{"id":119256,"date":"2024-10-26T13:13:56","date_gmt":"2024-10-26T16:13:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=119256"},"modified":"2024-10-24T11:23:48","modified_gmt":"2024-10-24T14:23:48","slug":"irmao-sol-irma-lua-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2024\/10\/26\/irmao-sol-irma-lua-2\/","title":{"rendered":"Irm\u00e3o Sol, Irm\u00e3 Lua"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Daniel Thame<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dt-chapeu.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-111129\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dt-chapeu-300x283.jpg\" alt=\"dt chapeu\" width=\"254\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dt-chapeu-300x283.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dt-chapeu.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 254px) 100vw, 254px\" \/><\/a>Ele era trabalhador rural numa fazenda em Canavieiras, cidade que era o limite de seu mundo e para onde ia, todos os finais de semana, fazer a feira, composta de arroz, feij\u00e3o, farinha, \u00f3leo, a\u00e7\u00facar, sal e, de vez em quando, jab\u00e1, fato e chupa-molho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m, \u00e9 claro, da garrafa de cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Ela era mulher de um trabalhador rural em Ipia\u00fa, cidade que era o limite de seu mundo e para onde ia, todos os finais de semana, orar no culto na igreja evang\u00e9lica que lhe oferecia o c\u00e9u como compensa\u00e7\u00e3o para a vida dura na terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Orava pela sa\u00fade do marido, cujo trabalho garantia o sustento da fam\u00edlia, e por um futuro melhor para os tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p>Se essa fosse a vontade de Deus&#8230;<\/p>\n<p>Quando vieram os sinais de que a crise provocada pela vassoura-de-bruxa era pior do que se imaginava, ele foi despedido da fazenda e mudou-se para Camacan, onde conseguiu um emprego de gari na prefeitura.<\/p>\n<p>Como a bruxa n\u00e3o tinha limites e se alastrava por toda a regi\u00e3o, o marido dela tamb\u00e9m perdeu o emprego. T\u00e3o logo chegaram a Ubaitaba, para onde se mudaram, ela conseguiu um emprego de dom\u00e9stica. Meses depois, o marido a abandonou e sumiu no mundo, deixando-a sozinha com tr\u00eas crian\u00e7as para cuidar.<\/p>\n<p>Quando a prefeitura de Camacan, abalada pela decad\u00eancia da cidade e com a arrecada\u00e7\u00e3o despencando, teve que demitir funcion\u00e1rios, os apadrinhados foram mantidos, ele, pobre gari, perdeu o emprego.<\/p>\n<p>Foi tentar a vida em Itabuna, onde passou a viver de pequenos bicos e morar num barraco no Maria Pinheiro, bairro paup\u00e9rrimo nas fraldas da periferia da cidade.<\/p>\n<p>Em Ubaitaba, a patroa, empobrecida pela crise, n\u00e3o teve como manter a empregada. Penalizada, ainda deu o dinheiro para a viagem at\u00e9 Itabuna, o m\u00e1ximo aonde aquela pobre mulher poderia ir.<\/p>\n<p>No mesmo bairro Maria Pinheiro, montou um barraco, misto de papel\u00e3o e restos de madeira, e passou a trabalhar como lavadeira, ganhando o p\u00e3o com o suor do seu rosto banhando as \u00e1guas do Rio Cachoeira.<\/p>\n<p>Os dois se cruzaram quando ele voltava do centro da cidade, onde acabara de ganhar 15 reais para limpar um terreno, e ela levava na cabe\u00e7a uma imensa trouxa de roupas.<\/p>\n<p>Ele se ofereceu para ajudar, ela aceitou.<\/p>\n<p>No barraco, ele aceitou o caf\u00e9 ralo que ela ofereceu.<\/p>\n<p>Sorriram, escancarando os poucos dentes daquelas bocas que, na sequ\u00eancia, trocaram o primeiro beijo.<\/p>\n<p>Dias depois, estavam morando juntos, dividindo a mesma cama sob um teto cheio de buracos em que, nas lindas noites de ver\u00e3o, podiam contemplar estrelas, distra\u00eddos.<\/p>\n<p>A bruxa, que tantas vidas havia tragado, tantas trag\u00e9dias pessoais e coletivas havia causado, aben\u00e7oou aquele encontro mais do que improv\u00e1vel.<\/p>\n<p>Virou, ainda que por linhas tortas, uma fada.<\/p>\n<p>E eles, que nunca tiveram nada, juntaram o pouco que agora tinham e foram felizes para sempre!<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;<br \/>\n<em>Conto extra\u00eddo \u00a0do livro\u00a0 \u201cVassoura\u201d- a hist\u00f3ria que Jorge Amado n\u00e3o viveu pra contar- Editora Via Litterarum<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Thame &nbsp; Ele era trabalhador rural numa fazenda em Canavieiras, cidade que era o limite de seu mundo e para onde ia, todos os finais de semana, fazer a feira, composta de arroz, feij\u00e3o, farinha, \u00f3leo, a\u00e7\u00facar, sal e, de vez em quando, jab\u00e1, fato e chupa-molho. 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