{"id":180763,"date":"2025-10-10T19:30:29","date_gmt":"2025-10-10T22:30:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=180763"},"modified":"2025-10-10T17:05:04","modified_gmt":"2025-10-10T20:05:04","slug":"racismo-um-problema-estrutural-e-nao-um-posicionamento-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2025\/10\/10\/racismo-um-problema-estrutural-e-nao-um-posicionamento-moral\/","title":{"rendered":"Racismo: um problema estrutural e n\u00e3o um posicionamento moral"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-180764\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/rascismo.jpg\" alt=\"\" width=\"502\" height=\"251\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/rascismo.jpg 600w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/rascismo-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 502px) 100vw, 502px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>\u201cTudo que era negro, era considerado do dem\u00f4nio, <\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>virou branco e foi aceito, eu\u00a0chamo de blues, tudo \u00e9 blues.\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Marynna Trindade<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-180765\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-09-12-54-07.jpg\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-09-12-54-07.jpg 348w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/PHOTO-2025-10-09-12-54-07-266x300.jpg 266w\" sizes=\"(max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/>Ser negro no Brasil \u00e9 uma tarefa quase imposs\u00edvel. N\u00e3o falo apenas de cor de pele, mas de assumir uma identidade, uma cultura e uma hist\u00f3ria que nos foram negadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 aceitar que o cabelo crespo \u00e9 um s\u00edmbolo de resist\u00eancia, \u00e9 uma coroa, e por isso n\u00e3o deve ser tocado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 entender que h\u00e1 pessoas que morrem apenas por terem um fen\u00f3tipo diferente, por carregarem no corpo marcas que a sociedade insiste em associar ao feio, ao desarrumado, ao perigoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a, me ensinaram que a popula\u00e7\u00e3o negra havia sido escrava \u2014 e ponto. Como se antes disso n\u00e3o houvesse vida, reinos, sabedoria e cultura. Me disseram que o povo negro havia aceitado a escravid\u00e3o sem resist\u00eancia e que a princesa Isabel havia sido sua grande salvadora. Mas essa \u00e9 a vers\u00e3o contada pelos vencedores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com o tempo, compreendi que a popula\u00e7\u00e3o negra foi escravizada, e n\u00e3o escrava \u2014 porque ningu\u00e9m nasce para servir, mas foi colocado nessa condi\u00e7\u00e3o pela brutalidade de outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As pessoas que chegaram ao Brasil nos navios negreiros n\u00e3o eram objetos. Eram reis, rainhas, chefes de tribos, homens e mulheres que tinham uma vida, uma hist\u00f3ria, uma cultura \u2014 tudo arrancado \u00e0 for\u00e7a. O que restou foi o peso da explora\u00e7\u00e3o e a marca de um sistema que transformou o africano em mercadoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O racismo, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o moral ou de opini\u00e3o individual. \u00c9 um problema estrutural, constru\u00eddo ao longo dos s\u00e9culos para manter privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo que algu\u00e9m diga \u201cn\u00e3o sou racista\u201d, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente, porque o sil\u00eancio e a in\u00e9rcia tamb\u00e9m sustentam a opress\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As leis do passado confirmam isso. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1824 dizia que a educa\u00e7\u00e3o era um direito de todos, mas ela foi negada \u00e0s pessoas negras. A Lei de Terras de 1850 impediu que os libertos tivessem onde morar ou plantar. A aboli\u00e7\u00e3o veio sem repara\u00e7\u00e3o, sem acolhimento, sem dignidade. Libertaram corpos, mas mantiveram as correntes na mente da sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vivemos at\u00e9 hoje as consequ\u00eancias de um pa\u00eds que nunca reparou seus erros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um pa\u00eds onde a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 negra, mas \u00e9 justamente essa maioria que \u00e9 morta, presa, julgada e esquecida. Onde a mulher negra \u00e9 a mais desvalorizada, a menos amada e a mais cobrada. A solid\u00e3o da mulher negra \u00e9 real \u2014 resultado direto de s\u00e9culos de desumaniza\u00e7\u00e3o e de um amor que nunca foi ensinado a nos enxergar como inteiras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A favela nasceu porque ningu\u00e9m queria contratar m\u00e3o de obra negra. E l\u00e1, entre becos e barracos, o povo negro construiu comunidade, arte, f\u00e9, resist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o pre\u00e7o \u00e9 alto: todos os dias, jovens negros morrem e s\u00e3o transformados em estat\u00edsticas. Quantas crian\u00e7as negras ainda precisar\u00e3o morrer para que a sociedade entenda que o problema n\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo, e sim o sistema?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sistema \u00e9 o rev\u00f3lver que aponta. \u00c9 a fome que sentimos \u00e0 noite quando n\u00e3o temos nada. \u00c9 a resposta para por que tantos g\u00eanios negros morrem sem reconhecimento. \u00c9 o medo do beco escuro, da rua deserta, at\u00e9 do homem fardado\u2014 porque nunca sabemos se ele vai nos proteger ou nos violentar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ser negro no Brasil \u00e9 resistir. Estar vivo \u00e9 um ato pol\u00edtico. Amar a pr\u00f3pria pele \u00e9 um ato de coragem. E lutar todos os dias para existir \u00e9 o grito que meu povo ainda carrega preso na garganta \u2014 o grito de quem foi destru\u00eddo, mas ainda assim se recusa a deixar de sonhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>Marynna Trindade \u00e9 ex-aluna do Col\u00e9gio Estadual Democr\u00e1tico An\u00edzio Teixeira\u00a0 em Potiragu\u00e1 \u00a0estudante na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, cursando o ll semestre de Engenharia Agr\u00e1ria, tem 18 anos e \u00e9 sou filha, neta, irm\u00e3 e afilhada de pessoas que pretende orgulhar. Seu objetivo \u00e9 trazer mais equidade e visibilidade as lutas s\u00f3cias e pol\u00edticas e assim, transformar o mundo em um lugar melhor mesmo que em passos pequenos.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u201cTudo que era negro, era considerado do dem\u00f4nio, virou branco e foi aceito, eu\u00a0chamo de blues, tudo \u00e9 blues.\u201d &nbsp; Marynna Trindade Ser negro no Brasil \u00e9 uma tarefa quase imposs\u00edvel. 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