{"id":160948,"date":"2024-03-23T08:00:12","date_gmt":"2024-03-23T11:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=160948"},"modified":"2024-03-21T08:49:13","modified_gmt":"2024-03-21T11:49:13","slug":"um-homem-que-se-fez-jeep-em-carne-e-osso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2024\/03\/23\/um-homem-que-se-fez-jeep-em-carne-e-osso\/","title":{"rendered":"Um  homem que se fez Jeep em carne e osso"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-160949\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Jipe-montagem.jpg\" alt=\"\" width=\"413\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Jipe-montagem.jpg 600w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Jipe-montagem-300x146.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 413px) 100vw, 413px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Walmir Ros\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-157192\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Walmir-2-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Walmir-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Walmir-2.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/>Em todas as cidades, n\u00e3o importa o tamanho, existem figuras de destaque na sociedade. \u00c9 verdade que algumas delas s\u00e3o vista de forma jocosa, em fun\u00e7\u00e3o de alguma defici\u00eancia f\u00edsica ou mental. Mesmo hoje, com o imp\u00e9rio do politicamente correto, essas pessoas ainda s\u00e3o motivos de risos, goza\u00e7\u00f5es, muitas das vezes respondendo com palavr\u00f5es os chistes a eles dirigidos, muitas das vezes atirando pedras, paus, o que tiver \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p>No meu tempo de menino \u2013 e j\u00e1 v\u00e3o muitos anos \u2013 Itabuna convivia com seus personagens, muitos deles tinham as ruas como resid\u00eancia e em locais fixos, em baixo de marquises seguras ou local melhor para mendigarem. Outros, vinham diariamente de cidades pr\u00f3ximas, e outro grupo residiam com seus familiares, mas ganhavam as ruas e tamb\u00e9m eram motivos de goza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um deles era o Jipe, com certid\u00e3o de nascimento e batizado com o nome de Afr\u00e2nio Batista Queiroz, que se caracterizava de Jeep Willys. Sim, isso mesmo, e com o que tinha de melhor entre os acess\u00f3rios para equipar esses ve\u00edculos, que eram os mais vendidos por ter estrutura para enfrentar as piores estradas. E revestido intelectualmente por dentro, e acessoriamente por fora de jeep, percorria ruas e estradas de Itabuna e regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Na cidade em que estivesse Jipe visitava os pontos de t\u00e1xis, geralmente aqueles carr\u00f5es americanos das marcas Hudson, Ford, Chevrolet, Desoto, Oldmosbile, Rurais e Jeeps, estes em grande maioria. Conversava pouco e ouvia muito. Era observador por natureza, por ser circunspeto, calado, at\u00e9. Ningu\u00e9m sabia o que ele realmente pensava e qual a compara\u00e7\u00e3o que faria entre um verdadeiro jeep e o que pensava ser, pois n\u00e3o externava. Um simples sonho ou uma incorporada realidade&#8230;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Pelo que sempre contavam, ainda adolescente Afr\u00e2nio teria pedido ao pai \u2013 um alfaiate \u2013 um jeep de presente, promessa nunca cumprida, o que teria mexido com sua cabe\u00e7a, o deixando abilolado, como diziam. E como um jeep de verdade, o Jipe itabunense portava uma lanterna representando os far\u00f3is dianteiros, uma antena bem alta para que seu imagin\u00e1rio r\u00e1dio n\u00e3o falhasse na viagem, um caixote pouco acima de suas n\u00e1degas, exatamente como o porta-malas de um jeep e uma lanterna traseira com lente vermelha e que acendia quando \u201cfreava\u201d.<\/p>\n<p>Com as m\u00e3os empunhava um espelho retrovisor, a antena, um pequeno equipamento pisca-pisca para sinalizar a mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de uma flanela na qual limpava o suor do rosto e os equipamentos. E o conhecido Jipe obedecida cegamente a legisla\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito, parando nos sinais quando vermelho e dava partida assim que a luz verde era acesa. Jamais infringia o C\u00f3digo de Tr\u00e2nsito, mesmo sem ter estudado.<\/p>\n<p>Por onde passava chamava a aten\u00e7\u00e3o, tanto por sua indument\u00e1ria e acess\u00f3rios, quanto pela seriedade que se comportava. Se era cumprimentado respondia ao cumprimento com uma buzinada e seguia em frente. Pouco se importava quando a crian\u00e7ada \u2013 e at\u00e9 alguns adultos gaiatos \u2013 gozavam com sua cara. Caso continuassem com os chistes, a\u00ed sim, partia pra cima com vigor, apesar de sua pequena estatura.<\/p>\n<p>Sempre me encontrava com Jipe pelas ruas, ou na grande concession\u00e1ria da Willys Overland do Brasil em Itabuna, a empresa J. S. Pinheiro e Irm\u00e3os. Ali ele se sentia \u00e0 vontade no meios dos ve\u00edculos expostos \u00e0 venda e na oficina, onde conversava com os mec\u00e2nicos, todos seus amigos. Frequentemente se sentava \u00e0 frente de um dos s\u00f3cios, Tote Pinheiro, ouvia atentamente a conversa com os compradores, embora jamais se intrometesse. Apenas observava atentamente.<\/p>\n<p>A cada semana Jipe visitava uma das cidades circunvizinhas de Itabuna, a exemplo de Buerarema e Itaju\u00edpe (20 km) e Ilh\u00e9us (30 km). Nessas viagens contava com a colabora\u00e7\u00e3o dos donos de bares e restaurantes, que lhe forneciam alimenta\u00e7\u00e3o gratuita (\u00e1gua para o radiador, gasolina e troca de \u00f3leo, dizia). Dizem que j\u00e1 foi at\u00e9 Jequi\u00e9 para viajar na Rio-Bahia (BR-116). Nas estradas asfaltadas circulava pelo acostamento, sem descuidar do retrovisor e da sinaliza\u00e7\u00e3o com o pisca-pisca. O certo \u00e9 que nunca sofreu ou causou um acidente.<\/p>\n<p>Nascido em 1918, aos 65 anos de idade, ap\u00f3s muitos problemas de sa\u00fade, passou a morar no Abrigo S\u00e3o Francisco, onde ficou at\u00e9 31 de mar\u00e7o de 2010, quando veio a \u00f3bito aos 92 anos de vida. O diagn\u00f3stico dos m\u00e9dicos declarou fal\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os, mas em qualquer oficina mec\u00e2nica em que buscasse uma reforma mais robusta, por certo diriam que bateu o motor, encavalou a caixa de marcha, estourou o diferencial e sofreu um curto circuito na instala\u00e7\u00e3o el\u00e9trica: deu PT, a famosa perda total.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Walmir Ros\u00e1rio \u00e9 radialista, jornalista e advogado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walmir Ros\u00e1rio Em todas as cidades, n\u00e3o importa o tamanho, existem figuras de destaque na sociedade. \u00c9 verdade que algumas delas s\u00e3o vista de forma jocosa, em fun\u00e7\u00e3o de alguma defici\u00eancia f\u00edsica ou mental. 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