triste, colocava na vitrola um disco de harpa paraguaia. J\u00e1 sab\u00edamos que n\u00e3o se devia mexer com ela. Eu muitas vezes deitava no seu rega\u00e7o, quietinha, e ela me fazia cafun\u00e9. Quando fico triste, logo vem na minha cabe\u00e7a Sublime a\u00f1oranza, trago en alma mia&#8230; N\u00e3o estou triste, mas um resto da virose Baiana System (e eu nem fui ao carnaval!!!) ficou e me amoleceu de tal maneira, que beira a tristeza. O sistema interno entendeu como harpa paraguaia!<\/p>\n<p>A vontade \u00e9 somente de voltar para a cama, assistir ao programa rural, ver o pared\u00e3o do BBB &#8212; Puxei a minha m\u00e3e, assisto BBB! \u2013 e tomar um caf\u00e9 forte para ver se eu pego no tranco.<\/p>\n<p>Sentei aqui para resgatar alguma coisa de h\u00e1 muito tempo, Moustaki veio comigo para auxiliar no texto, encontrei logo este pequeno texto de Navega\u00e7\u00e3o de Cabotagem \u2013 ele meteu logo a pata e acrescentou pequena indica\u00e7\u00e3o em polon\u00eas&#8230; \u2013 e acabei escrevendo mais que podia. Saio agora correndo para postar no Face, fazer o caf\u00e9 e me deitar.<\/p>\n<p>Bom domingo a todos.<br \/>\n(Viena, 1956 \u2014 o paraguaio)<\/p>\n<p>Faminto, fome de comida e de mulher, assim encontro o compositor Jos\u00e9 Asunci\u00f3n Flores, meu camarada, personalidade de relevo no pec\u00ea paraguaio, meu amigo de velha data, vem-me consignado pelos companheiros argentinos, traz-me carta de Rodolfo Ghioldi. Passa por Viena a caminho de Moscou, os sovi\u00e9ticos demonstram interesse por suas composi\u00e7\u00f5es, a celebridade do autor de \u00cdndia e sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abrem-lhe as portas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Asunci\u00f3n recebera as passagens enviadas pelos russos \u2014 Buenos Aires, Londres, Viena, Moscou e vice-versa \u2014, \u00e9 tudo quanto tem para a viagem intercontinental. Pobre de pobreza guarani, total, os pesos conseguidos com \u00c9lvio Romero, compatriota e correligion\u00e1rio de partido e de pen\u00faria, ele os gastou no aeroporto de Buenos Aires em sandu\u00edches e frutas: gordo e glut\u00e3o, eterno esfomeado.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa, n\u00e3o ter\u00e1 problemas de nenhuma esp\u00e9cie, pois \u00e9 convidado da Uni\u00e3o de M\u00fasicos Sovi\u00e9ticos, est\u00e1 por conta da URSS, a URSS \u00e9 poderosa e rica, nada lhe faltar\u00e1 a partir do momento em que ponha o p\u00e9 no avi\u00e3o, sua confian\u00e7a nos poderes do socialismo \u00e9 absoluta.<\/p>\n<p>N\u00e3o decorreu com tanta facilidade quanto pensara. As confus\u00f5es come\u00e7aram no aeroporto de Londres, onde desembarcou por volta do meio-dia, ap\u00f3s travessia longa e cansativa \u2014 naquele tempo de avi\u00f5es a h\u00e9lices, o v\u00f4o Buenos Aires\u2013Londres devia durar boas trinta horas, talvez mais. O amigo \u00c9lvio, viajante experiente, havia-lhe explicado: desembarcas, te levam para a sala de tr\u00e2nsito, o v\u00f4o para a \u00c1ustria sai uma hora depois, ficas atento, quando ouvires chamar os passageiros para Viena, embarcas, em Viena ter\u00e1 gente te esperando, tudo em ordem, n\u00e3o pode haver complica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve. Asunci\u00f3n n\u00e3o falava outra l\u00edngua al\u00e9m do guarani e do espanhol: desembarcou, levaram-no \u00e0 sala de tr\u00e2nsito onde se sentou \u00e0 espera que anunciassem o embarque para Viena, devia suceder da\u00ed a uma hora, n\u00e3o sucedeu. Quer dizer, sucedeu o v\u00f4o para Wien, como iria o compositor adivinhar que Wien era Viena? Sobra\u00e7ando a pasta repleta de composi\u00e7\u00f5es, ouvido atento, como recomendara \u00c9lvio, n\u00e3o ouviu jamais a palavra m\u00e1gica, Viena, pronunciada ao microfone. Chegara \u00e0 sala de tr\u00e2nsito pouco depois do meio-dia, \u00e0s seis da tarde, apertado para fazer pipi, morto de fome, sem saber a quem se dirigir, Asunci\u00f3n, de h\u00e1bito cidad\u00e3o calmo, afobou-se.