{"id":106304,"date":"2020-09-19T07:13:04","date_gmt":"2020-09-19T10:13:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=106304"},"modified":"2020-09-18T09:17:11","modified_gmt":"2020-09-18T12:17:11","slug":"teje-preso-seu-amarrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2020\/09\/19\/teje-preso-seu-amarrado\/","title":{"rendered":"&#8220;Teje  preso, seu amarrado!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Walmir Ros\u00e1rio<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-77408\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/walmir-300x225.jpg\" alt=\"walmir\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/walmir-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/walmir.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Lembro-me bem que nos tempos em que ainda crian\u00e7a, a seguran\u00e7a p\u00fablica era feita com muito esmero, embora os exageros tamb\u00e9m fossem fecundos. N\u00e3o era pra menos, pois os tempos eram outros, em que n\u00e3o se falava em direitos humanos. O que valia mesmo era a palavra das autoridades, ou na falta delas, de algu\u00e9m que detivesse algum poder.<\/p>\n<p>Em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a, em Itabuna, os equipamentos eram bem distribu\u00eddos. Em cada um dos bairros existia um aparelho da delegacia, com delegado e os chamados \u201cinspetores\u201d, geralmente um funcion\u00e1rio da prefeitura destinado para este fim, ou algu\u00e9m que tinha a pol\u00edcia como voca\u00e7\u00e3o, vontade essa n\u00e3o realizada.<\/p>\n<p>A autoridade competente em cada um desses bairros era algu\u00e9m indicado pelo prefeito por ser seu amigo, seu cabo eleitoral, ou algu\u00e9m com coragem suficiente para meter os meliantes no xadrez. Sim, em cada um desses aparatos existia uma cela, onde eram \u201cenjaulados\u201d aqueles que cometiam qualquer deslises contra a comunidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-106305\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/w-r-300x225.jpg\" alt=\"w r\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/w-r-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/w-r.jpg 320w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>De pequenos furtos, roubos, brigas de ruas, bares e de marido e mulher, tudo era resolvido pelo delegado (chamado de cal\u00e7a curta), com o aux\u00edlio do inspetor. A depender do crime praticado, o meliante, pra come\u00e7o de conversa, tinha que respeitar a autoridade e era submetido a uma sova, que podia ser na \u201cm\u00e3o grande\u201d ou outros apetrechos mais apropriados, como a uma palmat\u00f3ria, bainha de fac\u00e3o, ou o pr\u00f3prio, batido com a banda ou folha, para que aprendesse a se comportar.<\/p>\n<p>Mas, pelo que pude observar, n\u00e3o era uma profiss\u00e3o \u2013 se \u00e9 que assim pode ser chamada essa obriga\u00e7\u00e3o \u2013 muito segura, pois tinha l\u00e1 os seus percal\u00e7os, que o diga um amigo meu que assumiu esse posto m\u00e1ximo de seguran\u00e7a em Ferradas. Ao receber a voz de pris\u00e3o do delegado, o bandido que ceifou a vida de um irm\u00e3o de sangue amea\u00e7ou, dizendo de pronto: \u201cSe o delegado est\u00e1 vendo o que fiz com ele, que \u00e9 meu irm\u00e3o, pode imaginar o que farei com o senhor quando for solto\u201d. Imediatamente, a voz de pris\u00e3o se transformou em \u201cesteja solto\u201d.\u00a0O que facultou\u00a0o amigo Faruk a desfrutar sua proveitosa aposentadoria.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Apesar dessas exce\u00e7\u00f5es, a regra era da chamada \u201cmar\u00e9 mansa\u201d, sem grande sobressaltos para a sua seguran\u00e7a, pois os transgressores da lei eram mais chegados \u00e0s contraven\u00e7\u00f5es penais do que aos crimes\u00a0maiores. Pulavam um quintal ali, subtra\u00edam uma mercadoria num ponto de venda\u00a0do\u00a0com\u00e9rcio em geral, ou davam uns tapas numa briga num jogo de gude ou jogavam dados pra valer (apostado).