{"id":104201,"date":"2020-07-23T19:15:24","date_gmt":"2020-07-23T22:15:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=104201"},"modified":"2020-07-23T19:15:24","modified_gmt":"2020-07-23T22:15:24","slug":"filhos-de-um-povo-heroico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2020\/07\/23\/filhos-de-um-povo-heroico\/","title":{"rendered":"Filhos de um povo her\u00f3ico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Enrique Ubieta G\u00f3mez, no Granma, Cuba<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-104202\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/medicos-cuba-199x300.jpg\" alt=\"medicos cuba\" width=\"199\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/medicos-cuba-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/medicos-cuba-681x1024.jpg 681w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/medicos-cuba.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 199px) 100vw, 199px\" \/>Quando o avi\u00e3o pousou em Havana e parou os motores, sab\u00edamos que o povo estava nos esperando. O povo n\u00e3o \u00e9 uma palavra abstrata, \u00e9 nossa fam\u00edlia, s\u00e3o nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho, s\u00e3o suas pessoas singelas e trabalhadoras. N\u00f3s est\u00e1vamos nervosos, contentes, expetantes. Os rapazes ajustaram-se as batas brancas, s\u00edmbolos da solidariedade, e apertaram com certa torpeza o n\u00f3 da gravata, tal como namorados para o encontro definitivo. A porta abriu. Os restantes passageiros, cubanos que tinham ficado na It\u00e1lia durante meses, aplaudiram. Somente uma senhora, incapaz de compreender, ousou dizer: \u00abPe\u00e7am para lhes aumentarem o sal\u00e1rio\u00bb. Acho que escutou a resposta em nossos olhos.<\/p>\n<p>Minutos mais tarde pisamos na terra sagrada de nossos amores. N\u00e3o somos extraterrestes, somos filhos desta terra, de sua hist\u00f3ria, dos seus valores. N\u00e3o somos her\u00f3is \u2013 orgulhamo-nos, sim, mas nos assusta essa palavra \u2013 porque o hero\u00edsmo entranha certa exclusividade; somos os filhos de um povo heroico. Por isso, embora em outras latitudes pare\u00e7a estranho ou exagerado, nosso presidente nos deu as boas-vindas. E as esposas m\u00e3es e filhos destes m\u00e9dicos e enfermeiros, em um v\u00eddeo previamente elaborado, proferiram uma frase enigm\u00e1tica para o sistema que tudo compra e vende: \u00abEstamos orgulhosos de voc\u00eas\u00bb. Durante o percurso at\u00e9 o lugar onde vamos passar a quarentena, e pensei naquela fot\u00f3grafa italiana que desejava acompanhar-nos para flagrar com sua lente, e talvez, quem sabe para entender ela pr\u00f3pria, como era poss\u00edvel, onde estava o segredo, a magia daquela recep\u00e7\u00e3o em pleno s\u00e9culo 21, de uns simples mortais que n\u00e3o acabam de vencer um campeonato de futebol ou acabam de retornar da Lua. Eles apenas tinham arriscado suas vidas para salvar as de outros.<\/p>\n<p>A resposta, espont\u00e2nea, eu a enxerguei nas ruas. Em alguns trechos n\u00e3o aparecia nenhuma pessoa, inclusive vi passar alguns indiferentes, que n\u00e3o se sentiam motivados a cumprimentar. Mas nos bairros humildes por onde a pequena caravana passou, as pessoas as apressavam a sair, para vitoriar os rec\u00e9m-chegados; das janelas de suas casas ou reunidos \u00e0s pressas nos p\u00f3rticos fam\u00edlias todas, desde o mais novo at\u00e9 o mais idoso, aplaudiam com frenesim. Em zonas muito povoadas, dezenas de vizinhos, esperaram durante horas para ver-nos passar. Como poderia esquecer essas cenas? Como ignorar o compromisso que elas implicavam? Confesso que n\u00e3o sabia se, pegar na c\u00e2mera e agir como rep\u00f3rter, a partir da posi\u00e7\u00e3o privilegiada de passageiro alheio aos fatos, ou deixar que as emo\u00e7\u00f5es colmassem meus olhos, sem sentidos, cada vez que um idoso o um jovem, depois de aplaudir, tocava repetidamente o peito com a m\u00e3o, oferecendo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu me pergunto se aquela fot\u00f3grafa, excelente profissional, teria sido capaz de tirar suas fotos sem lhe sair uma l\u00e1grima. Que grande \u00e9 meu povo! Quanta f\u00faria sente o imp\u00e9rio, ao n\u00e3o poder comprar esses aplausos. Queremos uma vida decorosa, pr\u00f3spera, em correspond\u00eancia com nosso trabalho e nossa entrega, em quaisquer das profiss\u00f5es. Por isso, e porque \u00e9 lesivo a nossa dignidade, condenamos o bloqueio. Mas esses aplausos d\u00e3o medo aos ego\u00edstas, porque falam de outro mundo poss\u00edvel, real. Os m\u00e9dicos e os enfermeiros cubanos s\u00e3o a vanguarda desse mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enrique Ubieta G\u00f3mez, no Granma, Cuba Quando o avi\u00e3o pousou em Havana e parou os motores, sab\u00edamos que o povo estava nos esperando. O povo n\u00e3o \u00e9 uma palavra abstrata, \u00e9 nossa fam\u00edlia, s\u00e3o nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho, s\u00e3o suas pessoas singelas e trabalhadoras. N\u00f3s est\u00e1vamos nervosos, contentes, expetantes. 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