{"id":162286,"date":"2024-04-29T12:13:31","date_gmt":"2024-04-29T15:13:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=162286"},"modified":"2024-04-29T12:13:31","modified_gmt":"2024-04-29T15:13:31","slug":"laurenio-leite-sombra-lanca-heidegger-e-o-sentido-como-lugar-na-bienal-do-livro-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2024\/04\/29\/laurenio-leite-sombra-lanca-heidegger-e-o-sentido-como-lugar-na-bienal-do-livro-bahia\/","title":{"rendered":"Laurenio Leite Sombra  lan\u00e7a \u201cHeidegger e o sentido como lugar\u201d na Bienal do Livro Bahia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-162288\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/livro.jpg\" alt=\"\" width=\"348\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/livro.jpg 371w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/livro-227x300.jpg 227w\" sizes=\"(max-width: 348px) 100vw, 348px\" \/><\/p>\n<p>O escritor\u00a0\u00a0lan\u00e7ou o livro \u201cHeidegger e o sentido como lugar- A transforma\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica de sua filosofia\u201d, na Bienal do Livro Bahia 2024, que est\u00e1 sendo realizada em Salvador.<\/p>\n<div id=\"attachment_162287\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-162287\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-162287\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Laurenio-Sombra.jpg\" alt=\"\" width=\"365\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Laurenio-Sombra.jpg 600w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Laurenio-Sombra-300x148.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 365px) 100vw, 365px\" \/><p id=\"caption-attachment-162287\" class=\"wp-caption-text\">Laurenio Leite Sombra<\/p><\/div>\n<p>No artigo &#8220;Uma releitura da filosofia de Laurenio Sombra: o conceito de Rede de Sentidos&#8221;, Marcelo Vinicius Miranda Barros, graduado em Psicologia pela UEFS e mestrando em Filosofia pela UFBA, faz uma resenha da obra de Laurenio.<\/p>\n<p>Sem a inten\u00e7\u00e3o de esgotamento do tema, aqui propomos uma releitura a respeito da filosofia de Laurenio Sombra, especificamente sobre o seu conceito de Rede de Sentidos, que entendemos abranger tanto os aspectos antol\u00f3gicos quanto sociais para compreender o modo de o sujeito agir e significar o mundo.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nPALAVRAS-CHAVE:\u00a0Rede de sentidos, Signos, Linguagem, Ser social, Ontologia.<\/p>\n<p>1.0 INTRODU\u00c7\u00c3O<br \/>\nLaurenio Leite Sombra \u00e9 um fil\u00f3sofo brasileiro, doutor em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), que vem desenvolvendo o conceito \u201cRede de Sentidos\u201d, no qual busca analisar o sujeito no seu aspecto hermen\u00eautico e pol\u00edtico, contudo, para n\u00f3s, h\u00e1 tamb\u00e9m na sua filosofia uma ontologia e que serve de base ao social, para compreender o modo de o sujeito agir e significar o mundo, o que amplia a complexidade e a riqueza de seu pensamento.<\/p>\n<p>A partir desse conceito, Laurenio Sombra discute a quest\u00e3o de identidade dos sujeitos, tema este que vem ganhando cada vez mais import\u00e2ncia nas \u00faltimas d\u00e9cadas, e, assim, colocando Sombra cada vez mais no rol de fil\u00f3sofos atuais como John Holloway, Judith Butler, dentre outros. Afirmamos isso n\u00e3o como compara\u00e7\u00e3o entre esses fil\u00f3sofos, j\u00e1 que, para n\u00f3s, isso n\u00e3o tem sentido nesta atividade, mas para destacar a import\u00e2ncia da originalidade do pensamento de Sombra no que diz respeito \u00e0 identidade do sujeito que, por sua vez, se desdobra na rela\u00e7\u00e3o sujeito-mundo e suas implica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A filosofia de Laurenio Sombra abarca tamb\u00e9m quest\u00f5es bem espec\u00edficas, como a identidade dos sujeitos, discutida no seu trabalho \u201cIdentidade dos sujeitos: linguagem, constitui\u00e7\u00e3o de sentido e valor\u201d (2015); a Pol\u00edtica, vide sua an\u00e1lise \u201cEsc\u00e2ndalo da Pol\u00edtica Brasileira: o Sentido da Desigualdade\u201d (2015); o Direito, que \u00e9 bem apresentada no seu cap\u00edtulo \u201cDireito, interpreta\u00e7\u00e3o e antagonismo: a disputa do sentido\u201d (2018) presente na obra colet\u00e2nea \u201cO Direito e a Educa\u00e7\u00e3o do Campo: experi\u00eancias, aprendizagens, reflex\u00f5es\u201d, publicada pela Editora UEFS; e a pr\u00f3pria Filosofia, em especial a filosofia na Am\u00e9rica Latina, com seu trabalho \u201cO Ocidente como Problema Filos\u00f3fico\u201d (2017). Al\u00e9m disso, a sua filosofia vem igualmente confirmando sua import\u00e2ncia no \u00e2mbito da Educa\u00e7\u00e3o, como pode ser vista em \u201cDescolonizar a educa\u00e7\u00e3o: pensando a reprodu\u00e7\u00e3o e a contrarreprodu\u00e7\u00e3o\u201d, de Samuel Sepulveda Teixeira Leite; e o pr\u00f3prio texto do fil\u00f3sofo intitulado \u201cSujeitos que objetivam, objetos que assujeitam: insurg\u00eancia e forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, que ser\u00e1 publicado em um livro pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). H\u00e1 outros trabalhos diretamente e indiretamente ligados \u00e0 filosofia de Sombra, mas resolvemos tecer somente um resumo a respeito deles. No mais, quase todas essas atividades est\u00e3o dispon\u00edveis na internet.