{"id":156515,"date":"2023-11-05T10:37:17","date_gmt":"2023-11-05T13:37:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=156515"},"modified":"2023-11-05T10:37:37","modified_gmt":"2023-11-05T13:37:37","slug":"mano-brown-o-doutor-honoris-causa-da-ufsb-para-o-mundo-e-o-dia-da-favela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2023\/11\/05\/mano-brown-o-doutor-honoris-causa-da-ufsb-para-o-mundo-e-o-dia-da-favela\/","title":{"rendered":"Mano Brown:  o doutor honoris causa  da UFSB para o mundo e o dia da favela"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-156516\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-22-53.jpg\" alt=\"\" width=\"433\" height=\"303\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-22-53.jpg 524w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-22-53-300x210.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Efson Lima<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-144198\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/efson.png\" alt=\"\" width=\"152\" height=\"222\" \/>A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) entregou na quarta-feira \u00faltima, dia 01\/11, o t\u00edtulo de doutor honoris causa\u00a0 a\u00a0 Mano Brown. Para algumas pessoas \u201cbem nascidas,\u201d os t\u00edtulos s\u00e3o uma quest\u00e3o de tempo, mas para os jovens perif\u00e9ricos brasileiros o grande t\u00edtulo \u00e9 o da sobreviv\u00eancia. E a homenagem de doutor honoris causa para Pedro Paulo Soares Pereira confirma a sua sobreviv\u00eancia e abre possibilidades de reflex\u00f5es sobre a periferia brasileira, inclusive, ensejando reconfigura\u00e7\u00e3o do papel desse grupo social no\u00a0 desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>O Mano Brown ao receber o t\u00edtulo de doutor honoris causa pela UFSB significa que a\u00a0 ele se distinguiu pelo saber e\/ou pela atua\u00e7\u00e3o, em prol do desenvolvimento das Ci\u00eancias, das Letras, das Artes, da Educa\u00e7\u00e3o, da Cultura, da Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o, das Pol\u00edticas P\u00fablicas, dos Direitos Humanos, do Desenvolvimento Social ou do Meio Ambiente, cuja contribui\u00e7\u00e3o seja ou tenha sido de alta relev\u00e2ncia para o Pa\u00eds ou para a humanidade, conforme preceitua a Resolu\u00e7\u00e3o da Universidade sobre a concess\u00e3o de t\u00edtulos honor\u00edficos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-156517\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-23-18.jpg\" alt=\"\" width=\"323\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-23-18.jpg 492w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-23-18-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 323px) 100vw, 323px\" \/><\/p>\n<p>O laudeamento foi proposto pelo professor Richard Santos, um estudioso da cultura hip hop e, atualmente, pr\u00f3-reitor de extens\u00e3o e cultura na UFSB. O docente no memorial\u00a0 pormenoriza as contribui\u00e7\u00f5es de Mano Brown para a sociedade brasileira, especialmente, a periferia. Assim, o proponente foi entrela\u00e7ando as raz\u00f5es justificadoras para a concess\u00e3o do t\u00edtulo a Mano Brown, rapper e figura central do grupo de rap Racionais MC&#8217;s. O artista nasce em S\u00e3o Paulo, mas a sua m\u00e3e \u00e9 natural de Riach\u00e3o do Jacu\u00edpe, na Bahia, onde ainda moram tios e primos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-156518\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-23-51.jpg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-23-51.jpg 600w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/PHOTO-2023-11-05-10-23-51-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/p>\n<p>No farto memorial, \u00a0as justificativas que levaram o Conselho Universit\u00e1rio \u00e0 unanimidade aprovar a distin\u00e7\u00e3o para o principal representante do movimento hip hop nacional s\u00e3o percebidas: \u201cEssas (&#8230;) informa\u00e7\u00f5es sobre Pedro Paulo que dar\u00e3o conformidade a imagem de Mano