{"id":158924,"date":"2024-04-20T11:13:39","date_gmt":"2024-04-20T14:13:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=158924"},"modified":"2024-04-19T09:16:46","modified_gmt":"2024-04-19T12:16:46","slug":"galdino-nega-pataxo-e-a-chama-que-nao-se-apaga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2024\/04\/20\/galdino-nega-pataxo-e-a-chama-que-nao-se-apaga\/","title":{"rendered":"Galdino, Nega Patax\u00f3 e a chama que n\u00e3o se apaga"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-158925\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/galdino-e-nega-pataxo-MM.jpg\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/galdino-e-nega-pataxo-MM.jpg 448w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/galdino-e-nega-pataxo-MM-300x239.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/>Daniel Thame<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cComo esquecer \u00a0daquela madrugada gelada em Bras\u00edlia? Eu estava numa terra estranha, cercada de gente estranha, uns homens bem vestidos, que se diziam autoridades, mas eu sabia, aqueles sorrisos todos eram falsos, porque eles prometiam demarcar terras que eram nossas e que foram invadidas por fazendeiros, mas assim que a gente voltava para o Sul da Bahia, eles at\u00e9 esqueciam que a gente esteve l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As nossas terras em Pau Brasil e Itaj\u00fa do Col\u00f4nia tinham sido doadas a fazendeiros em troca de apoio pol\u00edtico e o governador \u00a0da Bahia naquela \u00e9poca que eu fui a Bras\u00edlia \u00a0era dono de tudo, acho que at\u00e9 da Justi\u00e7a. E nada de sair a demarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a gente era de luta, uma for\u00e7a que vinha dos nossos ancestrais e que eu sabia, iria ser mantida pelos nossos descendentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que eu n\u00e3o sabia \u00e9 que a maldade dos homens poderia ser t\u00e3o\u00a0 grande, \u00a0e olha que ao longo dos s\u00e9culos n\u00f3s sempre sofremos com a maldade daqueles que invadiram as nossas terras e tentaram matar a nossa identidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como eu disse, fazia muito frio naquela madrugada em Bras\u00edlia e eu estava dormindo na rua, porque a gente n\u00e3o tinha dinheiro nem pra pagar hotel, quando\u00a0 de repente, eu senti um calor no corpo, achei que alguma alma boa tinha me oferecido um cobertor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era um cobertor, era fogo. Isso mesmo, quatro meninos ricos para se divertir haviam ateado fogo no meu corpo. Eu senti uma dor imensa, at\u00e9 ver a lua se tingir de vermelho e ai eu n\u00e3o senti mais nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando meu esp\u00edrito chegou aqui no <em>ybaca<\/em>, eu sabia que a\u00a0 nossa luta n\u00e3o iria parar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De certa forma, minhas chamas seriam o fogo da esperan\u00e7a de que a gente pudesse produzir e viver em paz nas terras que, por direito, eram nossas\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>\u00cdndio patax\u00f3 Galdino de Jesus, queimado vivo no dia 19 de abril de 1997.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00b4Eu sou guerreira, mas meu trabalho \u00e9 pra combater, eu entrego meu peito \u00e0 lan\u00e7a, nossa batalha temos que vencer\u00b4.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cQuando eu cantei essa m\u00fasica num encontro de povos ind\u00edgenas em\u00a0 Bras\u00edlia em 2023 n\u00e3o imaginei que era uma premoni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A gente avan\u00e7ou muito nos \u00faltimos anos, conseguimos a demarca\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias \u00e1reas, nosso irm\u00e3os tupinamb\u00e1s hoje tem suas terras ainda que vivam sofrendo amea\u00e7as, mas mesmo assim \u00e9 preciso lutar, porque \u00a0\u00a0existem muitas \u00e1reas ind\u00edgenas que s\u00e3o ocupadas irregularmente pelos fazendeiros.<\/p>\n<p>Dizem que Brasil nasceu aqui no Sul da Bahia em 1500. As vezes penso que quando o tal de Brasil nasceu o nosso povo come\u00e7ou a morrer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E que s\u00f3 n\u00e3o fomos dizimados porque somos forjados na luta, n\u00e3o temos\u00a0 medo da batalha \u00a0e porque nossa causa \u00e9 justa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando meu irm\u00e3o\u00a0 Cacique Nailton Patax\u00f3 me chamou pra gente retomar uma \u00e1rea que por direito \u00e9 nossa, l\u00e1 perto do imenso Rio Pardo, eu aceitei, porque nunca fugi da luta e como eu mesmo j\u00e1 contei aqui, n\u00e3o tenho medo das lan\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 n\u00e3o esperava, nem contava com as balas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A brutalidade dos homens n\u00e3o tem mesmo limite. Em vez do di\u00e1logo, eles dispararam tiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos tiros. E naquela explos\u00e3o de viol\u00eancia, em meio aos gritos de medo, s\u00f3 lembro de uma coisa me atingindo, uma dor no corpo e o sol se tingindo de vermelho de sangue.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E me lembro que quando meu esp\u00edrito chegou aqui no<em> ybaca<\/em>\u00a0\u00a0 o companheiro Galdino veio me receber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>L\u00e1 embaixo, na terra, nesse solo que pra n\u00f3s \u00e9 sagrado, \u00a0eu sei que nem o fogo nem as balas\u00a0 v\u00e3o calar a nossa voz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Porque n\u00f3s somos e seremos semente e sempre vamos germinar\u00a0 em cada ind\u00edgena e em cada pessoa que ainda consegue se indignar e combater as injusti\u00e7as&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Maria de F\u00e1tima Muniz, a Nega Patax\u00f3, foi assassinada no dia 21 de janeiro de 2024 num conflito com fazendeiros em Potiragu\u00e1, no Sudoeste da Bahia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(Dia dos Povos Ind\u00edgenas s\u00e3o todos os dias)<\/p>\n<p><strong>Awei!\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Daniel Thame &nbsp; \u201cComo esquecer \u00a0daquela madrugada gelada em Bras\u00edlia? 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