<\/p>\n<p>Nesse apanhado geral, apontamos para a diversidade de leituras poss\u00edvel de ser realizada a partir do conceito de Rede de Sentidos desenvolvido por Sombra. Contudo, o nosso objetivo aqui \u00e9 uma leitura ontol\u00f3gica do conceito em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>2.0 REDE DE SENTIDOS<br \/>\nO fil\u00f3sofo Laur\u00eanio Sombra vem desenvolvendo um\u00a0m\u00e9todo\u00a0de investiga\u00e7\u00e3o. Ele tem formulado uma teoria com uma perspectiva que considera simultaneamente a hermen\u00eautica e a pol\u00edtica, na qual o \u201cnosso modo de agir e significar o mundo \u00e9 sempre antecedido por uma configura\u00e7\u00e3o profunda, n\u00e3o totalmente consciente e explicit\u00e1vel, a que chamei de\u00a0rede de sentidos\u201d (SOMBRA, 2017, p. 198). De antem\u00e3o, percebemos a possibilidade de uma\u00a0leitura\u00a0ontol\u00f3gica do conceito de Rede de Sentidos, que caracteriza uma esp\u00e9cie de \u201cconfigura\u00e7\u00e3o profunda\u201d do ser humano em estar ligado ao fato hist\u00f3rico e dele fazer parte. Assim, reintroduz-se, a seu modo, a din\u00e2mica no ser humano que n\u00e3o se resume aos aspectos dos fen\u00f4menos ps\u00edquicos ou meramente psicol\u00f3gicos, e, ao mesmo tempo, situa o sujeito tamb\u00e9m como ser social e hist\u00f3rico \u2013 ou seja: situa-o no mundo ou o coloca em um contexto ou condi\u00e7\u00e3o \u2013, j\u00e1 que \u201ca rede de sentidos se d\u00e1 no contexto de uma temporalidade\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 101).<\/p>\n<p>Entendemos a exist\u00eancia humana de forma s\u00f3cio-hist\u00f3rica, porque, ainda, o fil\u00f3sofo afirma que \u201ca rede de sentidos apresenta uma\u00a0temporalidade, o que pressup\u00f5e certa correla\u00e7\u00e3o com processos hist\u00f3ricos e com expectativas futuras\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 64). Grosso modo, a Rede de Sentidos se constitui de maneira intersubjetiva e possui uma natureza social (SOMBRA, 2015b). Veremos mais sobre isso.<\/p>\n<p>Antes de adentrarmos realmente ao conceito de Rede de Sentidos, precisamos compreender como Sombra concebe a linguagem, j\u00e1 que esta ser\u00e1 importante tamb\u00e9m para fundamentar tal conceito. Assim, ele nos diz que, aqui, a linguagem \u00e9 \u201ccomo um sistema articulado de signos capazes de perpetuar no tempo e multiplicar quase indefinidamente as nossas possibilidades de experi\u00eancia em novos\u00a0habitat\u00a0que s\u00e3o constru\u00eddos e forjados a partir dela\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 98). Isto \u00e9, certas articula\u00e7\u00f5es de signos s\u00e3o continuadas \u2013 ou n\u00e3o \u2013, permitindo o sujeito transformar o mundo e ser transformado a cada experi\u00eancia que vivencia pela \/ na linguagem.<\/p>\n<p>Laurenio Leite Sombra (2015a) vai nos dizer ainda como \u00e9 necess\u00e1rio pensar os\u00a0signos\u00a0na articula\u00e7\u00e3o da linguagem, considerando a perspectiva de sua filosofia. Para o fil\u00f3sofo, os signos devem estar associados a\u00a0significantes, \u201cinstrumentos\u201d, que a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de apreender, ponderando a sua singularidade em um determinado tempo e associados a outros significados que nos parece durar no tempo, mas que tamb\u00e9m \u00e9 pass\u00edvel de ser transformado historicamente. Aqui se percebe o aspecto convencionado socialmente do significado destes signos.<\/p>\n<p>Entendemos que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de significante com o significado, e toda essa rela\u00e7\u00e3o configura o signo. O significado \u00e9 extremamente vol\u00e1til, porque ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cferramenta\u201d com a qual o sujeito opera os significantes na pr\u00e1tica, articulando os signos que se transformam num dado contexto ou em momento hist\u00f3rico. Nessa acep\u00e7\u00e3o, a no\u00e7\u00e3o de signo deveria ser relativizada, j\u00e1 que uma rela\u00e7\u00e3o mais ou menos fixa entre significante e significado estaria restrita a um dado contexto, situa\u00e7\u00e3o ou, para sermos mais direto, a uma determinada Rede de Sentidos.<\/p>\n<p>Apesar dos significados serem transformados historicamente, n\u00e3o fazemos da hist\u00f3ria um \u201cesp\u00edrito que paira no mundo\u201d, uma esp\u00e9cie de \u201cteoria do reflexo\u201d, no qual os significados s\u00f3 s\u00e3o um reflexo da hist\u00f3ria, ou que a hist\u00f3ria seria algo metaf\u00edsico no seu sentido cl\u00e1ssico e que, assim, estamos simplesmente assujeitados a ela. N\u00e3o \u00e9 isso, porque, como explica Laurenio Sombra, \u201cos signos s\u00e3o elaborados tendo em vista o compartilhamento entre indiv\u00edduos, eles s\u00e3o de natureza eminentemente\u00a0social\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 98). Somos n\u00f3s mesmos, como sujeitos, que organizamos signos, lhe atribuindo valores, isto \u00e9, tais signos s\u00e3o organizados em uma hierarquia, onde valorizamos mais uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros, ou criamos uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia entre eles etc., de acordo com o contexto em que estamos inseridos, s\u00f3 que esse contexto ainda \u00e9 modificado na medida em que os signos tamb\u00e9m os s\u00e3o (SOMBRA, 2015a). Numa palavra, \u201cs\u00e3o os sujeitos que agem e produzem significa\u00e7\u00e3o a partir de uma rede de sentidos. S\u00e3o eles que as \u2018incorporam\u2019 no seu cotidiano, e vivem a partir delas\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 65). H\u00e1, portanto, uma esp\u00e9cie de dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>Essa dial\u00e9tica pode ser entendida como Rede de Sentidos. Isso porque, os signos n\u00e3o s\u00e3o desenvolvidos isoladamente, ao contr\u00e1rio, eles s\u00e3o criados, desenvolvidos, aplicados em uma rede de valoriza\u00e7\u00e3o que lhes s\u00e3o relacionados. Essa rede \u00e9 o que Laurenio Sombra intitula de\u00a0rede de sentidos\u00a0(SOMBRA, 2015a).