{"id":130097,"date":"2022-01-22T20:30:31","date_gmt":"2022-01-22T23:30:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=130097"},"modified":"2022-01-22T21:10:58","modified_gmt":"2022-01-23T00:10:58","slug":"a-partida-de-uma-mae-a-grio-e-a-superacao-das-adversidades-sob-a-otica-da-engenharia-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2022\/01\/22\/a-partida-de-uma-mae-a-grio-e-a-superacao-das-adversidades-sob-a-otica-da-engenharia-social\/","title":{"rendered":"A partida de uma m\u00e3e: a gri\u00f4 e a supera\u00e7\u00e3o das adversidades sob a \u00f3tica da engenharia social"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-130098\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-1-271x300.jpg\" alt=\"efsoon (1)\" width=\"271\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-1-271x300.jpg 271w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-1.jpg 432w\" sizes=\"(max-width: 271px) 100vw, 271px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Efson Lima<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, eu escrevi sobre as partidas de alguns intelectuais sulbaianos. Falei sobre a covid -19 e seus desafios, cuja doen\u00e7a imp\u00f4s milhares de mortes no Brasil, comentei sobre o direito \u00e0 sa\u00fade, busquei tecer sobre a saudade das pessoas comuns e dos imortais&#8230; abordei tamb\u00e9m os desafios para 2022, como encartei naquele texto de 31 de dezembro de 2021, naquela que seria a \u00faltima sexta-feira de Maria Geni. Eu n\u00e3o imaginava que, nos primeiros dias deste ano, teria que escrever sobre a partida de minha m\u00e3e para o plano transcendental. De imediato, pe\u00e7o licen\u00e7a para falar sobre ela, leitor. Mas, os senhores observar\u00e3o que ela est\u00e1 para al\u00e9m de nossa fam\u00edlia. Ela foi m\u00e3e de nove filhos biol\u00f3gicos, teve in\u00fameros netos, bisnetos&#8230;. e foi m\u00e3e de tantos outros que se aproximaram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recentemente escrevi um poema em que busco conceituar o termo m\u00e3e. Para muitos, m\u00e3e \u00e9 genitora, para outros \u00e9 mulher criadora. No primeiro, encontramos o tra\u00e7o biol\u00f3gico, o DNA; no segundo a sociafetividade das rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o tecidas seja para os que s\u00e3o da prole e seja tamb\u00e9m para os que s\u00e3o acolhidos e agasalhados pelo la\u00e7o da ternura. \u201cCora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e sempre cabe mais um\u201d, as m\u00e3es sempre assim abordaram a amplia\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Estas correla\u00e7\u00f5es v\u00e3o demarcando os caminhos de cada um e de cada uma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-130099\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-2-142x300.jpg\" alt=\"efsoon (2)\" width=\"142\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-2-142x300.jpg 142w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-2.jpg 242w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><\/a>Hoje, estou na altura dos meus 37 anos. Tive a oportunidade de conviver com \u201cmamys\u201d durante 23 anos sob o mesmo teto, o destino nos separou fisicamente em 2007, precisei caminhar pelo mundo das oportunidades boas e ruins&#8230; fui estudar em Salvador. Na caminhada da vida, como sabido, nem sempre encontramos flores e rosas. Os espinhos surgem num lindo roseiral&#8230; ou pode ser colocado na esquina seguinte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo diante da dist\u00e2ncia f\u00edsica, o sentimento era o mesmo quando nos encontr\u00e1vamos, as liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas acalentavam a saudade&#8230;. as perguntas delas sobre mim n\u00e3o exerciam controle moral, mas a preocupa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e em face do menino que havia se tornado doutor, em cuja manh\u00e3 da defesa da tese, ela passou o turno todo orando. Passar o fim de ano era esperado, assim como o per\u00edodo da Semana Santa. Evang\u00e9lica, ela precisou ser tolerante com as diferentes percep\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9 de cada um. No Natal, eu decorava a \u00e1rea externa da casa, mas n\u00e3o me sobrava tempo para retirar o pisca-pisca, as bolas coloridas, o papai noel colocados sobre algumas d\u00fazias de caqueiros de plantas&#8230; eu voltava para Salvador e ela retirava cada um daqueles objetos e embalava-os para o pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo Natal, 2021, por coincid\u00eancia, eu n\u00e3o coloquei a decora\u00e7\u00e3o do Natal. Chovia muito na regi\u00e3o. