{"id":116,"date":"2025-02-15T11:13:00","date_gmt":"2025-02-15T14:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2008\/11\/14\/profissao-reporter\/"},"modified":"2025-02-14T15:49:40","modified_gmt":"2025-02-14T18:49:40","slug":"profissao-reporter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2025\/02\/15\/profissao-reporter\/","title":{"rendered":"Profiss\u00e3o Rep\u00f3rter-Mem\u00f3rias de um 22 de abril&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Daniel Thame<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-148718\" src=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/DT-jornalista-Cuba.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/>Entre as v\u00e1rias reportagens que diz ao longo desses mais de\u00a0 46 anos de estrada, 37 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemora\u00e7\u00e3o, organizada a car\u00e1ter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela pol\u00edcia baiana contra \u00edndios, negros,\u00a0 sem-terras e estudantes.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do fat\u00eddico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais n\u00e3o se contentavam em fazer figura\u00e7\u00e3o no teatrinho armado pelo governo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o tive d\u00favidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabr\u00e1lia, testemunhei uma demonstra\u00e7\u00e3o de trucul\u00eancia e insanidade que repercutiu em todo mundo. N\u00e3o perdi nenhuma festa, at\u00e9 porque festa n\u00e3o houve, para desalento do ent\u00e3o Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.<\/p>\n<p>A reportagem foi publicada no jornal A Regi\u00e3o. A foto \u00e9 de Lula Marques.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SR1_cFBlnqI\/AAAAAAAAAL0\/dVuzr3FNF6o\/s1600-h\/500+anos+do+Brasil,+foto+Lula+Marques+2.jpg\"><img id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5268507259455250082\" style=\"display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: hand; width: 320px; height: 213px;\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_BSCeP9r5uD8\/SR1_cFBlnqI\/AAAAAAAAAL0\/dVuzr3FNF6o\/s320\/500+anos+do+Brasil,+foto+Lula+Marques+2.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<h2>Pol\u00edcia barra povo e FHC<br \/>\nfaz festa vip dos 500 anos<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dois epis\u00f3dios ocorridos na tarde-noite de sexta-feira, dia 21 de abril de 2000, ajudam a entender o festival de selvageria em que se transformou a festa dos 500 anos do Brasil, exaustivamente preparada para coroar o Governo da Bahia e, principalmente, catapultar o senador Antonio Carlos Magalh\u00e3es para a sucess\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por volta das 16 horas, policiais militares fortemente armados bloquearam a rodovia que liga Eun\u00e1polis a Porto Seguro. Eles alegavam cumprir ordens da Defesa Civil, j\u00e1 que a cidade n\u00e3o comportava mais ningu\u00e9m. Tudo perfeito, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de um mero detalhe: Porto Seguro n\u00e3o possui Defesa Civil. O objetivo era evitar que os sem-terra, acampados em Eun\u00e1polis, entrassem em Porto. O bloqueio foi estendido a turistas e at\u00e9 aos moradores das duas cidades. Um turista que veio de Jo\u00e3o Pessoa, na Para\u00edba, exibiu as reservas de hotel e afirmou que seu direito de ir e vir, garantido pela Constitui\u00e7\u00e3o, estava sendo desrespeitado.<\/p>\n<p>A resposta do policial merece entrar para os anais da hist\u00f3ria do Brasil:<\/p>\n<p>-Aqui na Bahia quem manda \u00e9 o Antonio Carlos Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Ou seja, pega a Constitui\u00e7\u00e3o e&#8230;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por volta das 20 horas, \u00e9 realizada em Coroa Vermelha a plen\u00e1ria de encerramento da Confer\u00eancia dos Povos Ind\u00edgenas, que reuniu cerca de 3 mil \u00edndios de 150 tribos de todo o Pa\u00eds. Exaltadas, lideran\u00e7as ind\u00edgenas se referiam a FHC usando termos como &#8220;canalha&#8221;, &#8220;vagabundo&#8221;, &#8220;sem palavra&#8221;.