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m consideramos a exist\u00eancia de uma dial\u00e9tica na filosofia de Sombra porque<br \/>\nh\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de m\u00fatua pertin\u00eancia: de um lado, a rede de sentidos precisa dos signos para se potencializar. \u00c9 s\u00f3 em fun\u00e7\u00e3o dos signos que ela pode ter seu grau de amplitude, sua temporalidade amplificada. De outro, o pr\u00f3prio significado de cada um dos signos s\u00f3 pode ser compreendido no contexto dessa rede (SOMBRA, 2015a, p. 101).<\/p>\n<p>Se caso f\u00f4ssemos questionados a respeito de que essa rela\u00e7\u00e3o de m\u00fatua pertin\u00eancia, apontada pelo fil\u00f3sofo, n\u00e3o se caracteriza uma dial\u00e9tica aqui, \u00e9 preciso lembrar que na hist\u00f3ria da filosofia o termo \u201cdial\u00e9tica\u201d possui v\u00e1rios sentidos. Vide a diferen\u00e7a entre a dial\u00e9tica socr\u00e1tica e a dial\u00e9tica hegeliana, por exemplo. No mais, de certa forma, compactuamos a respeito disso com Deleuze e Guattari ao afirmarem que tamb\u00e9m \u201ca filosofia \u00e9 a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos\u201d (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 10), e com o fil\u00f3sofo Cossutta ao sustentar que \u201cas descri\u00e7\u00f5es, defini\u00e7\u00f5es, exemplos, conceitualiza\u00e7\u00f5es contribuem para a elabora\u00e7\u00e3o global do texto filos\u00f3fico\u201d (COSSUTTA, 1994, p. 99). Assim, conceituar uma dial\u00e9tica no pensamento de Sombra n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 poss\u00edvel, como nos permite facilitar o entendimento a respeito da dita rela\u00e7\u00e3o de m\u00fatua pertin\u00eancia entre signos e significados que chega at\u00e9 o sujeito hist\u00f3rico e vice-versa. Com outras palavras, a rela\u00e7\u00e3o de m\u00fatua pertin\u00eancia somente \u201cproduz\u201d sujeito na medida em que foi produzida por ele, pois se \u00e9 compreendido aqui que o humano est\u00e1 na linguagem, tamb\u00e9m \u00e9 compreendido que \u00e9 ele que faz a linguagem.<\/p>\n<p>O conceito\u00a0Rede de Sentidos\u00a0\u00e9 \u201cdividido\u201d em dois termos:\u00a0rede\u00a0e\u00a0sentidos. No caso,<br \/>\nusamos o termo\u00a0sentido, aqui, para abordar certa compreens\u00e3o abrangente, n\u00e3o totalmente explicit\u00e1vel e com algum grau de coer\u00eancia, basilar para uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es parciais, como a a\u00e7\u00e3o dos sujeitos, mas tamb\u00e9m a significa\u00e7\u00e3o de uma palavra ou de um enunciado\u00a0(SOMBRA, 2015a, p. 99).<\/p>\n<p>Entendemos tamb\u00e9m que quando dizemos que a rede de sentidos \u00e9 ontol\u00f3gica, estamos a dizer, para sermos mais espec\u00edficos, que \u00e9 o termo \u201csentido\u201d que \u00e9 ontol\u00f3gico. \u00c9 o \u201csentido\u201d da \u201cRede de sentidos\u201d que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o agir humano ou que permite um grau de coer\u00eancia n\u00e3o totalmente explicit\u00e1vel para a a\u00e7\u00e3o e a significa\u00e7\u00e3o por parte dos sujeitos. A respeito do termo \u201crede\u201d, este expressa toda essa complexidade ontol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Portanto, a rede de sentidos, como condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica para o sujeito no mundo, possui coer\u00eancia pela pr\u00f3pria estrutura valorativa ou sentidos. S\u00e3o tais valores, ou sentidos, que permitem uma coes\u00e3o \u00e0 rede de sentidos que, por sua vez, esta \u00e9 o contexto ou a condi\u00e7\u00e3o para uma transforma\u00e7\u00e3o ou extin\u00e7\u00e3o de um dado signo, permitindo os acontecimentos hist\u00f3ricos, por isso considerarmos aqui uma esp\u00e9cie de dial\u00e9tica, ali\u00e1s, \u00e9 esse pr\u00f3prio contexto como condi\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o de signos em si e vice-versa que \u00e9 a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>J\u00e1 o termo \u201crede\u00a0\u00e9 utilizado para denotar a complexidade da produ\u00e7\u00e3o de sentido: ela \u00e9 articulada a partir de diversos elementos conjugados e encarnados na rela\u00e7\u00e3o complexa do animal lingu\u00edstico com os signos\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 100). O animal lingu\u00edstico \u00e9 o ser que \u00e9 voltado para linguagem, que adere a uma linguagem. O ser humano nasce no mundo e vai adquirindo seu repert\u00f3rio lingu\u00edstico no decorrer de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Dissemos que a linguagem \u00e9 um sistema articulado de signos, mas a\u00a0rede\u00a0\u00e9 de tal complexidade que n\u00e3o pode ser considerada totalmente coerente, pelo menos n\u00e3o \u00e9 para a l\u00f3gica racional humana ou dita \u201cpura\u201d raz\u00e3o, at\u00e9 porque se a linguagem \u00e9 constitu\u00edda socialmente, ela at\u00e9 tenta dar conta do universal, mas lhe escapa o singular de uma pessoa, \u201cpodendo caber nela diversas rela\u00e7\u00f5es equ\u00edvocas sob o ponto de vista da linguagem\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 100). Contudo, algo de coerente precisa estar presente na rede de sentidos, da\u00ed considerarmos o universal e o singular, ou o objetivo e o subjetivo, do sujeito numa dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>O universal \u00e9 que lhe d\u00e1 uma coer\u00eancia ou uma norma, e o singular \u00e9 que foge da norma geral e que permite novos signos, ou seja, que permite a historia acontecer, mas n\u00e3o se trata de um acontecimento como algo meramente mec\u00e2nico. N\u00e3o se trata aqui de um determinismo, todavia de uma condi\u00e7\u00e3o. Por isso, Sombra afirmar\u00e1 que \u201cuma rede de sentidos, para ser constitu\u00edda como tal, deve ter natureza intersubjetiva e social, mas deve, necessariamente, ser absorvida subjetivamente por cada indiv\u00edduo\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 100).