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o teria tempo para retirar os adere\u00e7os decorativos. O destino n\u00e3o iria colaborar. Tive a sorte da aeronave aterrissar no aeroporto. O taxista disse: \u201c o tempo abriu para voc\u00ea\u201d. Em casa, m\u00e3o confidenciou-me: \u201ceu estava orando para voc\u00ea desembarcar e n\u00e3o precisar voltar\u201d. Nessa caminhada, s\u00f3 um Natal n\u00e3o passei em casa, o de 2013 para 2014. Eu lutava para n\u00e3o viajar no per\u00edodo. Natal tinha que ser em fam\u00edlia sob o olhar atento daquela mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mulher no sentido pleno. M\u00e3e no sentindo de guerreira. Educar 9 filhos para determinadas fam\u00edlias \u00e9 fichinha. Para uma mulher que n\u00e3o alcan\u00e7ou a quarta s\u00e9rie do ensino fundamental foi um mega desafio. As condi\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o existiam. Levar-nos de Entroncamento de Itap\u00e9 para Ilh\u00e9us foi contar com a sorte. Era mulher de f\u00e9. Foi cat\u00f3lica fervorosa e nos fins dos anos oitenta se tornou evang\u00e9lica. Ela sempre estava a aprender. Quando surgiu um programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o no bairro, ela se matriculou.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-130100\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-3-300x142.jpg\" alt=\"efsoon (3)\" width=\"300\" height=\"142\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-3-300x142.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/efsoon-3.jpg 820w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nossa m\u00e3e foi uma gri\u00f4. Uma contadora de causos, est\u00f3rias e hist\u00f3rias. Tinha uma mem\u00f3ria invej\u00e1vel. Narrava os fatos com os detalhes a justificar sentido para ela e para o ouvinte. Acompanhei minha m\u00e3e em in\u00fameras rodas de conversa. Competia-me apenas ouvir na inf\u00e2ncia; na adolesc\u00eancia, complementava as informa\u00e7\u00f5es. Na vida adulta, tornei-me parceiro: ela contava, eu ouvia os fatos e os reproduzia nos textos, nos poemas, na minha vida cotidiana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o aprendi solidariedade e respeito na caminhada, mas em casa, dividindo o \u00fanico ovo com os irm\u00e3os; compartilhando o sal com a vizinha&#8230; o sentido de comunidade a mim \u00e9 pleno e o respeito \u00e0s pessoas e \u00e0 vida tem cada vez mais sentido. N\u00e3o foram a UFBA, a UESC, a FIOCRUZ, a gradua\u00e7\u00e3o, o mestrado e o doutorado, foram \u00e0 labuta di\u00e1ria e o respeito \u00e0s pessoas que precis\u00e1vamos ter sempre. Essas institui\u00e7\u00f5es lapidaram conhecimento, ofereceram -me o t\u00e9cnico e a reflex\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nDignidade da pessoa humana \u00e9 chav\u00e3o na Academia. Dif\u00edcil \u00e9 no lugar \u00e1rido da educa\u00e7\u00e3o formal, onde muitas das vezes restam os rev\u00f3lveres para conferir sentido e dimens\u00e3o \u00e0 vida. Pegar ou largar s\u00e3os apenas os verbos oportunizadores de quem mora nessas \u00e1reas. O tr\u00e1fico de drogas foi meu vizinho. As cenas que as televis\u00f5es mostram, eu as via sem filtro. Pertinho, na minha frente, no meu lado. Na \u00faltima vez, que subi na laje de casa, olhei para a imensid\u00e3o do mar, mas vi tamb\u00e9m a imensid\u00e3o de casas espalhadas pelos morros. Refleti: eu fui criado por uma engenheira social.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nM\u00e3e sempre creditou no milagre para superar as adversidades. Eu materialista convicto, percebo que ela se pautou na for\u00e7a da supera\u00e7\u00e3o e no aprendizado direto das observa\u00e7\u00f5es. Foi pragm\u00e1tica. Protestou quando teve sua barraca na Feira do Malhado desmantelada. Pescava uma vez por semana nos rios em Itap\u00e9; plantava pequenas ro\u00e7as nas propriedades alheias para alimentar-nos; contava-nos in\u00fameras est\u00f3rias envolvendo cobras, das quais precisou se desvencilhar quando da colheita de tucum e uruba na estrada de Barro Preto. Fazia vassouras e peneiras para vender. Fez redes e jerer\u00e9s. Improvisou uma pequena granja no fundo de casa em Entroncamento. Correu da on\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi m\u00e3e e crian\u00e7a. Brincou com os netos e viu os bisnetos chegarem. Contava cada um e uma. Era a forma de fazer a chamada. Seus cabelos brancos evidenciavam os desafios enfrentados e as batalhas vencidas. Percebendo os desafios vindouros, tra\u00e7ada que era ( forma pela qual foi chamada pelo genro e pela bisneta), partiu para o plano superior.<\/p>\n<p>N\u00e3o fugiu da luta, foi buscar prote\u00e7\u00e3o maior para todos n\u00f3s, inclusive, para voc\u00ea, leitor. Ela sempre foi solid\u00e1ria. S\u00f3 nos \u00faltimos dias, eu passei a compreender melhor os cadernos, os l\u00e1pis e as canetas que comprava e dava aos rapazes que trabalhavam na feira com ela. M\u00e3e sempre acreditou na for\u00e7a da educa\u00e7\u00e3o para transformar as pessoas. Obrigado, m\u00e3e!<\/p>\n<p>&#8212;-<\/p>\n<p>Efson Lima \u2013 Doutor, mestre e bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Aprovado em primeiro lugar no exame da OAB na Bahia, que lhe conferiu a carteira de advogado. Escritor. Membro da Academia Grapi\u00fana de Letras. Membro &#8211; eleito para Academia de Letras de Ilh\u00e9us. Articulista do jornal A Tarde. Professor universit\u00e1rio. Coordenador de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Inclus\u00e3o S\u00f3cioprodutiva no Estado da Bahia. FILHO de MARIA GENI LIMA PEREIRA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Efson Lima &nbsp; Nos \u00faltimos anos, eu escrevi sobre as partidas de alguns intelectuais sulbaianos. 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