{"id":1064,"date":"2011-04-06T08:57:00","date_gmt":"2011-04-06T11:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2011\/04\/06\/1064\/"},"modified":"2011-04-06T08:57:00","modified_gmt":"2011-04-06T11:57:00","slug":"1064","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2011\/04\/06\/1064\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cSe voc\u00ea \u00e9 capaz de tremer de indigna\u00e7\u00e3o a cada vez que se comete uma injusti\u00e7a no mundo, ent\u00e3o somos companheiros\u201d.<\/strong>                                                                                                                  <em> Che Guevara<\/em><\/p>\n<p> O que voc\u00ea faria se num final de tarde sombria, naquela imensid\u00e3o de solid\u00e3o coletiva que \u00e9 a capital paulista, durante a visita ao t\u00famulo de um parente num cemit\u00e9rio praticamente vazio, presenciasse dois policiais militares assassinando friamente uma pessoa algemada e sem condi\u00e7\u00f5es de sem defender?<\/p>\n<p>Conhecendo o modus operandi da pol\u00edcia brasileira e sua cl\u00e1ssica vers\u00e3o \u00b4o marginal foi baleado e veio \u00e0 \u00f3bito ap\u00f3s reagir \u00e0 ordem de pris\u00e3o e trocar tiros com os homens da lei\u00b4, \u00e9 bem prov\u00e1vel que voc\u00ea tratasse de deixar o local o  mais r\u00e1pido poss\u00edvel, rezando para n\u00e3o ser visto e fazer companhia ao rec\u00e9m-assassinado e ao parente ora visitado e pranteado.<\/p>\n<p>Fez o certo, diriam os amigos, ao tomar conhecimento da aventura quase transformada em desventura.<\/p>\n<p> Fez o certo dir\u00e3o todos aqueles que sabem que diante da viol\u00eancia extrema e do rompimento freq\u00fcente dessa linha cada vez mais t\u00eanue que separa uma parcela (pequena \u00e9 verdade) da pol\u00edcia da bandidagem, o melhor a fazer \u00e9 se omitir.<\/p>\n<p> Se poss\u00edvel, apagar da mente o testemunho daquele assassinato, como se ele n\u00e3o fosse real, mas uma apari\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica, num cemit\u00e9rio de almas penadas e vidas friamente penalizadas.<\/p>\n<p> H\u00e1, entretando, os que, desafiando a l\u00f3gica e o bom senso, s\u00e3o capazes de tremer de indigna\u00e7\u00e3o quando presenciam o que consideram uma injusti\u00e7a.<\/p>\n<p> Foi o que fez uma moradora de Ferraz de Vasconcelos, na periferia da Grande S\u00e3o Paulo, que ao presenciar o assassinato de um jovem dentro de um cemit\u00e9rio, ligou para o telefone de emerg\u00eancia da PM, o 190, e narrou, ao vivo, a execu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p> &#8211; A Pol\u00edcia Militar acabou de entrar com uma viatura aqui dentro do cemit\u00e9rio, com uma pessoa dentro do carro, tirou essa pessoa do carro e deu um tiro. Eu estou aqui pr\u00f3ximo \u00e0 sepultura do meu pai. <\/p>\n<p> Em seguida, passa o prefixo da viatura policial e, ainda com o fone ligado, num gesto temer\u00e1rio aborda um dos policiais, que diz que apenas est\u00e1 prestando socorro. \u201c\u00c9 mentira. \u00c9 mentira, senhor. \u00c9 mentira. Eu sei bem o que ele fez&#8221;, diz a mulher ao atendente do 190. Al\u00e9m da extrema coragem, a liga\u00e7\u00e3o provavelmente evitou que a mulher se tornasse aquilo que no jarg\u00e3o marginal se convencionou chamar de queima de arquivo.<\/p>\n<p> De acordo com o que apurou o comando da PM, o rapaz assassinado tinha passagens pela pol\u00edcia e trocou tiros com os soldados, sendo atingido na perna e capturado. O procedimento padr\u00e3o seria levar o bandido a um pronto socorro para receber atendimento e sem seguida ele que pagasse por seus crimes, como determina a lei.<\/p>\n<p>Pelo menos quando se trata da lei que vale para pobres coitados&#8230;<\/p>\n<p>Mas, no meio do caminho havia um cemit\u00e9rio, havia a lei n\u00e3o escrita de que bandido bom \u00e9 bandido morto. E mortos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do que acreditam os adeptos do espiritismo, n\u00e3o falam.<\/p>\n<p>No meio do caminho havia, tamb\u00e9m, uma mulher, que est\u00e1 sob prote\u00e7\u00e3o e que se tornou um exemplo de an\u00f4nima coragem, que ao se indignar, n\u00e3o pensou no bandido, mas o ser humano que estava sendo v\u00edtima de uma atrocidade.<\/p>\n<p>Lapidar, nesse caso, \u00e9 a frase do comandante da PM ao se referir ao, digamos, azar dos policiais-assassinos:<\/p>\n<p> -Talvez eles tenham acreditado que n\u00e3o tivesse ningu\u00e9m. Mas num cemit\u00e9rio, num s\u00e1bado \u00e0 tarde, sempre tem algu\u00e9m chorando por algu\u00e9m.<br \/> N\u00e3o apenas chorando por algu\u00e9m, mas reagindo por algu\u00e9m, como se uma simples liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica fosse  poss\u00edvel tornar o mundo menos brutal e animalesco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe voc\u00ea \u00e9 capaz de tremer de indigna\u00e7\u00e3o a cada vez que se comete uma injusti\u00e7a no mundo, ent\u00e3o somos companheiros\u201d. 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