{"id":111674,"date":"2021-11-27T07:13:40","date_gmt":"2021-11-27T10:13:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=111674"},"modified":"2021-11-26T20:40:52","modified_gmt":"2021-11-26T23:40:52","slug":"nacao-grapiuna-uma-sintese-da-literatura-identidade-e-povo-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2021\/11\/27\/nacao-grapiuna-uma-sintese-da-literatura-identidade-e-povo-3\/","title":{"rendered":"Na\u00e7\u00e3o grapi\u00fana \u2013 uma s\u00edntese da literatura, identidade e povo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-111675\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/efson-lima-1.jpg\" alt=\"efson lima 1\" width=\"196\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Efson Lima<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-94172\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/efson-lima-150x150.png\" alt=\"efson lima\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Foi pelas m\u00e3os da literatura que o termo na\u00e7\u00e3o grapi\u00fana ganhou dimens\u00e3o maior. Jorge Amado, quando da posse de Adonias Filho na Academia Brasileira de Letras, em 1965, ao proferir o discurso de recep\u00e7\u00e3o, entabulou por 10 vezes os termos grapi\u00fana(s). Qual raz\u00e3o teria para ser t\u00e3o enf\u00e1tico? Certamente para colocar a civiliza\u00e7\u00e3o do cacau no patamar que tanto almejou. Tanto o discurso de Jorge Amado quanto o de Adonias Filho foram organizados naquele mesmo ano no livro \u201cA Na\u00e7\u00e3o Grapi\u00fana\u201d.<br \/>\nMas, afinal, o qu\u00ea possa ser Na\u00e7\u00e3o Grapi\u00fana? No passado, recorr\u00edamos aos dicion\u00e1rios, enciclop\u00e9dias, atualmente, recorremos ao Google no momento da d\u00favida. Eu ainda, em mat\u00e9ria sobre a regi\u00e3o do cacau, prefiro voltar ao historiador, que traduz t\u00e3o bem a Hist\u00f3ria regional, Arl\u00e9o Barbosa, que em \u201cNot\u00edcia Hist\u00f3rica de Ilh\u00e9us\u201d sintetiza sobre o termo grapi\u00fana. \u201cNa topon\u00edmia do sul da Bahia sempre se sobressaiu a palavra \u201cgrapi\u00fana\u201d. Anteriormente o termo abrangia a todos os aut\u00f3ctones da regi\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-111676\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/efson-lima-2.jpg\" alt=\"efson lima 2\" width=\"191\" height=\"265\" \/>Atualmente foi monopolizado pelos itabunenses para designar somente os nativos daquela cidade. Entretanto, ainda \u00e9 comum o seu uso como gent\u00edlico de todos os habitantes da regi\u00e3o Cacaueira\u201d, (BARBOSA, 2013, p. 93).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Particularmente, penso que \u00e9 de bom tom utilizar a palavra para se referir a todo o complexo cultural, inclusive, os habitantes, da civiliza\u00e7\u00e3o do cacau sulbaiana. Ali\u00e1s, registra-se que foi Afr\u00e2nio Peixoto, que pela primeira vez descreveu a paisagem do cacau, como conhecemos, em obra romancista. Registra-se tamb\u00e9m que Ingl\u00eas de Souza, paraense, em 1876, publicou \u201cO Cacaulista\u201d.<\/p>\n<p>Para o professor Arl\u00e9o, a palavra \u201cgrapi\u00fana\u201d tem natureza tupi e est\u00e1 relacionada ao grande n\u00famero de aves de plumagem preta, como jacus, macucos, mutuns e diversas outras que enriquecem a regi\u00e3o da costa do cacau. Por falar em macuco, lembra a cidade de Buerarema, do cronista Ant\u00f4nio Lopes e imortal da Academia de Letras de Ilh\u00e9us.<br \/>\nRecentemente, em 2020, quando da organiza\u00e7\u00e3o do Festival Liter\u00e1rio Sul-Bahia, discutimos qual seria o nome do Festival. Passamos pelo Festival Liter\u00e1rio do Cacau, depois, debatemos sobre poss\u00edvel Festival Liter\u00e1rio Grapi\u00fana, entretanto, um quantitativo de pessoas considerou o termo \u201c grapi\u00fana\u201d pr\u00f3prio para designar os itabunenses e, portanto, n\u00e3o todo o sul da Bahia. Ent\u00e3o, prevaleceu o termo sul -Bahia, com h\u00edfen mesmo. Agora, resta-nos pesquisar e delimitar<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Os aspectos da forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o grapi\u00fana est\u00e3o descritos no livro \u201cTocaia Grande\u201d (1984), de Jorge Amado. Este autor escreveu &#8220;O menino grapi\u00fana&#8221;, onde