Brown nos \u00e9 importante para a compreens\u00e3o de todo o processo formativo n\u00e3o apenas do cidad\u00e3o que forjar\u00e1 o artista, mas, principalmente de sua rede de rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, culturais e ancestrais que o far\u00e3o o principal representante de uma juventude perif\u00e9rica racializada brasileira emergida da abertura democr\u00e1tica, da retomada da organiza\u00e7\u00e3o do movimento negro brasileiro em sua pluralidade e que resultar\u00e1 na luta por direitos cidad\u00e3os, antirracismo e insurg\u00eancia,\u201d sinaliza o propositor da homenagem, que foi reconhecida pelo professor Francisco de Assis, relator da homenagem.<\/p>\n<p>Ontem, dia 04\/11, comemorou-se o dia da favela, cujo termo foi utilizado pela primeira vez no ano de 1900, em um documento oficial, quando o delegado se referiu ao morro da Provid\u00eancia como \u201cfavela\u201d. Favela \u00e9 uma planta medicinal do semi\u00e1rido brasileiro, especificamente, encontrada na caatinga baiana.\u00a0 O termo ganhou as p\u00e1ginas da imprensa brasileira por meio do jornal \u201c Estado de S\u00e3o Paulo\u201d, \u00a0sendo Euclides da Cunha o jornalista correspondente do massacre de Canudos a evidenciar o termo. Posteriormente, na obra \u201cOs Sert\u00f5es\u201d\u00a0\u00a0 do mesmo jornalista, o signo favela cada vez mais foi se afirmando no cen\u00e1rio nacional. Os s\u00edmbolos e signos da solenidade n\u00e3o param por a\u00ed.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Na solenidade de entrega do t\u00edtulo de doutor honoris causa a Mano Brow, eu estava l\u00e1 em alguma das fileiras do Teatro Candinha D\u00f3rea. Eu estava a acompanhar Wenceslau J\u00fanior, Superintendente de Economia Solid\u00e1ria e Cooperativismo.<\/p>\n<p>Antes de narrar minhas impress\u00f5es, fato simb\u00f3lico \u00e9 o motorista Jamilton Nery, que no carro levava sua camisa passada e bem cuidada para usar na solenidade. Ele de \u00c1gua Fria, estava marcando na sua agenda a cerim\u00f4nia de concess\u00e3o do t\u00edtulo para Mano Brow. \u00a0Semana antes j\u00e1 havia perguntado sobre a solenidade. Certamente, al\u00e9m do imagin\u00e1rio dele, Mano Brown tem povoado milhares de jovens brasileiros. Assim como imageticamente demarcou o territ\u00f3rio da mente de Jorge Raimundo dos Santos representante dos funcion\u00e1rios terceirizados, em sendo o primeiro a discursar, desconsertadamente no in\u00edcio, ele \u00a0foi\u00a0 se ajustando e convencendo -nos do papel exercido por\u00a0 Mano Brown na sociedade brasileira. E arrebatou palmas algumas vezes do teatro lotado. Rendi-me.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m observei que Jorge Raimundo dos Santos \u00e9 um genu\u00edno representante do impacto da UFSB na vida sul-baiana, no cora\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o grapi\u00fana. A UFSB \u00e9 a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o pujante\u00a0 com tent\u00e1culos em 3 territ\u00f3rios de identidade, ampliando a responsabilidade da universidade e se soma a UESC no desafio de contribuir para o desenvolvimento regional.<\/p>\n<p>Com todo respeito aos acad\u00eamicos, eu n\u00e3o vi uma solenidade, mas uma festa do in\u00edcio ao fim, que foi costurando os diversos signos e s\u00edmbolos. As sauda\u00e7\u00f5es oficiais evidenciaram \u201ctodes\u201d; representa\u00e7\u00f5es diversas, inclusive, LGBTQUIAPN+, foram se apresentando e mostrando para as pessoas presentes as m\u00faltiplas universidades dentro da UFSB. Homens e mulheres, jovens, especialmente, mostravam a universidade comprometida com as diversas express\u00f5es art\u00edsticas. Particularmente, desconhe\u00e7o qualquer aparato educacional decente que n\u00e3o contenha arte e est\u00edmulo para o processo criativo. Uma universidade sem arte \u00e9 um mero espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Ganha o indiv\u00edduo e a sociedade se beneficia com as diferentes interfaces de uma universidade. O discurso do representante estudantil, \u00a0Felipe Soares de Moraes, parece que tinha sido calculado&#8230;milimetricamente, pronto para atingir cada convidado. Eu era um simples convidado, de Entroncamento de Itap\u00e9, que tive a oportunidade de morar no Alto do Coqueiro e no bairro do Bas\u00edlio, ambos bairros perif\u00e9ricos e extremamente violentos em Ilh\u00e9us. E, agora, por for\u00e7a da educa\u00e7\u00e3o, estou nas p\u00e1ginas do presente site e provisoriamente resido em Salvador. A favela habita em mim.