{"id":166973,"date":"2024-09-01T17:50:03","date_gmt":"2024-09-01T20:50:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=166973"},"modified":"2024-08-31T18:12:49","modified_gmt":"2024-08-31T21:12:49","slug":"maze-torquato-chotil-lanca-mares-agitados-na-periferia-dos-anos-1970","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2024\/09\/01\/maze-torquato-chotil-lanca-mares-agitados-na-periferia-dos-anos-1970\/","title":{"rendered":"Maz\u00e9 Torquato Chotil lan\u00e7a \u00b4Mares agitados: na periferia dos anos 1970\u00b4"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-166975\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/PHOTO-2024-08-31-15-08-39.jpg\" alt=\"\" width=\"334\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/PHOTO-2024-08-31-15-08-39.jpg 383w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/PHOTO-2024-08-31-15-08-39-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/>A escritora brasileira Maz\u00e9 Torquato Chotil est\u00e1 lan\u00e7ando o romance \u00a0<em>Mares agitados: na periferia dos anos 1970.\u00a0 <\/em>Maz\u00e9 \u00e9 jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e p\u00f3s-doutora (EHESS), nasceu em Gl\u00f3ria de Dourados-MS, morou em Osasco-SP e vive em Paris desde 1985.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-166974\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/PHOTO-2024-08-31-15-08-40-300x284.jpg\" alt=\"\" width=\"235\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/PHOTO-2024-08-31-15-08-40-300x284.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/PHOTO-2024-08-31-15-08-40.jpg 582w\" sizes=\"(max-width: 235px) 100vw, 235px\" \/>Tem 13 livros publicados (cinco em franc\u00eas). Fazem parte deles: <em>Na sombra do ip\u00ea<\/em> e <em>No Crep\u00fasculo da vida<\/em> (Patu\u00e1); <em>Lembran\u00e7as do s\u00edtio<\/em> \/ <em>Mon enfance dans le Mato Grosso<\/em>; <em>Lembran\u00e7as da vila<\/em>; <em>Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiow\u00e1 e Terena<\/em>; <em>Jos\u00e9 Ibrahim: O l\u00edder da grande greve que afrontou a ditadura<\/em>; <em>Trabalhadores Exilados; Maria d\u2019Apparecida negroluminosa voz; e<\/em> <em>Na rota de traficantes de obras de arte<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Paris, trabalha na divulga\u00e7\u00e3o da cultura brasileira, sobretudo a liter\u00e1ria. Foi editora da 00h00 (cat\u00e1logo lus\u00f3fono) e escreveu \u2013 e escreve \u2013 para a imprensa brasileira e sites europeus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Confira um trecho do romance:<\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Come\u00e7o de dezembro de 1974.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s percorrer cerca de mil quil\u00f4metros, o \u00f4nibus para na Rodovi\u00e1ria de S\u00e3o Paulo, frente \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de trem J\u00falio Prestes. Abro os olhos pesados de sono com o toque da amiga no meu bra\u00e7o:<\/p>\n<p>\u2013 Chegamos.<\/p>\n<p>Sou atra\u00edda pelas luzes coloridas. Somos tr\u00eas, ou melhor, quatro, a cunhada da amiga tem um beb\u00ea nos bra\u00e7os. Tenho dezesseis anos e muita vontade de descobrir o novo mundo que se abre a mim na grande cidade, a capital econ\u00f4mica do pa\u00eds. Uma cidade de muitas possibilidades, que se orgulhava de construir um pr\u00e9dio por dia j\u00e1 nos anos 1950. Eu espero realizar meu sonho de entrar para a faculdade. Ser\u00e1 que conseguirei? Ainda est\u00e1 escuro. Espero que o sol n\u00e3o tarde a se mostrar. Nada vi da viagem noturna, a n\u00e3o ser as rodovi\u00e1rias, onde ajudei a preparar mamadeiras para o rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p>A noite foi curta, dormida sentada na poltrona do \u00f4nibus, um sono picado com as paradas\u2026. Espero dormir em uma cama hoje \u00e0 noite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mais de 45 anos se passaram entre aquele momento e a escrita destas linhas. As amigas estavam indo para a mesma cidade onde morava minha irm\u00e3 mais velha, na periferia oeste da Grande S\u00e3o Paulo. O pai da crian\u00e7a ainda n\u00e3o conhecia o filho, s\u00f3 soubera da sua exist\u00eancia quando ele nascera, havia alguns dias. Tinha partido para a cidade grande procurar trabalho, a fim de ter os recursos para continuar os estudos e obter o sustento da fam\u00edlia que desejava formar. As amigas, tal como eu, desejavam se empregar pelas mesmas raz\u00f5es. Nossa cidadezinha n\u00e3o tinha faculdade naqueles anos 1970; hoje, a segunda cidade do estado, a cerca de setenta quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia do meu vilarejo, tem muitas possibilidades de estudos universit\u00e1rios, sem falar da quantidade de faculdades na capital do novo estado, Mato Grosso do Sul. <\/em><\/p>\n<p><em>Trabalho tamb\u00e9m n\u00e3o havia para todos os jovens da minha idade, e os da gera\u00e7\u00e3o precedente, na casa dos vinte anos na \u00e9poca. Raz\u00e3o pela qual muitos dos meus amigos e amigas j\u00e1 estavam em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul trabalhando para pagar os estudos, j\u00e1 que os pais, com tantos filhos, nem sempre possu\u00edam os meios financeiros para assumir os custos de alojamento, alimenta\u00e7\u00e3o e faculdade. As universidades p\u00fablicas eram raras, portanto, dif\u00edceis de entrar.