<\/p>\n<p>3.0 A REDE DE SENTIDOS E OS SIGNOS<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 rede de sentidos sem linguagem, como n\u00e3o h\u00e1 linguagem sem rede de sentidos, pois, como visto, especificamente, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de m\u00fatua pertin\u00eancia entre a rede de sentidos e os signos em um determinado ambiente. Assim, \u201c\u00e9 s\u00f3 em fun\u00e7\u00e3o da ambi\u00eancia de uma rede de sentidos que o signo pode ser completamente valorado e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ganhar significa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 101). A ambi\u00eancia \u00e9 de extrema import\u00e2ncia, j\u00e1 que a rede de sentidos se d\u00e1 no contexto de uma temporalidade. \u00c9 nessa temporalidade que o signo ter\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e, ao mesmo tempo, \u00e9 essa pr\u00e1tica valorada que transformar\u00e1 a tal temporalidade. Isto \u00e9, n\u00e3o podemos pensar o sujeito encarnado (de carne e osso)[1]\u00a0e concreto fora da rela\u00e7\u00e3o com os signos e estes, mesmo que existam antes daquele \u2013 como \u201ccerta ambi\u00eancia pr\u00e9via\u201d \u2013, n\u00e3o t\u00eam pr\u00e1tica fora dessa rela\u00e7\u00e3o, portanto, nessa rela\u00e7\u00e3o \u201cos signos tamb\u00e9m podem ser transformados e ganham novos significados, podendo mesmo perder totalmente sua fun\u00e7\u00e3o em determinado contexto hist\u00f3rico\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 101). Isso, grosso modo, \u00e9 uma das perspectivas que entendemos como \u00e9 a rede de sentidos, al\u00e9m de caracteriz\u00e1-la como uma dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>4.0 REDE DE SENTIDOS COMO ONTOLOGIA E CONCRETUDE<br \/>\nPor ser ainda ontol\u00f3gica, a rede de sentidos n\u00e3o se resume aos aspectos psicol\u00f3gicos humanos ou meramente cognitivos, ou seja, os sujeitos \u201cvivem\u00a0a rede de sentidos, n\u00e3o necessariamente de modo cognitivo\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 65), pois a rede \u00e9 algo como\u00a0pano de fundo\u00a0da exist\u00eancia humana ou configura\u00e7\u00e3o profunda, \u00e9 o que permite o sujeito ser um humano diante de sua linguagem peculiar. Mas a linguagem que possui certo car\u00e1ter universal, que est\u00e1 no campo do social, n\u00e3o abarca a singularidade do sujeito por completo, ou seja, os discursos n\u00e3o d\u00e3o conta de um sujeito ontol\u00f3gico entendido aqui como redes de sentidos. O sujeito, na verdade, \u00e9 a pr\u00f3pria rede de sentidos, porque n\u00e3o podemos pensar um sujeito, como ser humano, fora dessa rede, na qual est\u00e1 em jogo toda a complexidade de sentidos, signos, significados, linguagem, pr\u00e1tica, cultura, hist\u00f3ria&#8230; N\u00e3o h\u00e1 como pensar o humano fora dessa complexidade, porque ele \u00e9 a pr\u00f3pria complexidade como rede de sentidos, ou melhor, \u201ctodo sujeito se materializa como um\u00a0signo\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 102), toda rede de sentidos se compreende como\u00a0rede\u00a0que produz sentidos em uma articula\u00e7\u00e3o de signos (SOMBRA, 2015a). Logo, s\u00f3 podemos dizer sobre o sujeito como rede de sentidos.<\/p>\n<p>Contudo, isso n\u00e3o significa que tratamos de um sujeito puramente abstrato, por ele se materializar como signo, pelo contr\u00e1rio, se a rede de sentidos \u00e9 uma ontologia, ent\u00e3o, o sujeito est\u00e1-no-mundo no seu mais absoluto. Ele \u00e9 concreto. Se os signos s\u00e3o de natureza eminentemente\u00a0social, eles tamb\u00e9m s\u00e3o objetivos, causam efeitos\u00a0reais\u00a0no mundo. H\u00e1 uma objetividade social e o sujeito se comporta de acordo com esta.<\/p>\n<p>Se a rede de sentidos, com seus signos todos, existe na pr\u00e1tica, estamos, ent\u00e3o, discorrendo sobre um sujeito da a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o somente da percep\u00e7\u00e3o, tecemos sobre o sujeito da pr\u00e1tica e n\u00e3o\u00a0somente\u00a0da consci\u00eancia[2]. Laur\u00eanio Sombra vai afirmar que<br \/>\nse os sujeitos s\u00e3o signo, de algum modo, n\u00e3o se pode esquecer que representam, a princ\u00edpio, sujeitos reais, seres humanos \u201cde carne e osso\u201d, sujeitos encarnados: s\u00e3o dotados de uma corporeidade, afetados f\u00edsica e biologicamente em sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo, sentem dor e prazer, sentem emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias, lidam com um ambiente etc. (SOMBRA, 2015a, p. 103).