{"id":148380,"date":"2023-04-01T07:42:38","date_gmt":"2023-04-01T10:42:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=148380"},"modified":"2023-03-31T09:50:52","modified_gmt":"2023-03-31T12:50:52","slug":"os-cobicados-rapazes-do-banco-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2023\/04\/01\/os-cobicados-rapazes-do-banco-do-brasil\/","title":{"rendered":"Os cobi\u00e7ados rapazes do Banco do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_148381\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-148381\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-148381\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/bb.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/bb.jpg 400w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/bb-300x221.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-148381\" class=\"wp-caption-text\">Equipes de funcion\u00e1rios do BB de Canavieiras em 1964<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Walmir Ros\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-148382\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Walmir-Rosario-3-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Walmir-Rosario-3-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Walmir-Rosario-3.jpg 410w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O Banco do Brasil sempre foi considerada uma institui\u00e7\u00e3o singular, de prest\u00edgio em todo o pa\u00eds. Queiram ou n\u00e3o, era bem diferente dos demais estabelecimentos banc\u00e1rios, de acesso mais restrito a correntistas e funcion\u00e1rios. Estes somente ingressavam no corpo de funcion\u00e1rios pelo sistema de meritocracia, por meio de um concurso nacional, ap\u00f3s anos de estudo. Valia a pena, por ser um emprego pra vida toda, at\u00e9 a sonhada aposentadoria.<\/p>\n<p>Assinada a carteira e vencido o est\u00e1gio probat\u00f3rio, o funcion\u00e1rio do BB era considerado um ser diferente, quem sabe superior, na hierarquia social, tanto pelo prest\u00edgio que gozava na sociedade. A come\u00e7ar pelo contracheque, apelidado de espelho, recheados de cruzeiros, cruzados ou reais, em compara\u00e7\u00e3o aos sal\u00e1rios pagos pelos bancos privados, tamb\u00e9m considerados bons pelos empregados.<\/p>\n<p>E somente ingressavam no quadro de funcion\u00e1rios rapazes e mo\u00e7as cujo desempenho no concurso fosse bem acima da m\u00e9dia. Uma prova considerada \u201cpau a pau\u201d com os temidos vestibulares. L\u00edngua portuguesa, com quest\u00f5es dif\u00edceis de gram\u00e1tica; hist\u00f3ria, e a mais temida: a matem\u00e1tica. Mas n\u00e3o bastava, quem n\u00e3o fosse \u00e1gil e com um pedigree de ouro na datilografia nem se habilitasse, seria reprovado na hora.<\/p>\n<p>Lembro dos meus tempos de menino, em que ficava deslumbrado ao entrar na ag\u00eancia Itabuna do BB e apreciar \u2013 com emo\u00e7\u00e3o \u2013 os l\u00e9pidos funcion\u00e1rios datilografando contratos ou outros servi\u00e7os. Mas al\u00e9m de \u201cbater a m\u00e1quina\u201d, fic\u00e1vamos embevecidos com o c\u00e1lculo feitos na m\u00e1quina Facit manual, com as teclas num\u00e9ricas e manivelas girando para frente e para tr\u00e1s, era um espet\u00e1culo para n\u00f3s garotos.<\/p>\n<p>Nem precisaria comentar, mas os funcion\u00e1rios do BB chamavam a aten\u00e7\u00e3o por serem considerados mo\u00e7os de alto partido pelas donzelas casadoiras, que se postavam nas janelas de suas casas no hor\u00e1rio em que eles encerravam o expediente. Era um festival de suspiros quando eles passavam, muitas das vezes marcados por troca de olhares e algumas frases galanteadoras. Melhores partidos n\u00e3o haviam nas cidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Mas para ostentar esse pesado status, os funcion\u00e1rios do BB foram obrigados a abrir m\u00e3o de certos comportamentos e enfrentarem algumas mudan\u00e7as na vida. Como o Concurso era nacional, na maioria das vezes tomavam posse no cargo em cidades e estados longe de onde moravam. Tinham que enfrentar as famosas rep\u00fablicas (morada coletiva) at\u00e9 que constitu\u00edssem fam\u00edlia ou uma transfer\u00eancia para a cidade de origem.