<\/em><\/p>\n<p><em>O pai da crian\u00e7a, meu amigo Oswaldo, tendo partido meses antes, encontrou trabalho na sede de um grande banco, o Bradesco, na Cidade de Deus, em Osasco. Minhas amigas me deixariam na casa da minha irm\u00e3, n\u00e3o muito longe de onde morava o irm\u00e3o e onde iriam viver. Viajar com elas foi uma grande oportunidade. Havia muito tempo queria conhecer S\u00e3o Paulo, a capital econ\u00f4mica do Brasil, onde poderia continuar os estudos. Mas de que jeito, como viajar sem companhia? \u201cMo\u00e7a s\u00e9ria\u201d n\u00e3o viajava sozinha, sem risco de ficar falada e n\u00e3o arrumar mais marido, segundo minha m\u00e3e. Papai tinha que cuidar do com\u00e9rcio e mam\u00e3e da casa, sem falar dos custos que a viagem representaria. N\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinha sido poss\u00edvel!<\/em><\/p>\n<p><em>Sentindo que os recursos estavam se mostrando insuficientes para manter os filhos maiores em escola privada, j\u00e1 que a p\u00fablica n\u00e3o abrira cursos para todas as s\u00e9ries naquele ano, papai resolveu mudar-se para S\u00e3o Paulo, onde viviam alguns familiares. No ano anterior, tinha trocado seu s\u00edtio de caf\u00e9 por duas casas residenciais em Osasco, lugar para onde esperava se mudar desde que vendesse as mercadorias do com\u00e9rcio e alugasse o sal\u00e3o comercial e a casa residencial nos fundos do terreno, onde mor\u00e1vamos.<\/em><\/p>\n<p><em>Os sitiantes, parte importante dos nossos clientes, estavam escasseando. Quem se deu bem com as boas colheitas estava vendendo seus lotes para comprar, ou obter do governo, terras mais extensas na parte norte do estado do Mato Grosso ou em Rond\u00f4nia. Dessa forma, come\u00e7aram as concentra\u00e7\u00f5es de s\u00edtios, criando grandes fazendas para a produ\u00e7\u00e3o de gado, que n\u00e3o demandavam muitos pe\u00f5es. Com essa transforma\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se foram as planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9, amea\u00e7adas anualmente pelas geadas e pela pol\u00edtica do governo.<\/em><\/p>\n<p><em>Sem falar que o vilarejo tinha levado um choque com as eros\u00f5es que criaram buracos enormes na terra arenosa, com a falta de canaliza\u00e7\u00e3o de \u00e1guas pluviais e de esgoto, e sem vegeta\u00e7\u00e3o que pudesse resguardar a terra do perigo. At\u00e9 o Ex\u00e9rcito tinha ido socorrer o munic\u00edpio sem recursos. A mudan\u00e7a estava, portanto, anunciada, mas, visto as dificuldades de tal empreitada, n\u00e3o acreditei que pudesse acontecer. Ou n\u00e3o quis acreditar.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO processo memorial\u00edstico da escrita de Maz\u00e9 Torquato Chotil lembrou-me a obra liter\u00e1ria da escritora e professora francesa Annie Ernaux (1940), laureada com o Nobel de Literatura de 2022. Annie \u00e9 autobiogr\u00e1fica, com romances que remetem \u00e0 sociologia. Com coragem, intelig\u00eancia, sentimento sem sentimentalismo, ela vai penetrando em suas ra\u00edzes, trazendo estranhamentos coletivos de sua mem\u00f3ria pessoal. Vai tra\u00e7ando um vasto panorama, explorando seus cadernos de anota\u00e7\u00f5es, planos e reflex\u00f5es. Em <em>O Lugar<\/em>, um cl\u00e1ssico moderno, humano e original, estabelece as bases para o projeto liter\u00e1rio que a levaria \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o: a \u201cautossociobiografia\u201d. Debru\u00e7a-se sobre a vida do pai para esmiu\u00e7ar rela\u00e7\u00f5es familiares, de classe, misturando hist\u00f3ria pessoal e social\u201d. <strong>Raquel Naveira<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Site da Patua&#8217; <a href=\"https:\/\/www.editorapatua.com.br\/mares-agitados-na-periferia-dos-anos-1970-romance-de-maze-torquato-chotil\/p\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.editorapatua.com.br\/mares-agitados-na-periferia-dos-anos-1970-romance-de-maze-torquato-chotil\/p&amp;source=gmail&amp;ust=1725222300174000&amp;usg=AOvVaw1edDlND7Tjl1nY6FT0x2cq\">https:\/\/www.editorapatua.com.<wbr \/>br\/mares-agitados-na-<wbr \/>periferia-dos-anos-1970-<wbr \/>romance-de-maze-torquato-<wbr \/>chotil\/p<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escritora brasileira Maz\u00e9 Torquato Chotil est\u00e1 lan\u00e7ando o romance \u00a0Mares agitados: na periferia dos anos 1970.\u00a0 Maz\u00e9 \u00e9 jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e p\u00f3s-doutora (EHESS), nasceu em Gl\u00f3ria de Dourados-MS, morou em Osasco-SP e vive em Paris desde 1985. Tem 13 livros publicados (cinco em franc\u00eas). Fazem parte deles: Na sombra do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":166975,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[937,10617,38336],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166973"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=166973"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166973\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":166976,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166973\/revisions\/166976"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166975"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=166973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=166973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=166973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}