{"id":111996,"date":"2021-01-30T07:12:54","date_gmt":"2021-01-30T10:12:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=111996"},"modified":"2021-01-29T18:21:23","modified_gmt":"2021-01-29T21:21:23","slug":"os-remedios-e-a-hospitalidade-na-farmacia-de-dortas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2021\/01\/30\/os-remedios-e-a-hospitalidade-na-farmacia-de-dortas\/","title":{"rendered":"Os rem\u00e9dios e a hospitalidade na \u201cFarm\u00e1cia\u201d  de Dortas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-111997\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/A-Farmacinha-de-Dortas.jpg\" alt=\"A Farmacinha de Dortas\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/A-Farmacinha-de-Dortas.jpg 960w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/A-Farmacinha-de-Dortas-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Walmir Ros\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-77408\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/walmir-150x150.jpg\" alt=\"walmir\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Bem na subida no Beco do Fuxico no cruzamento com o Cal\u00e7ad\u00e3o da Rui Barbosa se estabelecia Dortas (Jos\u00e9 Lins Andrade) com seus servi\u00e7os de beberagem e corretagem zool\u00f3gica, mais conhecida como jogo do bicho. Em Dortas, o servi\u00e7o era especializado em cacha\u00e7a com folhas, todas com receitu\u00e1rio e bula, a depender dos sintomas apresentados nos clientes, e cerveja bem gelada.A clientela era bem variada, ecl\u00e9tica como em todo o botequim que se preza. Uma casa com tr\u00eas portas, duas abertas e uma fechada (at\u00e9 a altura de tr\u00eas quartos), onde se localizava a \u00fanica mesa. Ao lado da mesa e em cima do balc\u00e3o um pequeno caixote com quatro litros de cacha\u00e7a, dispostos estrategicamente. Em cada um dos quatro lados se repetiam quatro tipos da mais leg\u00edtima cacha\u00e7a com folha.<\/p>\n<p>No caixote medicinal, Angico, Pra Tudo, Milome e Jatob\u00e1. Esse local \u2013 uma esp\u00e9cie de reservado \u2013 era destinado aos clientes da casa, gente que n\u00e3o perdia um dia sequer uma passadinha ao meio-dia e no fim da tarde. Era um ritual, beber uma para abrir o apetite antes do almo\u00e7o e outras sem conta no final da tarde, a depender da disponibilidade e disposi\u00e7\u00e3o do cliente.<\/p>\n<p>Pelas duas portas entr\u00e1vamos at\u00e9 um balc\u00e3o comum, cuja utilidade seria delimitar o espa\u00e7o dos clientes mais novos, pois os fi\u00e9is, useiros e vezeiros, se acomodavam onde queriam e podiam. No velho balc\u00e3o, nenhuma mercadoria \u00e0 venda, mas tinha muita serventia, pois guardavam alguns pertences e sacolas dos clientes, al\u00e9m de apoio de cinturas e bra\u00e7os da chamada turma do p\u00e9 de balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Do lado de dentro do balc\u00e3o, uma geladeira comum, dessas de resid\u00eancia, um grande cofre, que na falta de dinheiro guardava as pules e os pr\u00eamios do jogo de bicho, e uma escrivaninha. Circulando nesse pequeno espa\u00e7o, Dortas servia os fregueses do bar e do jogo de bicho, ao mesmo tempo em que dizia ser filho de Deus e solicitava que o inclu\u00edssem na rodada de cacha\u00e7a a ser servida, por conta dos clientes, \u00e9 claro.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>E nesse clima f\u00e1rmaco et\u00edlico, uma cerveja de vez em quando, j\u00e1 que n\u00e3o era o carro-chefe de vendas. \u00c0s sextas-feiras e s\u00e1bados, casa cheia, clientes de bota uma a\u00ed, toma aqui, bebe e paga se juntavam aos tradicionais p\u00e9 de balc\u00e3o e ocupantes da \u00fanica mesa, que deveriam chegar mais cedo para encontr\u00e1-la vazia. E as rodadas iam descendo sem gar\u00e7om para servir ou comanda para anotar.