<\/p>\n<p>O ultimo a falar foi o patax\u00f3 Luiz Tili\u00e1. Coube a ele dar o tom da confer\u00eancia:<\/p>\n<p>-Amanh\u00e3 nos vamos fazer uma caminhada at\u00e9 Porto Seguro e a pol\u00edcia n\u00e3o vai deixar. Quero que cada tribo junte os dez guerreiros mais fortes. Eles v\u00e3o na frente, porque n\u00f3s vai passar de qualquer jeito.<\/p>\n<p>Um vidente previu chuvas e trovoadas em Porto Seguro durante o 22 de abril. Acertou na previs\u00e3o do tempo e na met\u00e1fora.<\/p>\n<p>Chovia torrencialmente em Coroa Vermelha quando cerca de mil integrantes do movimento Outros 500, formado principalmente por estudantes mal sa\u00eddos da adolesc\u00eancia, marchavam para a \u00e1rea onde foi realizada a confer\u00eancia ind\u00edgena. O objetivo era se juntar aos \u00edndios na caminhada at\u00e9 Porto Seguro.<\/p>\n<p>A\u00ed, surge a pol\u00edcia militar. Um manifestante negro \u00e9 agarrado pelos cabelos. Sua companheira tenta defend\u00ea-lo e \u00e9 jogada ao ch\u00e3o. O tumulto estava formado. Policiais atiram para o alto, jogam bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e espancam quem aparece pela frente.<\/p>\n<p>Assustados, os manifestantes correm para as casas dos patax\u00f3s e respondem \u00e0s agress\u00f5es com pedradas. Uma das pedras atinge o \u00edndio Crispim na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Pronto. Estava dado o pretexto para que o comandante da opera\u00e7\u00e3o, Wellington Muller, prendesse cerca de 140 integrantes do Outros 500. Alegou que estava agindo em defesa dos \u00edndios, embora os pr\u00f3prios ind\u00edgenas alegassem que a pedrada em Crispim fora acidental e provocada pela trucul\u00eancia com que a pol\u00edcia investiu contra os manifestantes.<\/p>\n<p>Procuradores da Rep\u00fablica, a senadora Marina Silva, os deputados Haroldo Lima e Jos\u00e9 Dirceu e a deputada estadual Alice Portugal tentaram, em v\u00e3o, argumentar que as pris\u00f5es eram ilegais e que a viol\u00eancia dos PMs era injustificada. A todos, Muller respondia com um monoc\u00f3rdio &#8220;n\u00e3o reconhe\u00e7o sua autoridade.&#8221;<\/p>\n<p>Armou-se o palco para um conflito de propor\u00e7\u00f5es maiores e ele evidentemente ocorreu. Por volta das 11 horas, \u00edndios marchavam para Porto Seguro quando encontraram uma barreira de PMs, incluindo o batalh\u00e3o de choque. Antes mesmo que os \u00edndios se aproximassem os PMs come\u00e7aram atirar com balas de borracha e a jogar bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Saldo: mais de 30 feridos, entre eles nenhum policial militar, prova maior de que n\u00e3o houve confronto e que apenas uma das partes bateu.<\/p>\n<p>E como bateu! Jornalistas de todo o Brasil e da v\u00e1rias partes do mundo comentavam que a repress\u00e3o aos \u00edndios, negros e sem-terras j\u00e1 era previs\u00edvel. O que assustou a todos foi a viol\u00eancia com que a pol\u00edcia militar agiu. Era como se n\u00e3o bastasse apenas impedir que os manifestantes chegassem a Porto Seguro mas, como disse a senadora Marina Silva, deixar bem claro a todos, que nesse pa\u00eds lugar de pobre \u00e9 na senzala, enquanto a classe dominante goza os prazeres da casa grande.<\/p>\n<p>Corta, ent\u00e3o, para a casa grande. No estrelad\u00edssimo hotel Vela Branca, cercado por um forte aparato de seguran\u00e7a, Fernando Henrique e o presidente de Portugal Jorge Sampaio almo\u00e7am com convidados. A elite empresarial e pol\u00edtica do Pa\u00eds. Num pronunciamento insosso, FHC falou dos avan\u00e7os sociais do pa\u00eds, alfinetou os sem-terra e, por fim, fez um brinde com a leg\u00edtima cacha\u00e7a brasileira.<\/p>\n<p>Do lado de fora do banquete, uma cena ins\u00f3lita. Impedidos de trabalhar (desta vez a trucul\u00eancia ficou por conta dos seguran\u00e7as e dos burocratas do Itamaraty), jornalistas sentaram no ch\u00e3o e cantaram o Hino Nacional. Minutos depois, numa entrevista coletiva montada \u00e0s pressas, FHC tentou ironizar os jornalistas e cantou tamb\u00e9m o Hino Nacional. Errou a letra duas vezes.