{"id":177107,"date":"2025-06-28T11:40:26","date_gmt":"2025-06-28T14:40:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=177107"},"modified":"2025-06-28T11:19:02","modified_gmt":"2025-06-28T14:19:02","slug":"cronica-de-um-espirito-ilheense-minha-homenagem-a-ilheus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2025\/06\/28\/cronica-de-um-espirito-ilheense-minha-homenagem-a-ilheus\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica de um Esp\u00edrito ilheense (minha homenagem a Ilh\u00e9us)"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-138587\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/ilheus.jpg\" alt=\"\" width=\"407\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/ilheus.jpg 407w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/ilheus-300x181.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 407px) 100vw, 407px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Gerson Marques\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft  wp-image-89874\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/gerson-marques-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"168\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/gerson-marques-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/gerson-marques-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/gerson-marques.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 168px) 100vw, 168px\" \/>Conhecedor das coisas do c\u00e9u, pe\u00e7o sua permiss\u00e3o para contar uma hist\u00f3ria que me foi revelada por uma das mais altas autoridades celestiais, o anjo Grammat\u00e9as, respons\u00e1vel, por des\u00edgnio divino, pelos assuntos de encarna\u00e7\u00f5es e desencarna\u00e7\u00f5es das almas de Ilh\u00e9us, por todo o sempre.<\/p>\n<p>O mar calmo daquele 20 de janeiro de 1536 permitiu uma navega\u00e7\u00e3o tranquila at\u00e9 o interior da charmosa enseada. O piloto fez a manobra certa, venceu as fortes ondas da arrebenta\u00e7\u00e3o contornando o pernabuco a bombordo, e entrou com eleg\u00e2ncia numa encantadora enseada cercada de coqueiros e florestas. Uma a uma, as demais quatro caravelas da frota repetiram o movimento. A ancoragem serena marcou o fim de uma longa e perigosa travessia iniciada quatro meses antes em Portugal. Era ver\u00e3o nos Ilh\u00e9us j\u00e1 batizada de S\u00e3o Jorge, e ali aportavam as primeiras embarca\u00e7\u00f5es de colonos enviadas pelo donat\u00e1rio da Capitania, Jorge Figueiredo Correia.<\/p>\n<p>A exuberante colina, coberta por uma densa floresta que dominava a entrada da ba\u00eda, foi logo apontada como o ponto ideal para a constru\u00e7\u00e3o das primeiras moradias e fortifica\u00e7\u00f5es. A data deu nome ao local: Outeiro de S\u00e3o Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os tripulantes, destacava-se Manoel Ant\u00f4nio Gonzaga, natural de Vila Nova de Gaia, \u00e0s margens do Douro, no Minho portugu\u00eas, experiente nas navega\u00e7\u00f5es pelos A\u00e7ores e pela costa africana. Coube-lhe a miss\u00e3o de derrubar as primeiras \u00e1rvores, abrir uma clareira e iniciar a constru\u00e7\u00e3o das habita\u00e7\u00f5es. No dia seguinte, acompanhado de tr\u00eas marujos, subiu com grande esfor\u00e7o o outeiro, enfrentando mato fechado, bichos e terreno \u00edngreme, at\u00e9 encontrar um pequeno plat\u00f4. De l\u00e1, deslumbraram-se com a paisagem: o Atl\u00e2ntico se descortinava em esplendor de um lado; do outro, a enseada interna, que vista dali ganhava os ares de uma pequena ba\u00eda, onde a frota de cinco caravelas estava ancorada.<\/p>\n<p>Quando se preparavam para descer, foram surpreendidos por uma cena ins\u00f3lita: uma fam\u00edlia de macacos os observava do alto de uma \u00e1rvore. Manoel, o \u00fanico a portar uma velha besta carregada com p\u00f3lvora e chumbo, n\u00e3o hesitou. Apontou-a para a f\u00eamea que carregava um filhote, enquanto um macho robusto a vigiava de um galho mais alto. Com a mira feita, prestes a disparar, ouviu a macaca exclamar, em bom portugu\u00eas e voz firme:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4 In\u00e1cio, segura aqui o Ig\u00e1cio que eu vou ver se esse portugu\u00eas \u00e9 macho!