contou a reminisc\u00eancias da \u00e9poca em que viveu na regi\u00e3o cacaueira, surgindo, segundo a cr\u00edtica, \u00e0 id\u00e9ia de fazer o livro &#8220;Tocaia Grande&#8221;, que abordou o nascimento e desenvolvimento de uma cidade na regi\u00e3o do cacau, como podemos ver no seguinte excerto : \u201cCruzam-se h\u00e1bitos, maneiras de festejar e chorar. Misturam-se sergipanos, sertanejos, levantinos, l\u00ednguas e acentos, odores e temperos, ora\u00e7\u00f5es, pragas e melodias. Nada persistia imut\u00e1vel nas encruzilhadas onde se enfrentavam e se acasalavam pobrezas e ambi\u00e7\u00f5es provindas de lares t\u00e3o diversos. Por isso se dizia grapi\u00fana para designar o novo pa\u00eds e o povo que habitava e constru\u00eda.\u201d(AMADO, 1986, p. 191).<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que, talvez, a ideia de escrever o livro \u201cTocaia Grande\u201d tenha se dado com o livro \u201cO menino grapi\u00fana\u201d, mas n\u00e3o podemos perder de vista que esse sentimento est\u00e1 latente em quase toda a obra amadiana, bem como o discurso de recep\u00e7\u00e3o a Adonias Filho na ABL j\u00e1 deixava n\u00edtido o desejo de fazer um livro para demonstrar a forma\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o do cacau, a na\u00e7\u00e3o grapi\u00fana. Um rom\u00e2ntico &#8211; modernista brasileiro, agora, com toda vontade de afirmar a regi\u00e3o do cacau no cen\u00e1rio nacional.<\/p>\n<p>No pre\u00e2mbulo do discurso de recep\u00e7\u00e3o (1965) na Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado deixa n\u00edtido de onde ele chega para fazer o discurso. Na verdade, fisicamente, ele chega de Salvador, mas n\u00e3o \u00e9 a Salvador imagin\u00e1ria que ele leva ao Rio de Janeiro, o famoso escritor carrega mesmo \u00e9 a regi\u00e3o do cacau na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o: \u201cChego diretamente da Bahia para aqui vos dar as boas-vindas neste momento em que tomais posse de vossa Cadeira na Academia Brasileira, onde vossa falta j\u00e1 se fazia sentir. Posso dizer que chego quase diretamente da regi\u00e3o do cacau, de cidades que n\u00f3s assistimos crescer, a algumas delas assistimos nascer, como, por exemplo a cidade de Itaju\u00edpe, erguida Pirangi, nas proximidades de Sequeiro do Espinho, na \u00e9poca das grandes lutas, nascida na fuma\u00e7a do clavinote de Brasilino Jos\u00e9 dos Santos, compadre Br\u00e1s. Chego das ruas de Ilh\u00e9us onde \u00e9ramos meninos h\u00e1 menos de meio s\u00e9culo. Meninos de Ilh\u00e9us, e \u00e9 nessa condi\u00e7\u00e3o que antes de tudo vos sa\u00fado, com alegria e amizade fraternal, em nome dessa gente grapi\u00fana de quem sois orgulho e gl\u00f3ria. Trazeis sua marca poderosa e engrandecestes a civiliza\u00e7\u00e3o por eles criada, a cultura nascida da lavoura de cacau e da saga de sangue e morte na manh\u00e3 da conquista.\u201d<\/p>\n<p>Na mesma oportunidade, aproveita o audit\u00f3rio qualificado da Academia Brasileira de Letras para afirmar sobre o surgimento da civiliza\u00e7\u00e3o do cacau. N\u00e3o obstante estabelece um paralelo para ressaltar a origem da Literatura do Cacau, evidenciando as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e marca indel\u00e9vel. \u201cDa epop\u00e9ia da conquista da terra surgiu a civiliza\u00e7\u00e3o do cacau e surgiu uma Literatura de cacau, com suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, com sua marca inconfund\u00edvel, sua pr\u00f3pria verdade. Para evitar qualquer mal-entendido quero de logo afirmar que s\u00f3 me considero importante na cria\u00e7\u00e3o dessa fic\u00e7\u00e3o grapi\u00fana at\u00e9 onde \u00e9 importante quem coloca a primeira pedra, o primeiro a abrir uma picada que outros transformariam em estrada ampla&#8230;Creio que aqui vos sa\u00fado tamb\u00e9m em nome desses escritores do cacau que vos consideram mestre de nossa Literatura grapi\u00fana como eu vos considero. Participam eles desta festa de hoje, tamb\u00e9m a sua festa pois \u00e9 a consagra\u00e7\u00e3o da Literatura do cacau, daquela criada por v\u00f3s e da que n\u00f3s criamos, eles e eu. S\u00e3o nossos companheiros de of\u00edcio e de cria\u00e7\u00e3o, filhos do mesmo solo, sofrido, e vale citar os seus nomes desta tribuna, ligando-os ao vosso nome, pois a Literatura por eles constru\u00edda nasce da mesma realidade e da mesma \u00e2nsia que a vossa.