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 esperado, o ponto alto da solenidade foi o discurso de Mano Brown, que aproveito para reproduzir aqui o transcrito no site \u201dPimenta\u201d: \u201cPara mim, voltar para a Bahia e receber esse t\u00edtulo \u00e9 muito simb\u00f3lico, porque minha m\u00e3e saiu da Bahia, do interior da Bahia, humilhada. Ela saiu se sentido a pior de todas. Foi para S\u00e3o Paulo, chegou l\u00e1 com 15 anos e a vida nunca foi f\u00e1cil. Eu queria que minha m\u00e3e estivesse viva para ver isso agora, porque, se tem uma pessoa que tinha tudo para ser errado na vida, sou eu. \u201cEssa fala foi marcante e representa o drama di\u00e1rio de milhares de m\u00e3es e pais no Brasil.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a solenidade, em um breve reencontro com Wenceslau J\u00fanior, no fim da noite, mostrava-me uma foto dele em reuni\u00e3o em Bras\u00edlia, em defesa da UFESBA, inicialmente, como a UFSB foi criada. Lembro daquele fato sendo not\u00edcia no jornal \u201cAgora\u201d, que circulou em Itabuna. Eu tenho essa edi\u00e7\u00e3o impressa, que saiu no dia posterior a san\u00e7\u00e3o presidencial da lei de cria\u00e7\u00e3o, eu estava em Itabuna e trouxe aquele exemplar para Salvador. Era a capa do jornal. Nascia a UFESBA e a UFOB, esta \u00faltima eu vi o projeto ser impresso na sala do vice-reitor da UFBA, ent\u00e3o, professor Mesquita. Agora, tamb\u00e9m vice-reitor da UFSB.<\/p>\n<p>A entrega do t\u00edtulo de doutor honoris causa a Mano Brown pela UFSB \u00e9 um marco no reconhecimento da cultura hip hop, mas tamb\u00e9m no papel relevante das juventudes brasileiras que povoam as periferias dos centros urbanos. \u00c9 tamb\u00e9m estrat\u00e9gico ao reconhecer a periferia como espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de fazeres culturais e das m\u00faltiplas viv\u00eancias, inclusive, os desafios.<\/p>\n<p>A UFSB \u00e9 uma universidade perif\u00e9rica e tem muito que se orgulhar disso. Ela foi pioneira ao assegurar a reserva de vagas para egressos do sistema prisional e em restri\u00e7\u00e3o de liberdade e tem buscado reconhecer as diversas minorias em seus espa\u00e7os institucionais. Prova disso \u00e9 o seu percentual superior \u00e0 lei federal no tocante a \u00a0aplica\u00e7\u00e3o da reserva de vagas no ensino superior, al\u00e9m das vagas extranumer\u00e1rias. Uma reitora negra, professora Joana Ang\u00e9lica Guimar\u00e3es da Luz, tamb\u00e9m simboliza de qual lado a Universidade pretende tra\u00e7ar seus caminhos. A UFSB comemora 10 anos de cria\u00e7\u00e3o e o movimento hip hop 50 anos, ao surgir em 1973, em um apartamento de New York, nos EUA. A favela no alto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8212;-<\/p>\n<p>Efson Lima \u2013 doutor e mestre em direito\/Ufba. Advogado. Membro da Academia de Letras de Ilh\u00e9us (ALI) e da Grapi\u00fana (Agral). Ex -morador do Alto do Coqueiro e morador do bairro do Bas\u00edlio , ambos em Ilh\u00e9us.<\/p>\n<p>efsonlima@gmail.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Efson Lima &nbsp; A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) entregou na quarta-feira \u00faltima, dia 01\/11, o t\u00edtulo de doutor honoris causa\u00a0 a\u00a0 Mano Brown. Para algumas pessoas \u201cbem nascidas,\u201d os t\u00edtulos s\u00e3o uma quest\u00e3o de tempo, mas para os jovens perif\u00e9ricos brasileiros o grande t\u00edtulo \u00e9 o da sobreviv\u00eancia. 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