<\/p>\n<p>O que esperar de um presidente que, j\u00e1 no segundo mandato, n\u00e3o sabe o hino do Pa\u00eds que governa?<\/p>\n<p>Para que a visita, prevista para durar quatro dias e encurtada sucessivamente at\u00e9 se resumir a meras tr\u00eas horas, n\u00e3o se limitasse ao almo\u00e7o, o presidente visitou a Cidade Hist\u00f3rica, reformada pelo Governo do Estado. Cumprimentou a simp\u00e1tica fam\u00edlia Sch\u00fcrmann que voltava ap\u00f3s uma viagem de dois anos pelo mundo, plantou uma muda de Pau Brasil, acendeu a Chama do Conhecimento, viu atores fantasiados de \u00edndios e posou para fotos abra\u00e7ado a baianas do acaraj\u00e9.<\/p>\n<p>Os moradores da Cidade Hist\u00f3rica viram a festa da janela, impedidos que estavam de sair de casa.<br \/>\nEra vis\u00edvel o desconforto do senador ACM e do governador C\u00e9sar Borges. O primeiro, perguntado sobre a repress\u00e3o aos \u00edndios e sem-terras, respondeu que preferia n\u00e3o ver, porque era \u00e9 um dia de festa, um dia para os brasileiros comemorarem. O segundo afirmou que apenas manteve a ordem, garantindo a seguran\u00e7a do presidente.<\/p>\n<p>Sensato, o senador Paulo Souto condenou a maneira como o processo foi conduzido:<\/p>\n<p>-O Governo do Estado fez grandes obras em Porto Seguro, urbanizou Coroa Vermelha, construiu um Centro de Conven\u00e7\u00f5es fant\u00e1stico, mas o que vai repercutir no mundo todo s\u00e3o os tumultos.<\/p>\n<p>Acertou na mosca. A imprensa brasileira (incluindo a Rede Globo, que em determinado momento tentou se apoderar da celebra\u00e7\u00e3o dos 500 anos) deu amplo destaque \u00e0 pancadaria e pouco falou da visita ao Centro Hist\u00f3rico. Jornais como o New York Times, dos EUA, o Lib\u00e9ration, da Fran\u00e7a, e o Independent, da Inglaterra, falaram da viol\u00eancia contra os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A foto do \u00edndio Gildo Terena, ajoelhado no asfalto e de bra\u00e7os abertos pedindo clem\u00eancia aos policiais, saiu na capa dos principais jornais do planeta. A mesma imagem, com a sequ\u00eancia onde Terena \u00e9 atingido por uma bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e em seguida pisoteado pelos PMs foi veiculada em centenas de emissoras de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Fernando Henrique foi embora antes de assistir ao espet\u00e1culo \u201cO dia em que o Brasil nasceu\u201d, misto de teatro e cinema com luzes e fogos de artif\u00edcio. Escapou de um derradeiro constrangimento.<\/p>\n<p>Revoltados porque o show era apenas para convidados do governo e pela coloca\u00e7\u00e3o de um tapume que impedia qualquer vista do espet\u00e1culo, turistas e moradores primeiro protestaram com xingamentos. Depois, jogaram pedras aleatoriamente. Antes que a revolta ganhasse propor\u00e7\u00f5es incontrol\u00e1veis, a pol\u00edcia chegou e, conhecedores do que havia ocorrido com os \u00edndios, negros, estudantes e sem-terras, as pessoas preferiram optar por programas menos arriscados, como passear pela Passarela do \u00c1lcool.<\/p>\n<p>Os rel\u00f3gios marcavam duas horas e trinta minutos do dia 23 de abril quando voltou a chover torrencialmente em Porto Seguro. Entre ir\u00f4nico e revoltado, um b\u00eabado comentou:<\/p>\n<p>-Depois de uma confus\u00e3o dessas, na festa dos 1000 anos do Descobrimento eu n\u00e3o venho de jeito nenhum.<\/p>\n<p>Provavelmente nem FHC, ainda que na remota hip\u00f3tese de sucessivas reelei\u00e7\u00f5es e da imortalidade que s\u00f3 os que se julgam deuses costumam almejar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nem FHC&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Daniel Thame &nbsp; Entre as v\u00e1rias reportagens que diz ao longo desses mais de\u00a0 46 anos de estrada, 37 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. 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