{"id":161426,"date":"2024-04-06T07:35:56","date_gmt":"2024-04-06T10:35:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=161426"},"modified":"2024-04-05T16:44:10","modified_gmt":"2024-04-05T19:44:10","slug":"guerra-e-paz-entre-papa-jacas-e-papa-caranguejos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2024\/04\/06\/guerra-e-paz-entre-papa-jacas-e-papa-caranguejos\/","title":{"rendered":"Guerra e paz entre papa-jacas e papa-caranguejos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-161427\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Papa-jaca-montagem.jpg\" alt=\"\" width=\"501\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Papa-jaca-montagem.jpg 600w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Papa-jaca-montagem-300x112.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 501px) 100vw, 501px\" \/>Walmir Ros\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-157192\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Walmir-2.jpg\" alt=\"\" width=\"233\" height=\"175\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Walmir-2.jpg 600w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Walmir-2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 233px) 100vw, 233px\" \/>Guardo muitas recorda\u00e7\u00f5es dos tempos de menino, entre elas as boas brigas por apelidos,<br \/>\ngent\u00edlicos, etn\u00f4nimos, top\u00f4nimos, principalmente os vistos como depreciativos. E n\u00e3o era<br \/>\npra menos, imagine um itabunense ser chamado taboquense, por ser Tabocas o nome do<br \/>\ndistrito que deu origem a Itabuna. Pior, ainda, e totalmente sem cabimento, o nascido em<br \/>\nItabuna ser chamado de papa-jaca pelos ilheenses. Por pouco n\u00e3o \u00e9 declarada uma<br \/>\nguerra, finalmente, pacificada agora por Afonso Dantas.<\/p>\n<p>Eu mesmo j\u00e1 sofri muito com os preconceituosos gent\u00edlicos por ter nascido em Ibirataia,<br \/>\nnomeada de Tesouras quando ainda distrito de Ipia\u00fa (tamb\u00e9m papa-jaca). Em 1960,<br \/>\nfinalmente, Ibirataia ganha sua \u201ccarta de alforria\u201d e passa a ser cidade, munic\u00edpio. Para<br \/>\nfazer a popula\u00e7\u00e3o e os \u201cde fora\u201d se acostumarem com o novo nome, o prefeito teria tido<br \/>\numa conversa de p\u00e9 de ouvido com o delegado, que proibiu Ibirataia ser chamada de<br \/>\nTesouras. E as amea\u00e7as n\u00e3o eram poucas, inclusive com a perman\u00eancia de uns dias de<br \/>\nxilindr\u00f3.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Mas em Itabuna era inaceit\u00e1vel ser chamado de papa-jaca, notadamente pelos ilheenses,<br \/>\nque n\u00e3o se conformavam em ter perdido o dom\u00ednio sobre a nova Itabuna, mormente pelos<br \/>\ncontos de r\u00e9is que embolsavam nos tempos de Tabocas. Pois bem, a rivalidade era<br \/>\nacirrada, pois Itabuna se agigantava e exibia uma Associa\u00e7\u00e3o Comercial (em Ilh\u00e9us ainda<br \/>\nn\u00e3o existia), ganhava no futebol, no com\u00e9rcio, enfim, amea\u00e7ava \u2013 de verdade \u2013 a<br \/>\nhegemonia de Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o sou historiador, n\u00e3o fui nem irei \u00e0 cata de documentos para fazer as devidas<br \/>\ncomprova\u00e7\u00f5es do que digo, pois sabidamente est\u00e1 na boca do povo. E o gent\u00edlico papa-<br \/>\njaca nasceu por pura inveja dos ilheenses, pelo simples fato dos itabunenses ignorarem,<br \/>\ntamb\u00e9m, os restaurantes e pens\u00f5es de Ilh\u00e9us, quando iam \u00e0 praia da Avenida. Na<br \/>\ncarroceria de caminh\u00f5es, os itabunenses levavam seu farnel, refor\u00e7ado com feijoada,<br \/>\nfarofa de jab\u00e1 e uma boa jaca, saboreada como sobremesa, para a inveja dos ilheenses.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Depois disso, pelo que soube por gente da minha inteira confian\u00e7a, e fui conferir que at\u00e9 o<br \/>\nconterr\u00e2neo Jorge Amado (ele itabunense de fato e eu por direito), no livro Terras do<br \/>\nSem-fim, renegou a origem e descreveu ser o papa-jaca gente de Itabuna, pessoas<br \/>\nr\u00fasticas, mulheres de comportamento duvidoso e homens violento, \u00e0s vezes cornos. Fiquei<br \/>\nputo da vida, mas n\u00e3o vou brigar com um conterr\u00e2neo, e que j\u00e1 se foi deste mundo.