<\/p>\n<p>Isto \u00e9, s\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que o sujeito estabelece com o ambiente e com os objetos do entorno que se constr\u00f3i a \u201crealidade objetiva\u201d. Essa realidade n\u00e3o pode ser ignorada j\u00e1 que afeta o outro e o mundo de forma concreta. \u201cSe os sujeitos s\u00e3o nomeados e qualificados como signo, o\u00a0nome pr\u00f3prio\u00a0de um sujeito representa, justamente, o significante por excel\u00eancia que permite que ele seja identificado como tal\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 103), ou seja, como um exemplo, o tal nome pr\u00f3prio \u00e9 que d\u00e1 exist\u00eancia social ao sujeito na acep\u00e7\u00e3o de que seu nome lhe permite receber heran\u00e7a, obter um emprego, ter direitos civis, al\u00e9m daquilo que representa o sujeito para ele mesmo, diz algo sobre sua filia\u00e7\u00e3o e sua hist\u00f3ria. Nisso est\u00e1 impl\u00edcito a rede de sentidos, j\u00e1 que o sujeito obt\u00e9m sua \u201cidentidade\u201d \u201ca partir, a princ\u00edpio, da compreens\u00e3o de sua significa\u00e7\u00e3o no contexto da rede de sentido ao qual ele pertence\u201d (SOMBRA, 2015a, pp. 103-104).<\/p>\n<p>Por isso, entendemos que a rede de sentidos \u00e9 uma base existencial que permite uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es por parte do sujeito, \u201ccomo a a\u00e7\u00e3o cotidiana, a atribui\u00e7\u00e3o de significado de uma palavra ou de um enunciado, a compreens\u00e3o de pr\u00e1ticas sociais em geral\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 64).<\/p>\n<p>Da\u00ed tamb\u00e9m que o sujeito \u00e9 essa complexidade ontol\u00f3gica e social que jamais \u00e9 totalizada ou compreendida por completo, com outras palavras,<br \/>\nda compreens\u00e3o da rede de sentidos decorre uma consequ\u00eancia importante: se ela tem natureza essencialmente pr\u00e1tica, isso nos leva a concluir que o campo de enunciados discursivos que podemos construir nunca \u00e9 capaz de abarc\u00e1-la, em sua totalidade. H\u00e1 sempre uma \u201cdiferen\u00e7a ontol\u00f3gica\u201d essencial que impossibilita essa pretens\u00e3o de totalidade (SOMBRA, 2015a, p. 101).<\/p>\n<p>Se considerarmos a hist\u00f3ria como historicidade, ou seja, como hist\u00f3ria aberta, ent\u00e3o, os enunciados n\u00e3o poder\u00e3o dar conta por completo da rede de sentidos, n\u00e3o h\u00e1 como apreender uma ess\u00eancia na sua totalidade, entendendo que os signos est\u00e3o em transforma\u00e7\u00e3o ou em extin\u00e7\u00e3o, entendendo que h\u00e1 a pr\u00e1tica numa temporalidade. Se h\u00e1 novos mundos de possibilidades se abrindo, possibilidades de experi\u00eancia, uma riqueza de sentidos sendo constru\u00edda, portanto,<br \/>\nos enunciados, e o campo discursivo em geral (inclusive, a produ\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica e sonora, por exemplo) t\u00eam uma condi\u00e7\u00e3o sempre limitada, eles n\u00e3o t\u00eam capacidade de abarcar completamente a riqueza dos sentidos, muito embora \u00e9 fundamental para a constitui\u00e7\u00e3o da linguagem humana que sempre exer\u00e7amos este di\u00e1logo\u00a0(SOMBRA, 2015a, p. 102).<\/p>\n<p>Essa incapacidade de abarcar por completo a riqueza dos sentidos n\u00e3o se prende somente a ideia de que a rede de sentidos permite compreender uma historiza\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m o sujeito n\u00e3o pode ser abarcado por ser a pr\u00f3pria rede de sentidos, n\u00e3o permitindo enunciados adequados a respeito do pr\u00f3prio sujeito, do outro e do mundo. Com outras palavras, apesar de estarmos inseridos na rede de sentidos, sendo poss\u00edvel, de certa forma, nos situarmos de modo interdependente, \u201cn\u00e3o permite que definamos quem somos, mas permite que saibamos, em alguma medida, que h\u00e1 \u2018algu\u00e9m\u2019 que n\u00e3o se d\u00e1 como mera constitui\u00e7\u00e3o nominal de sujeitos\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 104). Devido a isso tamb\u00e9m, dentre outras an\u00e1lises ditas aqui, que consideramos a rede de sentidos como ontol\u00f3gica e concreta, j\u00e1 que a pr\u00e1tica ocorre em determinado contexto tendo ainda \u201calgu\u00e9m\u201d que n\u00e3o se d\u00e1 como mera constitui\u00e7\u00e3o nominal de sujeitos. Podemos ainda dizer que a rede de sentidos \u00e9 uma ontologia materialista na acep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 pura abstra\u00e7\u00e3o, no sentido de que se baseia na a\u00e7\u00e3o, na experi\u00eancia, fora do idealismo de significados existentes antes da pr\u00e1tica do sujeito.<\/p>\n<p>Entendemos que a rede de sentidos \u00e9 uma ontologia, porque ela \u00e9 condi\u00e7\u00e3o ou possibilidade de dire\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es do sujeito, o que permite ainda uma coer\u00eancia existencial de tal sujeito, mas, de fato, \u201cn\u00e3o \u00e9 uma coer\u00eancia de natureza l\u00f3gica\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 64). N\u00e3o estamos no \u00e2mbito do puro psicologismo, pois os sujeitos \u201cvivem\u00a0a rede de sentidos, n\u00e3o necessariamente de modo cognitivo\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 65). Mas isso s\u00f3 n\u00e3o nos basta, portanto, compreendemos a rede de sentidos como ontol\u00f3gica porque \u201cpodemos compreender uma\u00a0rede de sentidos\u00a0como certa constitui\u00e7\u00e3o abrangente do sujeito\u201d (SOMBRA, 2015b, pp. 63-64).<\/p>\n<p>5.0 A REDE DE SENTIDOS, O CORPO HUMANO E AS SUAS IMPLICA\u00c7\u00d5ES<br \/>\nO pr\u00f3prio fil\u00f3sofo Laur\u00eanio Sombra afirma que \u201cos sujeitos s\u00e3o \u2018sujeitos encarnados\u2019 [&#8230;] t\u00eam uma corporeidade\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 65). Esse mesmo fil\u00f3sofo nos assegura tamb\u00e9m que \u201ctemos, por fim, um\u00a0corpo, e nos movemos a partir dele. Em hip\u00f3tese alguma \u00e9 trivial a import\u00e2ncia da nossa condi\u00e7\u00e3o\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 97).<\/p>\n<p>Nesse aspecto, h\u00e1 um corpo que nos coloca em condi\u00e7\u00e3o de animal e h\u00e1 um corpo que \u00e9 essencial para se discorrer a respeito da rede de sentidos.