<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>E desceu em disparada na dire\u00e7\u00e3o de Manoel. Completamente at\u00f4nito, mais pelo fato de ouvir um bicho falar do que pela amea\u00e7a em si, o marujo fugiu desengon\u00e7ado, numa corrida cega, at\u00e9 escorregar na borda de um precip\u00edcio e cair de grande altura, falecendo no ato. Assim desencarnava o primeiro esp\u00edrito da coloniza\u00e7\u00e3o ilheense.<\/p>\n<p>Em 1567, a Vila de S\u00e3o Jorge dos Ilh\u00e9us j\u00e1 se espalhava do plat\u00f4 do Outeiro ao baixio plano e alagadi\u00e7o que circundava o sop\u00e9 do morro. Uma rua de areia e mato j\u00e1 se formava da beira-mar at\u00e9 a enseada interior, onde um cais improvisado recebia as raras caravelas que singravam a costa, ligando os pequenos povoados a Salvador e Lisboa.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, travava-se no Rio de Janeiro (ainda um povoamento mal resolvido), uma renhida disputa entre franceses, liderados por Nicolau Durand de Villegagnon, e portugueses, sob o comando de Est\u00e1cio de S\u00e1. Diante da dificuldade em expulsar os franceses da Guanabara, o Governador-Geral do Brasil, Mem de S\u00e1, resolveu organizar refor\u00e7os. Recrutou, em Ilh\u00e9us, um ex\u00e9rcito mambembe formado por \u00edndios, caboclos e alguns poucos portugueses.<\/p>\n<p>Partiram por terra rumo ao Rio em 1567. Entre os ilheenses destacou-se Oleg\u00e1rio Vitalino de Jesus, o Cani\u00e7a, filho de um portugu\u00eas com uma \u00edndia, nascido no Outeiro em 1545. Segundo o anjo Grammat\u00e9as, esta foi a segunda encarna\u00e7\u00e3o do mesmo esp\u00edrito que antes habitara o corpo de Manoel (aquele dos macacos).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s vinte dias de caminhada, a tropa baiana chegou ao campo de batalha. Cani\u00e7a dominava com perfei\u00e7\u00e3o a arte do arco e flecha e contribuiu decisivamente para a vit\u00f3ria portuguesa, matando um bom n\u00famero de franceses. Condecorado como her\u00f3i por Mem de S\u00e1, retornou a Ilh\u00e9us, onde viveu de ca\u00e7a, pesca e gl\u00f3ria at\u00e9 morrer, j\u00e1 idoso, engasgado com uma espinha de peixe e farinha.<\/p>\n<p>Todos sabemos que, no c\u00e9u, o tempo n\u00e3o se mede como no nosso calend\u00e1rio. Assim, apenas um s\u00e9culo e meio depois (pela nossa contagem), o esp\u00edrito reencarna novamente no Outeiro de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, desta vez no corpo de um menino batizado como Malaquias Herrera, filho de Dona Ana de Deus, descendente de escravos, e de seu Ant\u00f4nio Astolfo Herrera, espanhol de sotaque inconfund\u00edvel.<\/p>\n<p>Herrera, como preferia ser chamado, cresceu moleque entre os mangues, praias e beira de cais. Apaixonado por cavalos, virou vaqueiro, ora trabalhando nos pastos vizinhos, ora tocando boiada sert\u00e3o adentro, de onde trazia o gado para embarcar rumo a Salvador.<\/p>\n<p>Certa feita, sobreveio uma seca medonha. Nunca se vira coisa igual. J\u00e1 eram mais de oito meses sem chover. O povo vivia em rezas e prociss\u00f5es, pedindo a intercess\u00e3o de S\u00e3o Jorge junto a Deus para mandar \u00e1gua \u00e0 terra. A bicharada definhava at\u00e9 morrer; nas matas, as \u00e1rvores se envergavam sobre troncos fr\u00e1geis, doentes de secura.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo fim de 1789, pouco antes do Natal, formou-se uma tempestade anunciada: o c\u00e9u se cobriu de nuvens pesadas, negras como o breu. Mas os dias passaram e nenhuma gota caiu. O povo perdeu a paci\u00eancia e passou a duvidar de Deus, sem entender tamanho castigo: viviam cercados de \u00e1gua com o mar salgado aqui, e outro doce nos c\u00e9us.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Herrera teve um sonho revelador. Nele, montado num cavalo branco como o de S\u00e3o Jorge, empunhava um var\u00e3o comprido como uma espada. Com ele, espetava as nuvens at\u00e9 libertar a chuva. Ao despertar, entendeu a mensagem divina e tratou de agir. Munido de tr\u00eas d\u00fazias de varas de pod\u00e3o, na manh\u00e3 seguinte selou seu cavalo baio, e saiu cedo, sob um c\u00e9u encardido e carregado de nuvens pesadas, uma chuva represada.