<\/p>\n<p>Inconformados com a independ\u00eancia e altivez do itabunense, os ilheenses partiram para a<br \/>\ngalhofa, retrucada em seguida com o gent\u00edlico papa-caranguejo, por motivos \u00f3bvios. A\u00ed \u00e9<br \/>\nque rivalidade aumentou, chegando \u00e0s raias do quebra-pau. Lembro-me que \u00e0 \u00e9poca o<br \/>\nsentimento de pertencimento com a cultura popular n\u00e3o era aceito e os gent\u00edlicos e<br \/>\netn\u00f4nimos malvistos e resolvidos na porrada.<\/p>\n<p>Mesmo em tempos recentes, um desprestigiado e despudorado juiz de direito (hoje ex)<br \/>\nchegou a tentar denegrir o presidente da OAB itabunense, tendo o desplante de chamar o<br \/>\ncaus\u00eddico de papa-jaca, como se ofensa fosse. Em resposta, no Forr\u00f3 do Advogado, em\u00a0pleno Alto Beco do Fuxico, foi esculachado em uma m\u00fasica criada pelos advogados<br \/>\nitabunenses, que foi hit por meses a fio, colocando o tal do ent\u00e3o magistrado em seu<br \/>\ndevido lugar, o lixo.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, os malvistos passaram a ser benquistos e incorporados como<br \/>\nbens imateriais. E cito aqui um fato comprobat\u00f3rio: Na d\u00e9cada de 1970, o paratiense, cujo<br \/>\ngent\u00edlico era papa-goiaba, recusava terminantemente ser chamado de Cai\u00e7ara, rebatendo<br \/>\no adjetivo, por considerar pejorativo e somente se aplicar aos moradores do litoral<br \/>\npaulista, e n\u00e3o aos \u201cbeiradeiros fluminenses\u201d. Hoje acredita ser um deles e aceita os dois<br \/>\ngent\u00edlicos com todos os mimos.<\/p>\n<p>Mas voltando \u00e0 nossa par\u00f3quia, j\u00e1 aceitamos e adotamos os gent\u00edlicos e etn\u00f4nimos,<br \/>\nmesmo que os top\u00f4nimos n\u00e3o tenham nenhuma liga\u00e7\u00e3o. Nada mais chique do que desfilar<br \/>\npor a\u00ed \u2013 em Itabuna, Ilh\u00e9us, Salvador, Nova Iorque ou Paris \u2013 com uma vistosa camisa<br \/>\ncriada pelo publicit\u00e1rio e cronista Afonso Dantas, com a bela figura de uma jaca ricamente<br \/>\nestampada, arrematada logo abaixo com a pomposa legenda: Papa-jaca. Tudo isso teve<br \/>\nin\u00edcio quando Afonso passou a criar camisas com g\u00edrias e express\u00f5es tiradas das ra\u00edzes<br \/>\nmais profundas do vocabul\u00e1rio \u201cbaian\u00eas\u201d. L\u00e1 ele! T\u00f4 fora!<\/p>\n<p>\u00c9 de meter inveja aos ilheenses, que ficam putos da vida, por sentir o efeito contr\u00e1rio da<br \/>\ngalhofa: em vez da raiva anterior, o itabunense demonstra sabedoria e pertencimento.<br \/>\nTrocando em mi\u00fados, fez do lim\u00e3o uma limonada. E o projeto de Afonso Dantas n\u00e3o se<br \/>\nresume a Itabuna, pois muitas cidades da regi\u00e3o cacaueira \u2013 a na\u00e7\u00e3o grapi\u00fana \u2013 esnobam<br \/>\nas demais, e apresentam a jaca como figura e adere\u00e7o cultural maior.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o das camisas ganhou o mundo, como j\u00e1 disse, e elevou a autoestima do<br \/>\nitabunense, papa-jaca sim senhor, e com muito orgulho. Tanto assim que perdoou o<br \/>\nconterr\u00e2neo Jorge Amado, acreditando ter sido influenciado pelos coron\u00e9is ilheenses da<br \/>\n\u00e9poca, putos da vida com o desenvolvimento de Itabuna. Hoje, papa-jacas e papa-<br \/>\ncaranguejos dividem e convivem o mesmo espa\u00e7o praiano com a mais perfeita harmonia.<\/p>\n<p>Daqui de Canavieiras, onde me refugiei h\u00e1 mais de uma dezena de anos, tomei ci\u00eancia<br \/>\nque o gent\u00edlico papa-caranguejo \u00e9 palavra corrente para distingui-los. E como se n\u00e3o<br \/>\nbastasse, eles ainda ressaltam que \u00e9 a iguaria mais gostosa, al\u00e9m das mais belas pernas<br \/>\nda Bahia. Sem qualquer descortesia, Trajano Barbosa utilizou o caule da jaqueira como<br \/>\nmastro na festa do \u201cPau de Basti\u00e3o\u201d por mais de 60 anos, na famosa festa da Capelinha.<\/p>\n<p>Nada mais brega do que a velha rivalidade entre papa-jacas e papa-caranguejos.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Walmir Ros\u00e1rio \u00e9 radialista, jornalista e advogado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Walmir Ros\u00e1rio Guardo muitas recorda\u00e7\u00f5es dos tempos de menino, entre elas as boas brigas por apelidos, gent\u00edlicos, etn\u00f4nimos, top\u00f4nimos, principalmente os vistos como depreciativos. E n\u00e3o era pra menos, imagine um itabunense ser chamado taboquense, por ser Tabocas o nome do distrito que deu origem a Itabuna. 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