\u201d<\/p>\n<p>Jorge Amado, se n\u00e3o comunista para vida toda, foi socialista com ideias inclusivas, pluralista, um aut\u00eantico sujeito democr\u00e1tico e coletivista, certamente, n\u00e3o brilharia a s\u00f3s com Adonias Filho, o individualismo n\u00e3o foi marca de suas obras e da vida amadiana, ent\u00e3o, aproveitou o momento para lembrar dos demais escritores sul-baianos, reconhecendo-os: \u201cMas n\u00e3o apenas floresceu a novel\u00edstica, tamb\u00e9m os demais g\u00eaneros liter\u00e1rios, inclusive a pura flor da Poesia, a rara flor da grande Poesia. Quando nesta noite aqui se exaltam os faustos do cacau, como esquecer o nome de seu poeta, o grande poeta brasileiro Sos\u00edgenes Costa? Muitos outros nomes deveria eu lembrar para dar medida justa do que vai acontecendo nessas terras grapi\u00fanas como fermenta\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias, como trabalho intelectual, como devotamento \u00e0 cultura e ao esfor\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o. Basta com que lembre por\u00e9m os nomes de dois desses trabalhadores. Um, o de Nelson Schaun, recorda tudo quanto ali foi feito pela cultura num tempo em que essa palavra pouco ou nada significava para a gente da terra, quando o dinheiro ainda era t\u00e3o novo que s\u00f3 a ele se dava valor. Nesse tempo, o irredut\u00edvel jornalista foi o s\u00edmbolo vivo das Letras e do estudo, de valor intelectual e de esfor\u00e7o cultural. E, nos dias de hoje, um poeta vindo de fora tem buscado, com persist\u00eancia e entusiasmo, valorizar a civiliza\u00e7\u00e3o do cacau e fazer da regi\u00e3o um centro de permanente interesse art\u00edstico e constante inquieta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, o abnegado Abel Pereira.\u201d<\/p>\n<p>Aproveito para lembrar o papel da Academia de Letras de Ilh\u00e9us no fomento da literatura. Dois dos principais nomes que defenderam e fizeram ser erguida a ALI, sobressaem no discurso de Jorge Amado, reverenciando-os, Nelson Schaun e Abel Pereira, respectivamente, secret\u00e1rio e presidente quando da funda\u00e7\u00e3o do sodal\u00edcio mais consolidado do interior da Bahia, inclusive, com sede pr\u00f3pria e vida cultural pujante. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, os dois primeiros presidentes da Academia Brasileira de Letras s\u00e3o duas grandes personalidades brasileiras, que o tempo n\u00e3o ousou mandar para o esquecimento: Machado de Assis e Rui Barbosa, por sinal, imortais. Que assim continuem!<\/p>\n<p>O sul da Bahia tem tanta identidade em comum, que j\u00e1 defendeu o Estado de Santa Cruz para contemplar a Na\u00e7\u00e3o Grapi\u00fana. Certamente, fomos umbilicalmente ligados pelo cacau, pela literatura e pelos valores &#8211; sejam os impregnados do que a de pior no homem &#8211; vingan\u00e7a, \u00f3dio, mas tamb\u00e9m de desejos e propostas emancipadoras. A literatura do cacau e a arte continuam pujantes por meio de outras lentes, atrav\u00e9s das telas, a partir de outras vozes, escritas, teatro. Agora com a ajuda da tecnologia na TV, nos canais na internet, nas redes sociais&#8230; A cultura tem pulsado, agora, de forma descentralizada e plural. Na\u00e7\u00e3o grapiuna \u00e9 mais que termo topogr\u00e1fico, \u00e9 voc\u00e1bulo que representa a literatura, identidade, cultura e o povo sul &#8211; baiano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>Efson Lima &#8211; coordenador-geral da P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, Pesquisa e Extens\u00e3o da Faculdade 2 de Julho. \u00c9 doutor, mestre e bacharel em Direito pela UFBA. Das terras de Itap\u00e9 e ilheense de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Efson Lima Foi pelas m\u00e3os da literatura que o termo na\u00e7\u00e3o grapi\u00fana ganhou dimens\u00e3o maior. Jorge Amado, quando da posse de Adonias Filho na Academia Brasileira de Letras, em 1965, ao proferir o discurso de recep\u00e7\u00e3o, entabulou por 10 vezes os termos grapi\u00fana(s). Qual raz\u00e3o teria para ser t\u00e3o enf\u00e1tico? 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