<\/p>\n<p>Cavalgou at\u00e9 uma alta serra nas nascentes do Rio das Cachoeiras. L\u00e1 chegando, amarrou os pod\u00f5es uns aos outros, formando uma vara de longo alcance. Montado no cavalo, fincou o var\u00e3o nas nuvens, como no sonho. Um trov\u00e3o estrondoso abalou a natureza, e o c\u00e9u desabou em \u00e1gua. Raios e clar\u00f5es dominaram os c\u00e9us. No mesmo instante, Herrera e o cavalo baio foram fulminados por um raio, transformando-se, junto com o var\u00e3o, numa escultura de carv\u00e3o perfeita. Uma obra de arte da natureza, de realismo impressionante, que foi transportada para a pra\u00e7a p\u00fablica no plat\u00f4 do Outeiro de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Durante muitos anos, foi venerado como santo&#8230; por vezes confundido com o pr\u00f3prio S\u00e3o Jorge.<\/p>\n<p>J\u00e1 era Ilh\u00e9us cidade quando, em 20 de julho de 1873, o anjo Grammat\u00e9as mandou o esp\u00edrito reencarnar mais uma vez, como sempre, no Outeiro de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Nascia o menino Epaminondas Nabuco Castro. Aos onze anos, perdeu o pai. A m\u00e3e, vi\u00fava, nunca se casou, e criou Epaminondas para cuidar das fazendas de cacau que o pai deixara na regi\u00e3o do Rio do Bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Ainda jovem, assumiu os neg\u00f3cios da fazenda. Nunca se casou, nem conheceu os deleites do amor. Frequentava com devo\u00e7\u00e3o missas, prociss\u00f5es, novenas e enterros. Chegou a cogitar o sacerd\u00f3cio, mas desistiu diante da insist\u00eancia da m\u00e3e, que o queria \u00e0 frente das propriedades.<\/p>\n<p>J\u00e1 passados os trinta e cinco anos, soube, pela boca de um marinheiro, que um brasileiro chamado Santos Dumont havia feito voar um aparelho mais pesado que o ar \u2014 um aeroplano. A not\u00edcia o comoveu at\u00e9 o \u00e2mago. Sentiu-se iluminado por uma intelig\u00eancia s\u00fabita. Passou dias olhando o c\u00e9u, acompanhando o voo dos urubus e murmurando ideias estranhas.<\/p>\n<p>Somente em 1908, com quase dois anos de atraso, teve em m\u00e3os um exemplar do Le Petit Journal, trazido pelo vapor Ita, com uma tosca imagem do 14-Bis. O entusiasmo foi tanto que decidiu construir seu pr\u00f3prio aeroplano: mandou cortar madeira de lei da fazenda e trazer para Ilh\u00e9us. Pregou, serrou, e montou um artefato desengon\u00e7ado, com asas planas e um corpo central onde fixou uma cadeira do mobili\u00e1rio de casa. Batizou-o, satisfeito, de Macuco dos Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p>No dia 28 de junho de 1909, para homenagear o anivers\u00e1rio da cidade, resolveu inaugurar seu invento com um voo. Logo cedo, posicionou a engenhoca num desfiladeiro do Outeiro, vestiu um terno de linho branco e chap\u00e9u de palha, sentou-se no cockpit e ordenou:<\/p>\n<p>\u2014 Empurrem!<\/p>\n<p>Os vizinhos, prevendo o desastre, recusaram-se. Epaminondas foi ent\u00e3o a sua casa e chamou dois antigos empregados, que, sem op\u00e7\u00e3o, obedeceram. O Macuco deslizou pela pirambeira, ergueu-se no ar por breves segundos, como uma promessa, e logo despencou, espatifando-se nas pedras bas\u00e1lticas ainda vis\u00edveis nas proximidades do Cristo. Assim se dava a quarta desencarna\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito que, vindo de Portugal, teimava em reencarnar sempre no mesmo ponto da Terra: o Outeiro de S\u00e3o Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>Para encerrar assunto t\u00e3o tenebroso, revelou-me o anjo Grammat\u00e9as que o dito esp\u00edrito ainda vagueia por a\u00ed \u2014 atualmente encarnado num sujeito nascido no Outeiro, de nome Alain Delon (sem rela\u00e7\u00e3o com o franc\u00eas), com cerca de sessenta anos, fissurado em gravar o ronco dos motores da F\u00f3rmula 1. Dizem que conseguiu registrar o som do lend\u00e1rio motor da McLaren-Honda de Ayrton Senna&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Obs. Nosso amigo Alan Delon, o unico que n\u00e3o era personagem ficticio desta cronica, desencarnou ha pouco mais de tres meses, sempre morando em seu Outeiro querido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gerson Marques\u00a0 &nbsp; Conhecedor das coisas do c\u00e9u, pe\u00e7o sua permiss\u00e3o para contar uma hist\u00f3ria que me foi revelada por uma das mais altas autoridades celestiais, o anjo Grammat\u00e9as, respons\u00e1vel, por des\u00edgnio divino, pelos assuntos de encarna\u00e7\u00f5es e desencarna\u00e7\u00f5es das almas de Ilh\u00e9us, por todo o sempre. 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