<\/p>\n<p>\u00c9lvio lhe recomendara n\u00e3o abandonar a sala de tr\u00e2nsito, mas Asunci\u00f3n n\u00e3o teve alternativa, abriu uma porta, enxergou do outro lado balc\u00e3o com letreiro: INFORMATION, dirigiu-se para a mo\u00e7a que atendia, come\u00e7ou a explicar a situa\u00e7\u00e3o, a lady ao balc\u00e3o n\u00e3o falava espanhol, Flores ia tentar a l\u00edngua guarani, estava quase mijando nas cal\u00e7as quando, ao escutar os gritos: soy el compositor Asunci\u00f3n Flores, autor de \u00cdndia, um senhor elegant\u00e9rrimo se aproximou e lhe perguntou o porqu\u00ea de tamanha agita\u00e7\u00e3o. Tratava-se do Embaixador da Argentina em Londres, acabava de chegar de Manchester, ouviu a hist\u00f3ria de Asunci\u00f3n, come\u00e7ou por indicar-lhe o toalete, esperou que voltasse.<\/p>\n<p>Admirador do m\u00fasico paraguaio \u2014 quem n\u00e3o o era na Am\u00e9rica Latina? \u2014 tratou de resolver-lhe os problemas, v\u00e1rios: visto de entrada na Inglaterra v\u00e1lido por vinte e quatro horas, revalida\u00e7\u00e3o da passagem, reserva de lugar no primeiro v\u00f4o do dia seguinte para Viena. Levou-o a um hotel pr\u00f3ximo do aeroporto, pagou-lhe quarto e jantar, pela manh\u00e3 mandaria o chofer ajud\u00e1-lo no embarque. Tudo em ordem, para finalizar pediu o aut\u00f3grafo do compositor: mi mujer canta en el ba\u00f1o sus guaranias.<\/p>\n<p>Foi assim que, sobra\u00e7ando a pasta repleta de partituras, da qual jamais se separava, Asunci\u00f3n Flores chegou a Viena com atraso de um dia. Ningu\u00e9m a esper\u00e1-lo, sua salva\u00e7\u00e3o foi a carta de Ghioldi para mim, no envelope o endere\u00e7o da sede do movimento da paz. L\u00e1 conseguiu chegar, me encontrou, paguei o t\u00e1xi.<\/p>\n<p>Asunci\u00f3n morria de fome, come\u00e7ava a morrer de fome cinco minutos ap\u00f3s ter almo\u00e7ado, levei-o a um restaurante, estava conosco a camarada que o Conselho Mundial da Paz designada para me servir de int\u00e9rprete, austr\u00edaca gorducha e sardenta, baixota, Asunci\u00f3n dividia os olhares de gula entre ela e o goulash, faminto de comida e de mulher, assim se declarara ao abra\u00e7ar-me, exigindo que eu lhe resolvesse as afli\u00e7\u00f5es \u2014 era dos que acreditavam que eu poderia solucionar qualquer problema. Fez-me uma revela\u00e7\u00e3o: cidad\u00e3o paraguaio, disse-me, ap\u00f3s quatro dias sem mulher j\u00e1 n\u00e3o leva em conta idade, ra\u00e7a e sexo, ele completara cinco dias.<\/p>\n<p>A sardenta, vendo-o gesticular, ansioso, quis saber o que se passava, porque estava t\u00e3o agoniado o camarada Flores \u2014 de quem eu j\u00e1 lhe dera as coordenadas, informando-a sobre as guar\u00e2nias e a popularidade. Expliquei-lhe ser ele paraguaio e que um paraguaio ap\u00f3s quatro dias sem mulher etecetera e tal. Perguntei-lhe se ela n\u00e3o se dispunha a resolver o problema do camarada, ali estava excelente ocasi\u00e3o para p\u00f4r em pr\u00e1tica o internacionalismo prolet\u00e1rio. Ouviu-me com aten\u00e7\u00e3o, depois mediu Asunci\u00f3n de alto a baixo, gordo e calvo, a cabe\u00e7a um queijo do reino, quis saber:<\/p>\n<p>\u2014 Ele \u00e9 mesmo muito c\u00e9lebre?<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00e8s c\u00e9l\u00e8bre! En Buenos Aires les femmes se battent pour coucher avec lui\u2026<\/p>\n<p>Novo exame do f\u00edsico do paraguaio, o resultado pareceu-me pessimista:<\/p>\n<p>\u2014 C\u00e9lebre somente na Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Vi a situa\u00e7\u00e3o periclitante, Asunci\u00f3n em maus len\u00e7\u00f3is, recorri aos princ\u00edpios:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o esque\u00e7as que as m\u00fasicas dele v\u00e3o ser tocadas em Moscou, ser\u00e1 a gl\u00f3ria universal. \u2014 Senti que a abalara, fui decisivo: \u2014 Tarefa de partido, minha bela.<br \/>\nArgumento \u00e9 argumento, a sardenta sorriu para o careca. Paguei a conta, me retirei discreto, deixei-os t\u00eate-\u00e0-t\u00eate, afinal Assunci\u00f3n me acreditava capaz de resolver qualquer problema, n\u00e3o podia abandon\u00e1-lo no alv\u00e9o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paloma Amado &nbsp; Amigos, pedi a meu pai para publicar este texto seu sobre Asunci\u00f3n Flores, em semana que ouvi \u00cdndia e mais uma quantidade enorme de guar\u00e2nias paraguaias, que acalentaram meu cora\u00e7\u00e3o. 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