<\/p>\n<p>Lembro que em minha vida profissional, que me obrigava a \u201cmorar\u201d em v\u00e1rias cidades e estados ao mesmo tempo, sempre encontrava um membro da Fam\u00edlia Sat\u00e9lite (como s\u00e3o conhecidos os funcion\u00e1rios do BB). Era uma festa quando encontr\u00e1vamos esses \u201cconterr\u00e2neos), que muitas das vezes at\u00e9 davam um jeito de facilitar nossa sa\u00edda das intermin\u00e1veis filas de atendimento nos caixas.<\/p>\n<p>Por volta de 1977, sa\u00ed da empresa em S\u00e3o Paulo com destino a Angra dos Reis para receber o pagamento de uma medi\u00e7\u00e3o na Petrobras (oleoduto de Angra a Caxias). A Petrobras liberava o cheque tr\u00eas dias antes, com a recomenda\u00e7\u00e3o de ser sacado no dia tal. Com o atraso na viagem, ao chegar na ag\u00eancia do BB, enquanto estacionava o carro, o rel\u00f3gio marcou as fat\u00eddicas 4 horas e os vigilantes fecharam as portas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acreditava no que via, depois de horas viajando, consegui pegar o cheque na Petrobras e enquanto estacionava o carro encerrava o expediente. Enquanto eu olhava, sem acreditar, as portas fechadas, vejo um amigo de Paraty, Paulinho Polaco, gerente da casa lot\u00e9rica em frente, que me pergunta: \u201cO que foi?\u201d E eu, desolado, conto o meu triste contratempo.<\/p>\n<p>Paulinho me pede para esperar e entra por um corredor ao lado do pr\u00e9dio, conversa com o vigilante e entra na ag\u00eancia. Acena-me e entramos na ag\u00eancia. Quando me dirijo ao caixa indicado, dou de cara com um velho conhecido de Itabuna, Luiz Magaldi, que d\u00e1 um grito: \u201cMenino, o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?\u201d. Ap\u00f3s o cumprimentos, agrade\u00e7o a Paulinho e aos funcion\u00e1rios do BB, guardo a grande soma de dinheiro e vou embora.<\/p>\n<p>Canavieiras \u00e9 outro local onde guardo boas recorda\u00e7\u00f5es do BB, muitos velhos e bons amigos. A ag\u00eancia do BB era uma pot\u00eancia e atendia a v\u00e1rios munic\u00edpios da regi\u00e3o, nas transa\u00e7\u00f5es de impostos federais ou empr\u00e9stimos da ent\u00e3o pujante cacauicultura. Como \u00e0quela \u00e9poca dispunha de linhas regulares de avia\u00e7\u00e3o, era considerada uma cidade de grande porte.<\/p>\n<p>Nos anos 1950, num desses concursos, uma turma da zona sul do Rio de Janeiro \u00e9 aprovada e escolhe Canavieiras, cidade praiana e com voos di\u00e1rios para tomar posse. Quando aqui chegam, descobrem que a cidade n\u00e3o disp\u00f5e de energia el\u00e9trica, ruas cal\u00e7adas, boates refinadas, enfim, a vida carioca. Com o prest\u00edgio, conseguem, transfer\u00eancia para a cidade Maravilhosa e resolvem prestar uma homenagem.<\/p>\n<p>Entram no avi\u00e3o e um deles volta para o esperado discurso de despedida, que Boinha Cavaquinho lembra at\u00e9 hoje: \u201cCanavieiras, Canavieiras, \/Terra dos coqueirais,\/Vai pra puta que pariu, \/Que aqui n\u00e3o volto mais\u201d. Temendo rea\u00e7\u00f5es, imediatamente fecharam a porta do avi\u00e3o, que partiu com dire\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro. Como toda a fam\u00edlia, a Sat\u00e9lite tamb\u00e9m tem sua pluralidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Walmir Ros\u00e1rio \u00e9 radialista, jornalista e advogado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Walmir Ros\u00e1rio O Banco do Brasil sempre foi considerada uma institui\u00e7\u00e3o singular, de prest\u00edgio em todo o pa\u00eds. Queiram ou n\u00e3o, era bem diferente dos demais estabelecimentos banc\u00e1rios, de acesso mais restrito a correntistas e funcion\u00e1rios. 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