<\/p>\n<p>Como condi\u00e7\u00e3o animal, a rede de sentidos est\u00e1 implicada com as emo\u00e7\u00f5es mais prim\u00e1rias do sujeito, com aquilo que ainda n\u00e3o foi nomeado por ele. Isso nos levar\u00e1 ao entendimento de uma ontologia da experi\u00eancia humana baseada na significa\u00e7\u00e3o de seu mundo por meio de uma rede de sentidos. O fil\u00f3sofo j\u00e1 nos disse que somos animais lingu\u00edsticos, ou melhor, primata lingu\u00edstico. Contudo, sabemos que Sombra n\u00e3o nos coloca em pensamento naturalista. N\u00e3o estamos sendo resumidos a uma esp\u00e9cie de pura biologia e\/ou zoologia. At\u00e9 porque, como entendido, os signos s\u00e3o essenciais para se discorrer a respeito da rede de sentidos, ou seja, indo al\u00e9m dos instintos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o corpo como condi\u00e7\u00e3o para rede de sentidos nos aponta para aquilo que ainda n\u00e3o est\u00e1 nomeado, \u201cum conjunto de emo\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias\u201d e considerando ainda que \u201cnos estabelecemos em um\u00a0habitat, sentimos dor e prazer, formamos grupos, estabelecemos rela\u00e7\u00f5es de parceria, domina\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o com outros animais da nossa esp\u00e9cie e de fora dela etc.\u201d (SOMBRA, 2015a, p. 97).<\/p>\n<p>Entendemos que o fil\u00f3sofo afirma ainda que n\u00f3s sentimentos dor e prazer, por exemplo. Esses sentimentos s\u00e3o tamb\u00e9m uma condi\u00e7\u00e3o para a rede de sentidos, j\u00e1 que esta \u00e9 uma ontologia. Logo, ontologicamente, sofrer e ser s\u00e3o para o sujeito a mesma coisa, seu sofrimento \u00e9 puro teor afetivo\u00a0na \/ pela\u00a0rede de sentidos. Ele sofre, porque estruturalmente ou existencialmente a dor \u00e9 entendida ou valorada em sua\u00a0rede\u00a0como sofrimento. N\u00e3o que o sujeito n\u00e3o sinta dor, mas dor e\u00a0ser-no-mundo\u00a0s\u00e3o a mesma coisa. O sujeito poder\u00e1 lhe conferir valor, mas s\u00f3 confere valor no que tange a dor se inserido em uma rede de sentidos. Fora dessa rede, n\u00e3o h\u00e1 nomea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed que n\u00e3o h\u00e1 dist\u00e2ncia alguma entre o sujeito e a sua dor, ele \u00e9 a dor; tratamos de sujeitos encarnados. A rede de sentidos tem corporeidade, pois ela n\u00e3o parte do nada,\u00a0ex nihilo. Na filosofia de Laurenio Sombra encontramos sempre um sujeito atuente no mundo, afastando tal rede de uma mera idealiza\u00e7\u00e3o. Por isso, tamb\u00e9m, que o fil\u00f3sofo afirma que a rede de sentidos s\u00f3 existe enquanto pr\u00e1tica, porque ela\u00a0atravessa\u00a0o sujeito, \u201ccorta\u201d a sua carne. Considerando esse corpo, o sujeito \u00e9 corpo-dor, corpo-prazer.<\/p>\n<p>Entramos novamente na dial\u00e9tica que est\u00e1 presente, por v\u00e1rias perspectivas, na filosofia de Sombra: a rede de sentidos que se mant\u00e9m pela pr\u00e1tica \u2013 e, por isso, precisa do corpo que a pratique. Entendendo que o corpo aqui n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 bra\u00e7o e perna, como ainda as mais \u201c\u00ednfimas\u201d rela\u00e7\u00f5es neuronais num dado contexto \u2013, n\u00e3o se sustenta por si pr\u00f3pria: precisa do corpo para ser\u00a0rede de sentidos, e o corpo tamb\u00e9m n\u00e3o se sustenta por si pr\u00f3prio, porque para ser corpo humano precisa da rede de sentidos. Caso contr\u00e1rio, se essa dial\u00e9tica n\u00e3o for considerada, n\u00e3o s\u00f3 a rede de sentidos se desfaz por falta de uma pr\u00e1tica, como o corpo n\u00e3o passaria de uma mera carne ou objeto.<\/p>\n<p>O que entendemos \u00e9 que, na filosofia de Sombra, corpo n\u00e3o se resume \u00e0 medicina, \u00e0 anatomia ou \u00e0 fisiologia. A fisiologia \u00e9 uma an\u00e1lise a partir dos \u201ccad\u00e1veres\u201d, porque se analisa a carne e n\u00e3o a vida em sua totalidade. Um peda\u00e7o de carne n\u00e3o produz sentido. Assim como um computador tamb\u00e9m n\u00e3o produz sentido. O sentido s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na rede de sentidos.<\/p>\n<p>Quando Sombra nos diz sobre possibilidades de experi\u00eancia (SOMBRA, 2015a), nos afasta desse corpo \u201cmorto\u201d da fisiologia e da anatomia. Sombra\u00a0nos afasta de certos fil\u00f3sofos e psic\u00f3logos que\u00a0somente\u00a0tendem a descrever equivocadamente a experi\u00eancia do corpo do outro como a experi\u00eancia de uma coisa f\u00edsica, anat\u00f4mica ou fisiol\u00f3gica, vide as ci\u00eancias que resumem o ser humano a meros efeitos neuroqu\u00edmicos ou comportamentais. Assim, aquilo que o fisiologista faz existir aqui \u00e9 a coisa \u201ccorpo\u201d e n\u00e3o o corpo como possibilidade que o sujeito \u00e9 como a\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica em um contexto existencial entendido como rede de sentidos.<\/p>\n<p>Com efeito, ao se voltar ao corpo \u2013 seja ele mensurado ou n\u00e3o, seja ele condicionado ou n\u00e3o \u2013, se n\u00e3o se considera a rede de sentidos, ent\u00e3o, s\u00f3 \u00e9 um corpo como objeto. Discorremos, portanto, sobre um corpo n\u00e3o como experimento ou experimental, mas como experi\u00eancia, como totalidade humana que existe na \/ pela rede de sentidos.