<\/p>\n<p>No caso dos amigos do alheio, a depender do\u00a0modus operandi,\u00a0os agentes da lei j\u00e1 sabiam quem eram os prov\u00e1veis autores e davam uma busca no bairro, inclusive na resid\u00eancia da fam\u00edlia. E essa provid\u00eancia n\u00e3o dependia de nenhum mandado judicial, bastava apenas e t\u00e3o somente a vontade da \u201cautoridade\u201d. Alega\u00e7\u00f5es outras contra a obstru\u00e7\u00e3o da \u201cautoridade policial\u201d simplesmente n\u00e3o eram admitidas e ponto final.<\/p>\n<p>Volta e meia um crime mais significativo, ou fatal, era cometido e a\u00ed, sim, era requisitada a Pol\u00edcia Militar e Civil para dar conta dos fatos. Mas n\u00e3o era todo o dia que um fato dessa grandeza merecesse a aten\u00e7\u00e3o dos verdadeiros agentes de seguran\u00e7a, ou da lei, como costumavam a ser chamados. A cidade ainda gozava de certa tranquilidade.<\/p>\n<p>Os \u201cdelegados cal\u00e7a curta\u201d, dentro das condi\u00e7\u00f5es existentes, davam conta do recado, mesmo que vez em quando eram chamados a aten\u00e7\u00e3o pela condu\u00e7\u00e3o nem sempre legal dos inqu\u00e9ritos. Por ouvir dizer, lembro desses abnegados da seguran\u00e7a que j\u00e1 indiciaram at\u00e9 mesmo animais, como a vaca Florisbela, na vizinha cidade de Itap\u00e9, inqu\u00e9rito esse tornado sem feito pela aten\u00e7\u00e3o de um zeloso promotor de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>No bairro Concei\u00e7\u00e3o, em Itabuna, tamb\u00e9m por ouvir dizer, acumulei conhecimento de muitas dessas hist\u00f3rias \u2013 ou est\u00f3rias \u2013, a depender do grau de credibilidade de quem nos contava. Uma delas me marcou bem, pois foi narrada por uma pessoa tida e havida como de bem, conhecida por Turr\u00e3o, que era antigamente\u00a0chamado\u00a0pelo nome de Albertino C\u00e9sar, zeloso funcion\u00e1rio do Banco do Brasil.<\/p>\n<p>Segundo contou, um desses costumeiros praticantes de contraven\u00e7\u00f5es penais pulou o muro de um vizinho e atacou o galinheiro, subtraindo alguns frangos de ra\u00e7a, mantidos para as hom\u00e9ricas brigas de galo na rinha do bairro da Concei\u00e7\u00e3o. Ao receber a queixa, o zeloso \u201cinspetor\u201d n\u00e3o se fez de rogado e, pelo conhecido\u00a0modus operandi, se dirigiu \u00e0 casa do meliante dando voz de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao resistir \u00e0 voz de pris\u00e3o, tentou correr, mas foi detido prontamente pela grande plateia que acompanhava o inspetor, sendo contido e amarrado com cordas. E o inspetor tinha que prestar contas da a\u00e7\u00e3o com rapidez, haja vista que o propriet\u00e1rio dos galin\u00e1ceos era pessoa de import\u00e2ncia na sociedade, amigo pessoal do prefeito e quase vereador, pois perdeu a elei\u00e7\u00e3o por umas tr\u00eas d\u00fazias de votos.<\/p>\n<p>Para completar o servi\u00e7o era preciso entregar o \u201ctrof\u00e9u\u201d ao delegado para as provid\u00eancias de praxe. Ent\u00e3o a comitiva desfilou pelas ruas do bairro da Concei\u00e7\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 feira livre \u2013 no local onde hoje funciona a FTC \u2013, onde o delegado cal\u00e7a curta trabalhava em sua barraca de farinha. Por onde passavam, a comitiva aumentava, bem como as dores das porradas sofridas pelo amigo do alheio.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 barraca, nosso bravo delegado deixou de atender um fregu\u00eas para dar ouvidos ao subordinado, que contou o crime ocorrido, com a gravidade de ter sido aplicado contra uma pessoa de bem. E assim que a plateia aumentou o suficiente, para o desespero do prisioneiro, o delegado largou a medida de farinha, sacou de seu rev\u00f3lver, e do alto dos seus pulm\u00f5es, em voz solene anunciou:<\/p>\n<p>\u201cTeje preso, seu amarrado!\u201d.<\/p>\n<p>E com o sentimento do dever cumprido ainda ordenou: \u201cLeve-o \u00e0 delegacia para os costumes de sempre!\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, o delegado Juquinha fez um gesto pr\u00f3prios dos vencedores, deu meia volta e voltou a atender ao comprador de farinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walmir Ros\u00e1rio Lembro-me bem que nos tempos em que ainda crian\u00e7a, a seguran\u00e7a p\u00fablica era feita com muito esmero, embora os exageros tamb\u00e9m fossem fecundos. N\u00e3o era pra menos, pois os tempos eram outros, em que n\u00e3o se falava em direitos humanos. 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