<\/p>\n<p>Em cada grupo a rodada ficava por conta de um dos fregueses, que anunciavam: \u201cAgora \u00e9 por minha conta\u201d! Se serviam e anotavam as doses na cabe\u00e7a, para acerto final na sa\u00edda, pois eram todos gente da casa. E a \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o de Dortas era prestar a aten\u00e7\u00e3o nos pedidos para incluir a sua dose na conta. De vez em quando, ele gritava alegremente: \u201cAgora \u00e9 por conta da casa!\u201d.<\/p>\n<p>E cada um dos fregueses tinha um itiner\u00e1rio a cumprir: uns passavam, bebiam sua dose e iam embora, outros j\u00e1 vinham de outros bares e um grupo vinha sentar pra\u00e7a at\u00e9 o fechamento. Entre uma cacha\u00e7a e outra passavam a vida da cidade em revista com as \u00faltimas novidades, muitas das vezes com hist\u00f3rias que ainda seriam not\u00edcia nos pr\u00f3ximos jornais, r\u00e1dios e nas emissoras de TV. Eta povo bem informado.<\/p>\n<p>Aos dias de sexta e s\u00e1bado o expediente era mais alongado, com horas extras e algumas figuras pr\u00f3prias do dia. Um deles era o servidor p\u00fablico federal Nisvaldo Damasceno, que chegava sem pressa ou hor\u00e1rio para retornar pra casa. Conversa vai, conversa vem, chegava a hora do momento cultural, no qual Damasceno e Dortas declamavam poesias de Greg\u00f3rio de Matos e Augusto dos Anjos, com direito a acompanhamento no viol\u00e3o.<\/p>\n<p>Como botequim \u00e9 \u2013 reconhecidamente \u2013 um local de cultura, motoristas, balconistas, contabilistas, advogados, banc\u00e1rios, serventu\u00e1rios da justi\u00e7a, servidores p\u00fablicos debatiam as mais diversas quest\u00f5es pendentes do Brasil. Ao final, nenhum caso ficava sem solu\u00e7\u00e3o e todos deixavam \u2013 a contragosto \u2013 o bar dispostos a continuarem a conversa noutro boteco a caminho de casa.<\/p>\n<p>Mesmo com a presen\u00e7a do enorme cofre no recinto, a clientela sequer o respeitava. Dissimuladamente, fazia de conta que n\u00e3o o via ou se conhecia a sua serventia apenas para guardar dinheiro. \u201cDortas, anota a minha despesa\u201d, gritavam. Outros nem a esse trabalho se davam e anotavam \u2013 eles mesmos \u2013 a quantidade de doses de cacha\u00e7a e cervejas em locais previamente demarcados.<\/p>\n<p>Ao fim de cada semana, quinzena ou m\u00eas \u2013 a depender das datas em que recebiam o pagamento \u2013 chegavam, somavam suas contas e entregavam o dinheiro a Dortas, sem qualquer constrangimento. Eu mesmo, a cada cacha\u00e7a bebida ou autorizada, colocava a mesma quantidade de tampilhas (tampa de cerveja) numa lata velha. Era s\u00f3 somar quantas estavam guardadas e pagar. As cervejas eram anotadas com riscos na folhinha.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, a clientela foi desaparecendo, os mais velhos para o outro mundo (se \u00e9 que existe), os mais novos para outros bares, substitu\u00eddos por uma nova fauna da mesma qualidade. De repente, o velho Dortas resolve se despedir de vez dos clientes, deixando-os \u00f3rf\u00e3os. Portas fechadas, sa\u00edram em busca de abrigo no bar de Batutinha, Caboclo Alencar ou no bar de Ithiel.<\/p>\n<p>Hoje nos resta passar pela porta e nos assustarmos com uma loja de confec\u00e7\u00f5es, brinquedos, ou sapatos, a depender da \u00e9poca. Olhamos de cima a baixo, lan\u00e7amos um olhar profundo para o interior e nos retiramos enfastiados. N\u00e3o nos resta alternativa do que seguir em frente e buscar abrigo em outras paragens, de prefer\u00eancia no Beco do Fuxico, local talhado para o encontro da boemia.<\/p>\n<p><strong>*Radialista, jornalista e advogado<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walmir Ros\u00e1rio Bem na subida no Beco do Fuxico no cruzamento com o Cal\u00e7ad\u00e3o da Rui Barbosa se estabelecia Dortas (Jos\u00e9 Lins Andrade) com seus servi\u00e7os de beberagem e corretagem zool\u00f3gica, mais conhecida como jogo do bicho. 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