<\/p>\n<p>Ainda precisamos compreender a afirma\u00e7\u00e3o colocada aqui do fil\u00f3sofo Laurenio Sombra (2015a), quando nos diz que temos, por fim, um corpo, e nos movemos a partir dele. Isso \u00e9 de suma import\u00e2ncia, j\u00e1 que o sujeito \u00e9 \u201cencarnado\u201d. Podemos compreender que o corpo, para esse fil\u00f3sofo, permite o sujeito ter uma perspectiva e se comprometer no mundo. Caso contr\u00e1rio, \u00e9 poss\u00edvel um sujeito sem perspectiva? Por exemplo, n\u00e3o seria sequer conceb\u00edvel um sujeito que pudesse sobrevoar o mundo, permitindo o corpo fornecer ao mesmo tempo \u00e0 direita e \u00e0 esquerda de uma x\u00edcara, \u00e0 frente e atr\u00e1s dela. Isso, para o ser humano, \u00e9 incognosc\u00edvel. Ent\u00e3o, o corpo situa-se em um contexto e em uma perspectiva de mundo, que configura a rede de sentidos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m outra implica\u00e7\u00e3o que essa dial\u00e9tica presente entre corpo e rede de sentidos pode nos proporcionar, \u00e9 o fato de que \u201ca hist\u00f3ria do corpo humano \u00e9 a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. Cada sociedade, cada cultura age sobre o corpo, determinando-o [&#8230;] Cria os seus pr\u00f3prios padr\u00f5es\u201d (BARBOSA; MATOS; COSTA, 2011, p. 24). E criar padr\u00f5es \u00e9 criar sentidos? \u00c9 poss\u00edvel criar padr\u00e3o fora da rede de sentidos? Sombra afirma que \u201cde um modo geral, a rede de sentidos \u00e9 constitu\u00edda de modo\u00a0intersubjetivo\u00a0e tem natureza eminentemente\u00a0social\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 64).\u00a0Criam-se padr\u00f5es fora do social? Mesmo o sujeito mais isolado, n\u00e3o cria seus padr\u00f5es fora da rede de sentidos.<\/p>\n<p>6.0 O SUJEITO COMO SER SOCIAL<br \/>\nConsiderando uma natureza eminentemente social na intersubjetividade que constitui a rede de sentidos, entendemos tamb\u00e9m que \u00e9 poss\u00edvel encontrar um sujeito social na filosofia de Sombra. H\u00e1 diversos signos articulados na rede de sentidos que nomeiam sujeitos individuais e coletividades, sempre em uma intersubjetividade, uma correla\u00e7\u00e3o com outros sujeitos e com os signos que os qualificam e todo esse processo intersubjetivo ocorre numa demanda de valora\u00e7\u00e3o contextualizada, ocorre em uma determinada temporalidade. Lembremos ainda que a tal valora\u00e7\u00e3o ocorre em uma hierarquia de signos na rede de sentidos e os sujeitos agem em uma dial\u00e9tica com tais signos \u201cde um modo tal que formam, progressivamente, um sistema de classifica\u00e7\u00e3o dos sujeitos que os posiciona, com o qual eles identificam\/reconhecem os outros sujeitos e se identificam\/se reconhecem\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 65).<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o se trata aqui de uma permanente harmonia social de identifica\u00e7\u00f5es. Sombra nos apresenta tamb\u00e9m um conceito fundamental,\u00a0o de\u00a0antagonismo. O fil\u00f3sofo nos diz sobre tal conceito:<br \/>\nele se d\u00e1 sempre que sujeitos em rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua n\u00e3o compartilham a mesma rede de sentidos em aspectos essenciais, seja no modo com o qual eles valorizam\/hierarquizam os sujeitos, seja no modo, talvez mais sutil, como eles valorizam\/hierarquizam outros signos da rede (SOMBRA, 2015b, p. 65).<\/p>\n<p>Ou seja, os sujeitos podem obter valores diferentes, o que tende a gerar um atrito ou conflito social. Sombra afirma ainda que diverg\u00eancias mais superficiais s\u00e3o passivas de ocorrer, contudo, o conceito de antagonismo \u00e9 mais grave, na acep\u00e7\u00e3o de que a diferen\u00e7a se manifesta entre as redes de sentidos, quando h\u00e1 \u201ccerta inaceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rede de sentido do outro\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 65). Ent\u00e3o o antagonismo \u00e9 uma inaceita\u00e7\u00e3o de um mundo, da forma de existir do outro, como o outro estar-no-mundo. Esse \u201cser-no-mundo\u201d de um ou alguns \u00e9 visto como inadequado perante o outro ou os outros. Da\u00ed a gravidade do conceito de antagonismo que toca na rede de sentidos, sendo esta universal-singular como base do sujeito, como sua base existencial, portanto, \u00e9 a sua \u201cestrutura\u201d existencial que est\u00e1 sendo negada pelo outro. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, trata-se de \u201cuma discord\u00e2ncia da forma de vida entre sujeitos, mas apenas nos casos em que a conviv\u00eancia entre eles suscita algum n\u00edvel de incompatibilidade pr\u00e1tica entre as formas de vida de cada um\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 66).<\/p>\n<p>Por esse antagonismo tocar na rede de sentidos, a qual \u00e9 considerada, por n\u00f3s, de forma ontol\u00f3gica, intersubjetiva e social, como visto aqui, ent\u00e3o, os sujeitos se \u201cveem amea\u00e7ados, em maior ou menor medida, por outras rede de sentidos\u201d (SOMBRA, 2915b, p. 66). Com efeito, \u201cde um modo geral, as rela\u00e7\u00f5es de antagonismo podem ensejar negocia\u00e7\u00e3o ou enfrentamento de sentido, mas tamb\u00e9m processos de domina\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o\u201d (SOMBRA, 2915b, p. 66).<\/p>\n<p>Os aspectos sociais j\u00e1 estavam presentes, mas \u00e9 agora tamb\u00e9m que come\u00e7am a se apresentar com mais evid\u00eancia na filosofia de Laurenio Sombra, especialmente no que tangem aos processos de domina\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o, por exemplo. Nas palavras do fil\u00f3sofo: \u201cem \u00faltima inst\u00e2ncia, que proporciona a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o social, numa tentativa pelos sujeitos de supera\u00e7\u00e3o ou concilia\u00e7\u00e3o de redes de sentidos antag\u00f4nicas\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 66).<\/p>\n<p>7.0 REDE DE SENTIDOS: UMA A\u00c7\u00c3O AL\u00c9M DA PERCEP\u00c7\u00c3O COMO CAR\u00c1TER PR\u00c1TICO<br \/>\nA rede de sentidos existe na pr\u00e1tica, estamos, ent\u00e3o, discorrendo sobre um sujeito da a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o\u00a0somente\u00a0da percep\u00e7\u00e3o. J\u00e1 que entendemos isso no decorrer de toda esta atividade, compreendemos ainda que o mundo se organiza perante o sujeito, n\u00e3o simplesmente perante a consci\u00eancia sem \u201ccorpo\u201d ou a percep\u00e7\u00e3o no sentido de mera contempla\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do ontol\u00f3gico e social j\u00e1 exposto aqui, percebemos tamb\u00e9m um car\u00e1ter pr\u00e1tico que tem como base a filosofia de Sombra, no qual o mundo percebido perante o sujeito tem a sua configura\u00e7\u00e3o como advento da \/ pela pr\u00e1tica, e n\u00e3o simplesmente da percep\u00e7\u00e3o que o sujeito tem dele. A rede de sentido, que permite um mundo, s\u00f3 se sustenta pela pr\u00e1tica, pelo\u00a0ritual. Da\u00ed que a organiza\u00e7\u00e3o do mundo adv\u00e9m da a\u00e7\u00e3o concreta do sujeito.<\/p>\n<p>O que entendemos \u00e9 que para o fil\u00f3sofo n\u00e3o \u00e9 de modo algum suficiente o sujeito perceber o mundo, para se tornar poss\u00edvel a organiza\u00e7\u00e3o do mundo, a n\u00e3o ser que a percep\u00e7\u00e3o esteja intricada com a pr\u00e1tica na qual esta sustenta aquela dialeticamente. Se ficarmos satisfeitos com a ideia de que ao perceber o mundo, viabiliza a sua organiza\u00e7\u00e3o, estamos afirmando que j\u00e1 h\u00e1 o sujeito e o mundo organizado. Contudo, n\u00e3o \u00e9 bem assim, a organiza\u00e7\u00e3o que tecemos aqui implica linguagem e seus signos que definem uma rede de sentidos. Portanto, homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos ou beb\u00eas n\u00e3o podem se deparar com tal mundo organizado, j\u00e1 que est\u00e3o numa fase de pr\u00e9-linguagem. Os signos n\u00e3o nasceram com o surgimento do humano, como ainda n\u00e3o nasceram com a crian\u00e7a. Eles s\u00e3o criados e assimilados no decorrer de sua exist\u00eancia, para dar conta daquilo que ainda n\u00e3o foi nomeado. No caso da crian\u00e7a, s\u00e3o aos poucos que ela vai entrando na rede de sentidos. Logo, \u00e9 importante entender que sem o sujeito e sua pr\u00e1tica, esse mundo n\u00e3o estaria organizado para ser percebido. Esse entendimento na filosofia de Laurenio Sombra nos parece essencial para superar a ideia\u00a0metaf\u00edsica\u00a0da primazia da percep\u00e7\u00e3o que acredita que o mundo se organiza na ou pela consci\u00eancia perceptiva.[3]<\/p>\n<p>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<br \/>\nTentamos evidenciar uma ontologia na filosofia de Sombra. Mostrando a abrang\u00eancia do seu pensamento. Nessa acep\u00e7\u00e3o, entendemos que a Rede de Sentidos n\u00e3o se sintetiza aos aspectos psicol\u00f3gicos humanos ou meramente cognitivos. A Rede se caracteriza como pano de fundo da exist\u00eancia humana ou configura\u00e7\u00e3o profunda do sujeito.<\/p>\n<p>O sujeito, na verdade, \u00e9 a pr\u00f3pria Rede de Sentidos, pois n\u00e3o podemos pens\u00e1-lo como ser humano fora dessa Rede, j\u00e1 que para ser como tal, s\u00e3o necess\u00e1rios a linguagem e os signos que se desdobram na hist\u00f3ria humana e vice-versa. Com efeito, um sujeito ontol\u00f3gico revela um sujeito social tamb\u00e9m devido, al\u00e9m dos signos e linguagem, a intersubjetividade em um processo de historiza\u00e7\u00e3o \u2013 esta n\u00e3o se resumindo a mero conjunto de subjetividades \u2013 fortemente presente na filosofia de Sombra.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>BARBOSA, M. R; MATOS, P. M; COSTA, M. E.\u00a0Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicologia &amp; Sociedade, 23 (1), 24-34, 2011, p. 24.<\/p>\n<p>COSSUTTA, F.\u00a0Elementos para a leitura dos textos filos\u00f3ficos. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1994.<\/p>\n<p>DELEUZE, G; GUATTARI, F.\u00a0O que \u00e9 a filosofia?. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.<\/p>\n<p>SOMBRA, L, L.\u00a0O Ocidente como Problema Filos\u00f3fico. Revista Idea\u00e7\u00e3o, n. 35, jan.\/jun. 2017.<\/p>\n<p>_____ .\u00a0Identidade dos sujeitos: linguagem, constitui\u00e7\u00e3o de sentido e valor. Revista S\u00edsifo, n. 1, Mai.\/Set. 2015a.<\/p>\n<p>_____ .\u00a0Esc\u00e2ndalo da Pol\u00edtica Brasileira: O Sentido da Desigualdade. Revista Idea\u00e7\u00e3o, n. 32, jul.\/dez. 2015b.<\/p>\n<p>[1]\u00a0O pr\u00f3prio fil\u00f3sofo Laurenio Sombra afirma que \u201cos sujeitos s\u00e3o \u2018sujeitos encarnados\u2019 [&#8230;] t\u00eam uma corporeidade\u201d (SOMBRA, 2015b, p. 65),ou seja, \u201csomos \u2018animais lingu\u00edsticos\u2019\u201d (SOMBRA, 2015\u00aa, p. 97).<br \/>\n[2]\u00a0Retomaremos a ideia de percep\u00e7\u00e3o no cap\u00edtulo \u201cRede de sentidos: uma a\u00e7\u00e3o al\u00e9m da percep\u00e7\u00e3o como car\u00e1ter pr\u00e1tico\u201d.<br \/>\n[3]\u00a0Parece-nos que neste ponto chegamos a um \u00e1pice da filosofia de Laurenio Sombra, na qual pode questionar a fenomenologia de Edmund Hursserl que considera a primazia da consci\u00eancia perceptiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor\u00a0\u00a0lan\u00e7ou o livro \u201cHeidegger e o sentido como lugar- A transforma\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica de sua filosofia\u201d, na Bienal do Livro Bahia 2024, que est\u00e1 sendo realizada em Salvador. 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